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Nostradamus Liberalis 2.0

Venício da Costa Ponte
Vice-Coordenador da IL Açores

Há profecias políticas que não exigem o alinhamento dos astros, nem a consulta de pergaminhos antigos; exigem apenas a leitura atenta de um balanço contabilístico e uma dose elementar de realismo económico. No teatro político dos Açores, o dossier da SATA transformou-se numa espécie de crónica de um resgate anunciado onde, no final, todos parecem fingir surpresa perante o óbvio. Contudo, os acontecimentos mais recentes,  com o recuo da manifestação de interesse da ALM Investment Holding, que acenava com um investimento estratégico de 500 milhões de euros, elevam o debate de um mero erro ideológico para um cenário de profunda perplexidade institucional.

Há seis anos, quando as primeiras vozes se levantaram (versão Nostradamus Liberalis 1.0),  para alertar que o modelo de gestão da transportadora aérea regional era uma bomba-relógio financeira, a reação do sistema foi unânime. Os arautos do estatismo regional uniram-se numa narrativa de indignação sagrada, tratando a reestruturação e a privatização como atentados à autonomia. O debate foi intencionalmente desviado da eficiência económica para o plano do sentimentalismo político, como se o orgulho açoriano se medisse pelo tamanho do défice acumulado.

O problema de tratar empresas comerciais como extensões da identidade regional é que o mercado global não aceita o patriotismo como moeda de pagamento. Enquanto o poder político local se entretinha a sacudir a água do capote, a realidade económica seguia o seu curso implacável: um plano de reestruturação severo imposto por Bruxelas e centenas de milhões de euros dos contribuintes injetados num poço sem fundo.

A reviravolta desta semana expõe, contudo, uma dupla fragilidade que deve merecer uma reflexão séria. O plano agora frustrado desenhava um futuro ambicioso, assente na transformação das nossas ilhas num hub transatlântico e no reforço da frota. No entanto, a justificação do consórcio para abandonar o processo, alegando que a venda teria de ser concretizada no prazo utópico de dois meses para “preparar o inverno”, introduz um elemento de profunda dúvida. Qualquer observador atento do mundo financeiro sabe que a alienação de um ativo desta complexidade, esmagado por uma dívida de 470 milhões de euros e sujeito ao escrutínio minucioso da Comissão Europeia, jamais se resolveria num bimestre.

É aqui que o cidadão comum fica encurralado numa dúvida desconfortável: o que é pior? A inércia de uma gestão pública que remete decisões para labirintos procedimentais sem fim, ou a falta de credibilidade de propostas cujos prazos parecem deliberadamente desenhados para colidir com a realidade legal do Estado? Exigir o impossível ao decisor público é, muitas vezes, a forma mais fácil de construir uma narrativa de saída para quem, afinal, não pretendia ir até ao fim.

Aqueles que em 2020 foram apodados de radicais por proporem a alienação atempada da companhia limitaram-se a aplicar as leis mais básicas da gravidade económica. Não foi necessária nenhuma capacidade divinatória de um Nostradamus; bastou perceber que nenhum erário público consegue sustentar indefinidamente uma estrutura desenhada para queimar capital. O custo desta teimosia não se reflete apenas no passivo da empresa; reflete-se no custo de oportunidade de tudo o que deixou de ser feito nas nossas nove ilhas em termos de redução fiscal ou apoio à inovação, seja  de que área for.

A saga da SATA deixa um aviso sério. Entre a rigidez burocrática da governação e a volatilidade de supostos salvadores da pátria, a verdadeira autonomia continua refém do improviso. Os Açores precisam urgentemente de um rumo assente no rigor e na transparência processual, evitando que o arquipélago continue a ser o palco de um espetáculo cujos bilhetes são pagos, invariavelmente, pelos mesmos contribuintes.

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