
Carmo Rodeia
Os apelos à simplicidade e ao essencial do Natal ecoam por estes dias em todas mensagens que o Papa e os bispos portugueses, incluindo o de Angra, vão partilhando e que os cristãos, de forma particular, enviam aos seus mais próximos. Por isso, o convite a regressarmos ao presépio, a determo-nos nele e a contemplá-lo a partir da manjedoura, existente no estábulo onde Maria “deu à luz o seu filho primogénito, enrolando-o em paninhos brancos, porque não havia lugar para eles”, depois de uma pandemia, de uma grave situação económica e financeira para tantas e tantas famílias e agora incrédulos com duas guerras de grande proximidade — na Ucrânia e na Palestina —, deve levar-nos a tomar voluntariamente à letra este convite, que se junta ao grito de uma humanidade ferida para quem nasceu e nasce sempre o Salvador.
Na mensagem de Natal que dirige a todos os açorianos pela primeira vez, D. Armando Esteves Domingues afirma que a simplicidade da gruta de Belém “é a mais bela mensagem de Natal” porque nos foca no essencial: “a esperança cristã abre sempre caminho a outra vida”, em que “ninguém fica para trás, marginalizado, abandonado, descartado”.
“Celebramos este Natal num tempo difícil. As noites escuras do mundo continuam a fazer-nos sofrer com os gritos da humanidade: a guerra, a fome, a falta de habitação, as dificuldades financeiras de tantas famílias, a doença, a exclusão, a privação da liberdade, são experiências duras que nos convocam a redescobrir a esperança cristã e a plantá-la no coração de quem vive estes problemas mais de perto” afirma D. Armando Esteves Domingues, pedindo a todos que sejam “sementes de Esperança”.
“O Natal cristão não pode ser apenas feito de bonecos de barro no presépio ou ser reduzido a uma festa social. Tem que ser festa marcada pela Esperança” afirma concretizando: “No cuidado ao outro, como Maria e José cuidaram de Jesus naquela noite em que todas as portas foram fechadas; no amor confiante, de nos sabermos filhos acolhidos nos braços amorosos de Deus Pai; na ajuda ao próximo, com a coragem de nos abrirmos a uma solidariedade concreta, na certeza de que a Estrela de Belém, do Natal de Jesus, irradiam luzes de amor e confiança que continuam a ser mais poderosas que as trevas”.
“Neste Natal, peço-vos que nos disponibilizemos todos, todos, todos para darmos continuidade ao caminho que já iniciamos e que iremos trilhar até 2025, participando e refletindo, a partir da Igreja que somos. Podemos ser sementes de uma esperança renovada para o mundo” exortou ainda lembrando que “as maiores esperanças nascem nos contextos mais sombrios.
Atento ao contexto sócio-político do arquipélago, conclui: “Não haverá crise política que sempre dure, pobreza que sempre exclua, dignidade humana que seja sempre roubada, abuso que seja sempre tolerado…A esperança cristã abre sempre caminho a outra vida: a gestos gratuitos de amor, de ternura e de compaixão, que alimentam uma cultura do cuidado”.
Na mensagem intitulada “Nasceu Cristo, a nossa Esperança”, D. Armando Esteves Domingues presta ainda homenagem ao primeiro presépio idealizado por São Francisco de Assis em Greccio, sobre uma rocha.
Também o Papa, no encontro que teve com os funcionários do Vaticano pediu um olhar especial sobre a fragilidade e a pequenez de um menino Jesus, que nasce entre animais, numa absoluta situação de precariedade.
“Vejam o escondimento e a pequenez de Jesus na gruta; olhem para a simplicidade do presépio em casa; e tenham a certeza de que o bem, mesmo escondido e invisível, cresce sem fazer barulho, o bem cresce sem fazer barulho, multiplica-se inesperadamente e espalha o perfume da alegria”, desenvolveu.
“Não é grandioso nem barulhento, mas, pelo contrário, é o estilo do escondimento e da pequenez”.
“Deus esconde-se na pequenez de um filho que nasce num casal — Maria e José — que não está no centro das atenções, na pobreza de um estábulo, porque não havia lugar para eles no alojamento. Estes são os traços distintivos do Filho de Deus, que então se apresentará ao mundo como uma pequena semente que morre escondida na terra para dar fruto”, desenvolveu.
“O presépio foi criado para nos trazer de volta ao que importa: a Deus que vem morar entre nós, mas também às outras relações essenciais, como a família, presente em Jesus, José e Maria, e os entes queridos, representados pelos pastores”, disse Francisco.
“As pessoas antes das coisas, as pessoas assim como são”, acrescentou o Papa, indicando que as personagens do presépio “são simples, pobres, e estão em harmonia com a criação”, a paisagem ocupa o maior espaço e o boi e o burro nunca faltam”.
“É bom ficar em frente do presépio para reorganizar a vida voltando ao essencial. É como entrar num oásis para escapar da agitação diária, para encontrar a paz na oração e no silêncio, numa ternura impoluta. Penso nas crianças e nos jovens, que correm o risco de indigestão de imagens virtuais e violentas: no presépio podem encontrar genuinidade e criatividade.”
Li por estes dias o testemunho de um sem abrigo de Lisboa. João Ribeiro foi entrevistado pela Agência Ecclesia. Teve a rua como abrigo e, com a ajuda da Comunidade Vida e Paz, conseguiu “renascer para uma vida nova” e agora recorda a quadra natalícia como “angustiante” para quem vive a condição de sem-abrigo. Confessava a angústia que sentia ao ver quem passava com as prendas a caminho de casa!
“Só apetece fugir para um canto para evitar estas imagens que nos recordam o que já fomos e que perdemos”, confessava.
João Ribeiro é o que se pode chamar um “caso de sucesso” no esforço diário da Comunidade Vida e Paz e o processo de recuperação que experimentou permitiu a abertura a outra vida e o acesso a uma profissão e hoje é um homem novo.
Todos os dias lemos notícias de que os sem abrigo estão a aumentar mesmo entre os que trabalham e que não conseguem livrar-se da pobreza. Lemos que há já quem siga da rua diretamente para o trabalho, isto é, pessoas que tendo trabalho não conseguem suportar os custos da vida e têm de abdicar de tantas coisas como de ter casa, de ter um sitio a onde reclinar a cabeça para além de um vão de um prédio ou de uma gare de camionagem ou uma estação de metro.
O Natal pede-nos que renasçamos por dentro para sermos melhores. É uma oportunidade e um desafio. Com tantos cristãos no mundo, gente de boa vontade, teríamos que fazer melhor. A esperança cristã não é uma fezada de que as coisas melhorem. A esperança cristã convida a uma mudança de vida concreta, no quotidiano dos nossos gestos e das nossas atitudes. Protagonizar a esperança é fazer com que Deus aconteça em cada momento da nossa vida e da vida dos outros, começando pelos que nos são próximos. Paciente, mas determinadamente. O mundo tem que ser melhor, mas só se nós o quisermos e fizermos por isso.
Feliz Natal!
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