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A Oeste Nada de Novo: Orçamentando

André Silveira
Empresário

O tempo chuvoso pré invernal antecipa que é chegada aquela altura do ano. É o tempo que cria esperança a quem quer derrubar, e ansiedade a quem se quer manter. O tempo da preparação do plano e orçamento em tempo de minoria parlamentar. Lá na república, a maioria absoluta parecia garantir uma passagem tranquila pelo processo este ano. Ora o ministério público comprometeu-se com os tempos da justiça e com um parágrafo que ao dia de hoje ainda não se entendeu plenamente, criou o espaço para o primeiro ministro se demitir depois de potencialmente envolvido num caso de corrupção com o vários elementos próximos de si constituídos arguidos.

Com tanto alarido, por cá quase passou ao lado a constatação que o nosso plano e orçamento muito provavelmente se prepara para ser chumbado no parlamento regional. Entende-se que no meio da tempestade mediática, entre guerras no mundo e, de novo, casos de corrupção de governantes do PS ao mais alto nível, a antevisão de uma crise política regional tenha ficado para segundo plano. Afinal de contas, a atratividade da política regional está de rastos, e o interesse é pouco, mesmo perante um cenário preocupante para a região.

PS/A, Bloco de Esquerda, IL já afirmaram votar contra, o PAN, assumindo servir para pouco, vai-se abster. O Chega, dando por boas as promessas e juras de desamigação, também votará contra. Não sabemos o que o deputado independente irá fazer, mas neste cenário já não salvará a honra do orçamento, que cairá. Pelo lado da coligação ocidental que suporta este governo, já se afirmou que não há demissão nesse cenário, o que para os Açores seria péssimo, mas taticamente defensável dadas as circunstâncias. Ora vejamos:

Se o governo se demitir, teremos eleições regionais na melhor das hipóteses lá para Fevereiro, na prática novo orçamento lá para Junho, ou seja, 6 meses sem orçamento recorrendo a duodécimos. Se não se demitir, teremos até ao final do ano, caso o Bloco ou o PS/A não coloquem uma moção censura que passe no parlamento regional. Seria muito estranho que depois de chumbar o orçamento a oposição, a de facto e a encapotada, não votasse sim à destituição do governo. Dada a dispersão de lugares no parlamento regional, com 4 representações sem possibilidade de colocar uma moção de censura, só o Bloco de Esquerda e o PS/A podem-no fazer.

Assumindo que o Bloco não quererá fazer neste momento o favor ao PS/A, toda a responsabilidade recai sobre Vasco Cordeiro. Não é novidade que o ex presidente do Governo Regional não tem o perfil de pessoa disruptiva, muito menos reformadora. Como tal, será preciso uma mobilização abrangente do partido que lhe dê a confiança para se chegar à frente, mesmo sabendo que tal pode hipotecar as suas ambições europeias.

Vasco Cordeiro é um político profissional, e seria o mundo ao contrário se optasse por ir fazer número para o parlamento europeu em detrimento de voltar a liderar a sua terra. Se não o fizer terá a (sua) oposição a gritar que terá o ónus de deixar a Região no pântano dos duodécimos. De facto, o PS/A tem muito mais responsabilidade em derrubar o Governo, do que tem o Governo em se demitir no caso de chumbo do plano e orçamento. Cabe à oposição mostrar que quer governar e que para tal está pronta, com projeto e pessoas. Ora acontece que não está, ou pelo menos não está o PS/A. Sob a liderança do que perdeu o poder, o maior partido da oposição não soube-se renovar, nem em pessoas, nem em projeto. Que retórica irá apresentar Vasco Cordeiro para aliciar o eleitorado entretanto perdido? Como poderá afirmar que votar no PS/A, e nele, não é um regresso ao passado? Um desafio que me parece inultrapassável.

Com o cenário de não haver uma maioria resultante das próximas regionais que consiga constituir governo, ou pelo menos que se apresente estável, as perspectivas de os Açores terem um governo que tome as rédeas dos enormes desafios que se nos apresentam, são cada vez mais escassas. Os Açores necessitam de uma forma nova de governar, com novas pessoas e, mais importante, com novas políticas. Para tal, e dado ambiente político atual, a utopia seria um pacto de regime entre os maiores partidos acerca das principais questões de médio e longo prazo: A sustentabilidade do SRS, a SATA, a reforma da
pecuária, o turismo, o mar, a educação, entre outros. Assumindo que ambos os partidos teriam a vitalidade de levarem a cabo profundas reflexões internas, ou de que seriam capazes de uma renovação mais do que necessária. Estamos longe disso.

Já José Manuel Bolieiro irá seguir igual a si próprio. Não irá fazer nada e esperar que algo aconteça, ao mesmo tempo que (quase) todo um partido o apoia incondicionalmente, mesmo que tal prejudique profundamente o que interessa: Os Açores e os Açorianos. Também não há grande novidade aqui. Irá-se vitimizar não se demitindo, ao contrário do que se esperaria de quem está desapegado do poder, mas que se vê refém da solução de que é pai. Se não tivesse havido Vasco Cordeiro, José Manuel Bolieiro teria sido o pior presidente do governo regional dos Açores nesta autonomia com quase 50 anos. Prometeu reformar, não reformou, prometeu fazer diferente, fez exatamente igual. A ilha que o elegeu ficou esquecida, e sucumbiu à força, e competência diga-se, dos seus parceiros de coligação. Pelo caminho perdeu o apoio parlamentar dos que lhe deram a oportunidade de governar. Construiu uma retórica de não opção em relação à coligação e amarrou-se a uma solução que no final pode muito bem levar à perda do poder. Que retórica poderá apresentar aos Açorianos, que retórica poderá apresentar aos Micaelenses?
Os Açores merecem mais e melhor.