
Ana Carolina Ferreira
Coordenadora de Medicina Interna no Hospital CUF Açores
Diz a sabedoria popular que “a idade não perdoa”. Como médica, permito-me discordar ligeiramente: a idade transforma-nos, mas não tem de ser um sinónimo de sofrimento. Em consulta, ouço frequentemente frases como “é normal estar esquecido, é da idade” ou “o corpo quer, mas as pernas não obedecem”, e é aqui que precisamos de traçar uma linha clara.
Envelhecer traz mudanças: ficamos grisalhos, o passo torna-se mais lento e precisamos de um pouco mais de tempo para recordar um nome. Isto é a biologia a seguir o seu curso. Contudo, não é normal que a confusão mental impeça alguém de gerir o seu dinheiro, nem é esperado que a dor impossibilite uma caminhada matinal. Se deixou de conseguir fazer o que fazia há seis meses, não culpe apenas o calendário, procure ajuda médica. O diagnóstico precoce, em Geriatria, é a melhor ferramenta para preservar a autonomia.
Outro tema de extrema importância é a revisão da medicação crónica. Com o passar dos anos, é comum acumularmos receitas de diferentes especialistas. Mas o que servia aos 60 anos pode ser prejudicial aos 80. Medicamentos para dormir melhor ou para estabilizar a tensão arterial podem ser a causa de tonturas ou quedas graves. Muitas vezes, menos é mais. À medida que uma condição de saúde evolui, é essencial que a medicação seja revista regularmente pelo médico de família ou internista.
A receita para a longevidade não se vende na farmácia, mas está ao alcance de todos nós cuidar dos quatro pilares que contribuem para manter a independência. O primeiro é o exercício físico porque músculo e equilíbrio são o nosso seguro de vida contra quedas. Caminhar em linha reta, sentar e levantar numa cadeira firme, e treinar força dos braços, são práticas simples que trazem enormes benefícios.
Outro aspeto fundamental é a nutrição. Neste ponto, não podemos esquecer a proteína (ovos, carnes brancas e iogurtes), fracionada em todas as refeições, bem como a hidratação. Uma pessoa idosa pode não sentir sede mesmo quando está desidratada, mas há boas estratégias para evitar chegar a esse ponto: consumir águas aromatizadas e alimentos hidratantes (fruta e sopa), bem como manter uma garrafa de meio litro de água sempre à mão, definindo um número de vezes por dia para a deixar vazia.
No que toca ao sono, outro pilar da longevidade com saúde, importa sublinhar que dormir mal não é uma fatalidade da velhice, mas antes um problema que afeta o cérebro e o humor. Neste sentido, é aconselhável procurar uma maior exposição à luz natural, evitar bebidas estimulantes durante a tarde e noite, e tentar manter padrões de sono regulares.
Por último, mas não menos importante, lembre-se que a estimulação cognitiva pode fazer toda a diferença na forma como envelhecemos: aprender algo novo e continuar a leitura ativa são exemplos de como podemos manter as ligações neuronais vivas.
Além destes quatro pilares da independência, não podemos esquecer a chamada “saúde invisível”. O isolamento social, segundo estudos recentes, é tão prejudicial à saúde como fumar 15 cigarros por dia. Estados de apatia, perda de apetite ou falta de vontade de sair de casa podem ser sinais de depressão ou solidão.
Envelhecer nos Açores, com o mar por perto e a comunidade presente, deve ser, acima de tudo, um processo de celebração da vida. Estar atento aos sinais de que algo não está bem e cuidar do corpo e da mente não é apenas viver mais tempo — é viver com a qualidade e a dignidade que todos merecemos.
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