O outro dia tive a alegria de me encontrar, com um dos meus mestres desde do tempo do Seminário Episcopal de Angra.
Aconteceu numa refeição, daquelas em que degustamos a vida, num serviço de ideias, onde as palavras são acompanhadas pela cumplicidade dos olhares fraternos, e por causa disto transformam-se, inesperadamente, num banquete de amizade, onde a comida deixa de ser o alimento.
Fomos delineando o menu, por sugestão da conversa, entre garfadas inquietas pelas incertezas da vida, mas cortadas pela maior certeza de todas: o Amor.
Entre palavras, o meu mestre fez-me sentir na pele de todas e cada uma das personagens da parábola do bom samaritano (Lc. 10,30-38) em que Jesus responde à pergunta de um doutor da lei: “Quem é o meu próximo?” com uma desconcertante parábola sobre a compaixão e a misericórdia que devemos ter com o nosso próximo.
Resumindo, um homem quase que morre nas mãos de uns salteadores. Um sacerdote, um levita, passaram por ele, viram o seu padecimento, mas ignoraram. Apenas um samaritano, que estava em viagem, aproximou-se, cuidou dele, usando assim de misericórdia para com o homem.
Escolhemos como sobremesa uma dedução, que não vem na lista convencional das reflexões sobre esta parábola. Se este samaritano, não estivesse de viagem, e por isso, sem uma agenda recheada de afazeres e compromissos, não teria parado e sido misericordioso. Provavelmente, o que fez deste samaritano, bom foi a sua disponibilidade de agenda.
Depois de um doce, o café trouxe-nos a amargura de quem é, muitas vezes, escravo das agendas deste mundo e por isso está pouco disponível para amar. Agendar a vida é inevitável, mas viver agendado é evitável, porque retira-nos a liberdade de amar.
Há necessidade de pagar a conta, reconhecemos que é preciso dividir, entre os dois, o valor da vida, temos de ser bons samaritanos.
Não agendamos um próximo encontro, porque uma refeição como esta não se programa, acontece na espontaneidade do amor.
Pe. Nuno Maiato
(Crónica na edição Impressa de julho de 2016)
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