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Duros nas palavras. Moles na ação.

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA

Há governantes que resolvem problemas.

Há governantes que anunciam que vão resolver problemas.

E há, ainda, uma terceira categoria, mais sofisticada: os que aparecem depois do problema resolvido para explicar como foram duros nas palavras.

José Manuel Bolieiro parece estar a especializar-se nesta arte.

Esta semana, o Presidente do Governo Regional revelou que reivindicou junto da República, e cito, “com a dureza das palavras”, a inclusão dos agricultores açorianos nos apoios nacionais destinados a compensar o aumento dos custos dos fertilizantes e de outros fatores de produção.

A frase merece ser apreciada.

“Dureza das palavras.”

É uma expressão curiosa. Sobretudo porque os agricultores não vivem de palavras. Vivem de resultados. E os resultados contam uma história menos épica.

Quando os Açores foram excluídos destes apoios nacionais, os agricultores rapidamente perceberam a injustiça. Fê-lo a Federação Agrícola dos Açores. Fê-lo também o Partido Socialista, ao alertar para a incapacidade do Governo Regional em influenciar decisões junto da República e ao recordar que continuam por chegar aos agricultores os 23 milhões de euros previstos na lei. Pelos vistos, a dureza das palavras ainda não foi suficiente para os fazer atravessar o Atlântico.

Curiosamente, a discriminação foi visível para praticamente toda a gente.

Agricultores sentiram-na. Associações denunciaram-na. A oposição política questionou-a.

O que continua por explicar é porque não foi evitada por quem tinha o dever institucional de a impedir.

Porque a dúvida permanece.

Se a exclusão era tão injusta, tão grave e tão “insana”, como agora ouvimos dizer, porque não foi evitada logo à partida?

Afinal, José Manuel Bolieiro participou recentemente num Conselho de Ministros. Esteve sentado à mesa com o Primeiro-Ministro. Esteve no lugar onde as decisões são discutidas, negociadas e influenciadas. E, no entanto, os Açores acabaram excluídos.

Também o Secretário Regional da Agricultura se pronunciou sobre o assunto. Lamentou a exclusão dos agricultores açorianos, manifestou a expectativa de que a situação fosse resolvida.

Tudo muito compreensível.

Mas governar não é lamentar.

Governar não é esperar.

Governar é influenciar decisões antes que os problemas aconteçam.

E aqui talvez resida o verdadeiro problema.

Enquanto outros denunciavam a discriminação e exigiam a sua correção, enquanto a oposição fazia o seu papel e a Federação Agrícola ia a Santarém, o Governo Regional limitava-se a reagir a uma decisão que nunca deveria ter deixado acontecer.

É a diferença entre influenciar acontecimentos e comentar esses acontecimentos.

É a diferença entre evitar um problema e explicar o problema depois de ele acontecer.

Porque, olhando para tudo isto, a conclusão parece inevitável.

São duros nas palavras, mas moles na ação.

E talvez seja precisamente por isso que os agricultores continuam à espera de resultados que nunca chegam com a mesma velocidade dos discursos.

Primeiro aconteceu o problema.

Depois veio a indignação.

Depois apareceram os lamentos.

Depois chegou a esperança de que tudo se resolvesse.

E finalmente surgiu a dureza das palavras.

É uma sequência interessante.

Normalmente espera-se que a influência política venha antes da discriminação acontecer.

Mas talvez estejamos perante uma nova escola de governação.

Uma espécie de política pós-facto.

Primeiro deixa-se o incêndio começar.

Depois lamenta-se o fogo.

Em seguida espera-se que alguém o apague.

E, no final, explica-se que as palavras utilizadas para descrever as chamas foram particularmente severas.

Porque, olhando para os acontecimentos, fica difícil perceber onde terminou a dureza das palavras e onde começou a eficácia da ação política.

O que se viu foi um Governo Regional mole, a lamentar, a esperar e a indignar-se.

E uma solução a surgir apenas depois de a discriminação ter sido denunciada publicamente e de a pressão se ter tornado impossível de ignorar.

Porque o problema nunca foi a falta de indignação.

O problema foi a falta de influência.

Os agricultores não precisavam de palavras mais duras.

Precisavam de resultados mais fortes.

Precisavam que alguém garantisse, no momento certo, que uma medida nacional fosse verdadeiramente nacional, ou que, pelo menos, cumprissem a lei.

Precisavam que o peso institucional do Governo Regional produzisse efeitos concretos.

Precisavam de um Governo capaz de evitar a discriminação, e não apenas de a comentar.

Por isso é que muitos agricultores começam a olhar para este Governo como olham para certos tratores antigos.

Fazem um barulho impressionante quando estão em ralenti. O motor parece estar a puxar por meia ilha.

Mas quem o observa com atenção percebe que continua exatamente no mesmo sítio. É apenas um trator de escape roto.

E, no fim, aquilo que fica desta história é uma imagem simples.

Duros nas palavras. Moles na ação.

 

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