
A Associação Agrícola de São Miguel (AASM) vai assinalar, no próximo dia 27 de maio, o Dia Nacional da Agricultura com uma iniciativa de grande escala inteiramente dedicada às crianças. De acordo com a nota de imprensa enviada pela organização, o evento vai reunir mais de 3.000 alunos de diversas escolas da ilha de São Miguel, proporcionando-lhes uma experiência enriquecedora de aproximação ao mundo rural fora do contexto tradicional da sala de aula.
Esta ação é promovida em parceria com o Governo dos Açores e com a Confederação dos Agricultores de Portugal. O evento conta ainda com a colaboração de várias entidades públicas, privadas e cooperativas da região, unidas no propósito de sensibilizar os mais novos para a relevância estratégica do setor primário.
O principal objetivo da iniciativa é dar a conhecer às novas gerações a importância crucial que a atividade agrícola desempenha na economia regional dos Açores, bem como o seu papel determinante na sustentabilidade e na preservação do território e da paisagem açoriana. Ao longo de todo o dia, os milhares de alunos do ensino básico terão a oportunidade de participar em diversas atividades educativas, interativas e lúdicas, concebidas especificamente para a sua faixa etária, que incluem ainda o contacto direto com animais da quinta.
Com a organização deste dia festivo e pedagógico, a AASM refere em comunicado que reitera o seu compromisso na promoção e valorização da agricultura junto dos cidadãos do futuro. A associação sublinha ainda que este evento pretende não só quebrar barreiras entre o meio urbano e o meio rural, mas também incentivar uma maior proximidade e empatia entre a comunidade escolar e o quotidiano dos produtores agrícolas da região.

No final dos anos sessenta, o meu avô João passou uma temporada em New Bedford. Foi a forma que o seu sobrinho Jánin encontrou para retribuir a hospitalidade que, anos antes, o seu tio lhe oferecera em sua casa.
Sabendo dos constrangimentos que ele enfrentava por causa da surdez progressiva num ouvido, o Jánin levou-o a um conceituado otorrinolaringologista de Boston. Foi ali que o médico, com uma pistola que parecia saída de um laboratório futurista, lhe devolveu o som. Uma simples picada, seguida da colocação de um catéter minúsculo, que mantinha aberto o caminho recém-criado para a audição.
Durante dias, o meu avô viveu em êxtase. Dizia sentir-se leve, rejuvenescido, a ouvir tudo e todos — até a gargalhada de um melro negro que regressava ao ninho na árvore ao fundo do jardim.
Mas, de regresso a São Miguel, o paraíso começou a esbater-se. Poucos meses depois, voltámos a vê-lo com o semblante triste, resmungando quando lhe dizíamos que o si bemol que ele acreditava arrancar do violoncelo nos soava a lá natural. Os ensaios do trio Lima — contratado para casamentos e festas pela ilha — eram interrompidos por breves explosões de impaciência, sempre que lhe chamávamos a atenção para as frequentes desafinações. Nessas alturas, pousava o arco na estante, encostava o violoncelo, levantava-se devagar e desaparecia para ir tirar umas boas fumaças do seu fiel Santa Justa sem filtro.
Um dia, depois de dar uma aula de violino ao filho de um médico, o meu pai expôs-lhe o problema do meu avô. Sentia-se à vontade com o Dr. Ângelo Flecha Ançã, licenciado por Coimbra em 1950, otorrinolaringologista no IPO de Lisboa e com estágios em Nova Iorque, Boston e Vancouver. O médico concordou em recebê-lo poucos dias depois.
No seu consultório da Rua do Valverde, perto da igreja matriz de Ponta Delgada, o Dr. Ançã observou longamente o meu avô. Depois, levantou-se, abriu um móvel, retirou uma caixa e pousou-a sobre a secretária. Abriu-a e mostrou o tal instrumento mágico, igual ou semelhante àquele que, em Boston, lhe devolvera a audição.
— Trouxe-o o ano passado dos Estados Unidos. Testei-o lá várias vezes, mas está por estrear aqui nos Açores — disse o médico.
— Então, Sr. Doutor, faça o favor de fazer como o seu colega de Boston — pediu o meu avô.
E assim a operação repetiu-se. O sorriso regressou-lhe ao rosto. E os sons do violoncelo, do violão ou da flauta voltaram a fluir mais límpidos, mais livres, como se a música tivesse finalmente reencontrado o caminho de volta até ele.
Este episódio consolidou a amizade que já unia o meu pai ao otorrinolaringologista. Durou, porém, pouco tempo. O Dr. Ançã, nascido em Beja a 5 de setembro de 1923, faleceria a 18 de maio de 1971, contando apenas 47 anos de idade. Confirmei, recentemente, que o consultório do Dr. Ançã mantém todos os instrumentos de ORL guardados em expositores, tipo museu, e que o mesmo consultório mantém atividade médica pela filha na especialidade de Psiquiatria.

A presidente da AEA falou à nossa reportagem à margem do 4.º Fórum das Migrações, realizado entre 8 e 10 de abril sob a organização da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades do governo açoriano, sob tutela de Paulo Estêvão. O fórum, que teve lugar no Corvo e nas Flores, focou-se nas oportunidades e dificuldades que a imigração traz aos Açores, contando com a participação de académicos, autoridades e residentes imigrantes.
A responsável começou por destacar o papel do fórum enquanto espaço de reflexão e aprendizagem coletiva, afirmando que “o Fórum é uma causa muito importante para promover as migrações e dar a entender as lutas que os imigrantes e os emigrantes têm passado e com estes fóruns vamos aprendendo sobre essas experiências e também nos ajuda a saber de que forma podemos ajudar a melhorar estas lidas de migração”.
No que diz respeito ao trabalho da associação, Andrea Moniz-DeSouza explicou que a Associação dos Emigrantes Açorianos atua em duas frentes principais: o acompanhamento da diáspora e o apoio aos emigrantes que regressam aos Açores. Segundo referiu, “temos aquela parte de trabalhar com a diáspora lá fora e também temos aquela parte de trabalhar com os emigrantes que estão a regressar”.
A presidente da associação detalhou que esse regresso ocorre por diferentes motivos, incluindo escolhas pessoais e situações de vulnerabilidade.
“Temos uma mistura que está a regressar por decidir que está naquele tempo de vida que quer a vida mais calma e quer voltar para a terra natal e tem alguns que têm que vir de razões como de deportações e outros casos de mais vulnerabilidade”, explicou.
Nesse contexto, esta dirigente sublinhou a importância do acompanhamento social e humano destes processos, afirmando que “nós estamos aqui para apoiar nesse aspeto e porque é muito importante quando a pessoa regressa também sentir-se que a parte da terra às vezes precisa de acolhimento e apoio”.
Além do trabalho de integração, a responsável destacou ainda a dimensão internacional da atuação da associação, que procura manter vivos os laços com as comunidades emigrantes espalhadas pelo mundo.
“Também para nós é muito importante continuar a promover os nossos Açores na diáspora e sempre ficar naquela ponte e dar mais força aos laços entre os nossos imigrantes que estão na diáspora e os Açores”, afirmou Andrea Moniz-DeSouza, reforçando que a missão da organização passa precisamente por essa ligação contínua entre comunidades.
“A nossa associação tem esse papel de trabalhar com a diáspora cá fora e também apoiar os nossos emigrantes que estão a regressar”, concluiu.

Elisabete Nóia, presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores, destacou o potencial geográfico, económico e humano da ilha das Flores, nos Açores, considerando essencial “promover o concelho no exterior e criar condições para combater a perda populacional através da atração de turistas, investidores e imigrantes”. Declarações dadas à nossa reportagem no âmbito do 4.º Fórum das Migrações, promovido pela Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades do governo dos Açores, tutelada por Paulo Estêvão, nas ilhas do Corvo e das Flores, entre os dias 8 e 10 de abril, uma iniciativa que reuniu especialistas, académicos, instituições, associações, autoridades, membros da sociedade civil e imigrantes residentes no arquipélago para “debater os desafios e oportunidades das migrações nos territórios ultraperiféricos”.
Elisabete Nóia começou por caraterizar a ilha das Flores como um território singular no contexto europeu e atlântico, lembrando que representa “o ponto mais ocidental da Europa”. Para a presidente, a ilha assume-se como “uma plataforma no meio do oceano Atlântico”, funcionando como ponte entre continentes e culturas.
Segundo a autarca, o território reúne influências distintas por estar integrado em Portugal e na Europa, mantendo simultaneamente fortes ligações históricas e humanas ao outro lado do Atlântico.
“Nós temos influência da cultura europeia, somos europeus, estamos integrados em Portugal, na comunidade europeia, mas também temos uma grande ligação, através do Atlântico, às comunidades do outro lado do Atlântico”, afirmou, referindo os Estados Unidos, Canadá, Brasil e a América Latina.
Sobre a identidade local, Elisabete Nóia descreveu os habitantes da ilha como um povo “ilhéu, resiliente às tempestades”. Natural das Flores, disse rever-se nesse sentimento de pertença e resistência, explicando que viver na ilha exige persistência perante o isolamento e as condições naturais.
“É difícil de cá viver, é difícil de cá chegar, mas é maravilhoso”, enfatizou.
Para a presidente da Câmara, a ilha oferece algo raro no mundo atual, como “tranquilidade e segurança”.
“Representa-nos paz de espírito, é este cantinho no mundo que representa a paz, a segurança e, para mim, é o melhor sítio do mundo para se viver”, afirmou.
Questionada sobre o concelho de Santa Cruz das Flores, a autarca descreveu a população como “gente de teimosia, resiliente, gente forte”, historicamente ligada aos recursos naturais. Segundo explicou, a economia local vive tradicionalmente “do mar e da terra”, através da pesca e da agricultura, tendo o turismo ganho relevância nos últimos anos.
“Abrimos a nossa ilha recentemente, na última década, a acolher muitos visitantes”, disse, acrescentando que o objetivo passa por mostrar aos turistas “a cultura açoriana, as nossas tradições”. Entre os principais atrativos, destacou a gastronomia, lagoas, cascatas, grutas, passeios marítimos e paisagens naturais.
Relativamente ao perfil de quem visita a ilha, Elisabete Nóia considera tratar-se de um segmento turístico com capacidade financeira acima da média, atendendo aos custos de deslocação.
“Vir às Flores, por si só, o pagamento dos transportes já é caro”, afirmou, acrescentando que quem procura o destino revela verdadeiro interesse em conhecer o território.
Na área económica, a presidente defendeu uma estratégia ativa de promoção externa, revelando que o município pretende marcar presença em eventos nacionais e internacionais, depois de já ter participado na Bolsa de Turismo de Lisboa.
“Temos um projeto também de tentar participar em todos os fóruns, sejam eles nacionais ou internacionais, para capitalizar o máximo possível a economia local”, explicou.
Além do turismo, Elisabete recordou que a ilha exporta peixe e carne, sublinhando ainda o estatuto internacional das Flores como Reserva da Biosfera da UNESCO.
“Nós somos Reserva da Biosfera da Unesco desde 2009”, afirmou, considerando que essa distinção dá visibilidade externa e pode ajudar a “atrair riqueza e atrair investimento à nossa terra”.
Neste sentido, a autarca destacou a importância das políticas migratórias para responder ao declínio demográfico. Ainda no âmbito do 4.º Fórum das Migrações, defendeu que a ilha deve passar a mensagem de que “aqui vive-se bem, aqui consegue-se fixar família, aqui consegue-se ter boa qualidade de vida”.
Segundo explicou, estes encontros permitem mostrar ao exterior exemplos positivos de integração, dando voz aos imigrantes residentes para que “partilhem a sua experiência e deem a conhecer que conseguem aqui fixar vida, fazer família e residirem aqui plenamente”.
Outro dos temas abordados foi a instalação de uma estrutura da AIMA em Santa Cruz das Flores, medida recebida “com muito agrado” pela presidente. Até agora, muitos imigrantes tinham de se deslocar à ilha do Faial para tratar da documentação, suportando custos adicionais.
“Os imigrantes que cá vivem também têm direito a ser auxiliados”, afirmou, considerando que o novo serviço poderá facilitar processos administrativos e criar condições para fixar mais pessoas na ilha.
A concluir, Elisabete Nóia deixou um convite a quem ainda não conhece as Flores.
“Que nos visitem, conheçam a nossa realidade”, salientou, garantindo a hospitalidade da população local e reforçando que o povo florentino e as Flores têm “muito, muito, muito a oferecer”.

Chama-se Rostyslav Ruslanovich Hutsol, é natural da cidade de Podilsk, na Ucrânia, tem atualmente 21 anos e vive em Portugal há quatro. Já visitou os Açores, a convite de Álvaro Borges, um amigo açoriano natural de Água de Pau e, nesta entrevista, o jovem fala da sua experiência e partilha a sua visão sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.
DL: Como é que foi chegar a Portugal sozinho? Foi um percurso difícil?
Não foi difícil, mas foi estranho e, ao mesmo tempo, muito interessante. Cheguei a Portugal numa espécie de autocarro, juntamente com uma família e com outra senhora mais velha. Eram todos refugiados, tal como eu. O que tornou esta experiência mais interessante foi ter ajudado esta senhora, que já tinha alguns problemas de memória, durante a viagem.
DL: Como foi tomada a decisão de sair da Ucrânia?
Saí da Ucrânia por causa da guerra. O meu pai disse-me que tinha um amigo em Portugal e que o melhor seria vir viver para cá, porque ainda não sabíamos o que iria acontecer. Ele contactou esse amigo, que disse que não havia problema. Nos primeiros tempos, fiquei a viver com ele e com a sua família, em Leiria.
DL: Como foi o processo de equivalência escolar, tendo em conta que ainda tinha 17 anos? Chegou a matricular-se numa escola?
Acredito que tenha sido um processo normal. O amigo do meu pai ajudou-me com os documentos necessários e acompanhou-me à Câmara Municipal de Leiria, passando a ser o meu responsável. Não foi necessário matricular-me numa escola, porque vim na qualidade de refugiado. Cheguei a Leiria em maio, fiquei por lá durante algum tempo e, depois, concorri ao curso de Tradução da Universidade de Lisboa. Já estudava tradução na Universidade de Kiev quando a guerra eclodiu e estava decidido de que essa era a minha área. Quando cheguei a Portugal ainda não sabia falar português, mas tive a oportunidade de ter aulas em inglês, o que me ajudou muito. Estou, atualmente, no quarto ano da licenciatura.
DL: A sua família continua na Ucrânia?
Sim, a minha família ainda lá vive. Estão bem, vivem longe da linha de batalha. Mas há muitas famílias que, mesmo estando em zonas de batalha, preferem ficar, porque têm ali a sua vida toda.
DL: Já voltou à Ucrânia desde que começou a viver em Portugal?
Sim, estive lá em 2023.
DL: Conhecendo agora os dois países, encontra muita diferença entre os valores de Portugal e da Ucrânia?
Acho que os políticos ucranianos tentam adotar muitos valores da União Europeia, mas reparo que muitas ideias aceites em Portugal não são tão bem recebidas pelo meu povo, por exemplo, os direitos da comunidade LGBTQIA+ ou a entrada de trabalhadores estrangeiros. Os ucranianos são muito patriotas, ainda mais com a guerra.
DL: O Álvaro Borges trouxe-lhe aos Açores em 2023. Quando visita o arquipélago, o que mais o fascinou?
Apaixonei-me pela natureza, principalmente pelas cascatas e pelas florestas. Senti-me numa nova realidade, rodeado de novas pessoas e de uma arquitetura tão diferente da de Lisboa. Os Açores abriram um mundo novo para mim. Voltei em dezembro de 2024 e 2025, sempre durante o Natal. Na segunda vez que voltei, fui até reconhecido por algumas pessoas. Senti que estava numa aldeia onde as pessoas se conhecem todas e notei que há muita ligação entre todos. Fiquei surpreendido, pela positiva, com o facto de as famílias nos Açores serem muito unidas.
DL: Qual foi a sua reação ao saber que o Álvaro tinha ido à Ucrânia e de que forma essa visita o marcou?
Fiquei surpreendido pela positiva e senti muito orgulho dele. Quando ele voltou, tive interesse em perguntar-lhe as diferenças e semelhanças entre os nossos povos, quis saber o que ele tinha aprendido, como foi a sua experiência e o que sentiu sobre a minha cultura e o meu povo. Do que me contou, o que mais me surpreendeu foi o facto de o Álvaro não ter tido medo quando lá esteve.
DL: Em fevereiro deste ano, Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora ucraniana em Lisboa e ela agora vem aos Açores. O que sentes em relação ao que se tem conquistado para unir estes dois povos?
É muito bom que o Álvaro tente abrir esta porta sobre a Ucrânia, porque, na minha opinião, os açorianos não têm muitas informações sobre o que se passa em geral na guerra. Acho que as pessoas não percebem a dinâmica histórica entre a Rússia e a Ucrânia; muitos até acreditam que somos o mesmo povo, e outros têm uma imagem da Rússia muito diferente da realidade. A Rússia é um país forte, mas não de forma tão exagerada como descrevem aqui.
DL: Qual é a sua visão, enquanto ucraniano, sobre o conflito?
É muito difícil de descrever, porque vocês aqui não estão em guerra e torna-se complicado de perceber. Quando eu cheguei a Portugal, no início, dava por mim a pensar: “Isto está a acontecer, isto é mesmo real, não é um sonho”. Agora, a guerra causa-me tristeza, mas também esperança de que o futuro será melhor. Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz nas melhores condições para a Ucrânia.
DL: Acredita na possibilidade de um acordo entre a Rússia e a Ucrânia?
Na minha opinião, há uma possibilidade, mas muito baixa. Na história moderna, já tivemos acordos com os russos, mas eles violaram-nos sempre. É por esta razão que tenho muitas dúvidas sobre um possível acordo. Em Portugal, muitos pensam que, se se entregar a Ucrânia à Rússia, a Rússia ficará satisfeita, mas a verdade é que o país iria procurar outro ato agressivo.
DL: Como olha para o seu futuro?
Agora é um pouco difícil de decidir por causa da guerra. Num cenário ideal, gostava de voltar para a Ucrânia, mas não sabemos como será o futuro. Se a guerra não acabar, acho que a probabilidade de eu ficar em Portugal é muito alta. Também gostaria de morar nos Açores.
DL: Que mensagem gostaria de deixar aos leitores?
Acho que o nível de apoio dos açorianos aos ucranianos é alto, mas acredito que, se querem saber mais sobre a nossa história, devem fazer mais pesquisas sobre nós e sobre a história da relação entre a Rússia e a Ucrânia, não se baseando apenas na informação diária dos media.

A Delegação dos Açores da Associação de Solidariedade Social dos Professores, sediada em Ponta Delgada, acolheu a sessão de abertura das comemorações do 45.º aniversário da instituição, um momento marcado pelo reconhecimento oficial do impacto comunitário e social daquela que é a maior estrutura de solidariedade docente no país. De acordo com a nota informativa enviada pela autarquia micaelense, a vereadora com o pelouro da Ação Social da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Cristina do Canto Tavares, fez questão de sublinhar a relevância histórica da associação, apontando que esta “soube crescer, adaptar-se e afirmar-se como a maior instituição de solidariedade de professores em Portugal, desenvolvendo uma ação abrangente nas áreas social, cultural, científica, recreativa e humana, sempre orientada pela valorização das pessoas, pela promoção da cidadania ativa e pelo fortalecimento dos laços comunitários”.
A governante municipal destacou o forte pilar humanista da instituição e a vasta rede de proximidade construída ao longo de quase meio século de existência através de núcleos distribuídos pelo Continente, Açores e Madeira. Focando a sua intervenção na vertente de intertextualidade e ligação comunitária promovida pelas atividades de envelhecimento ativo, Cristina do Canto Tavares referiu que “a associação promove não apenas a preservação da memória coletiva dos professores, mas também a transmissão de conhecimento, valores e experiências entre gerações”, sustentando que, no fundo, “um professor não tem idade”. O contributo local da Delegação Regional dos Açores, que no ano transato assinalou as suas bodas de prata, foi igualmente alvo de rasgados elogios por parte da vereadora, que endereçou palavras de profundo reconhecimento e mérito à presidente da estrutura em solo açoriano, Eduarda Viveiros, pelo trabalho direcionado à inclusão e convívio dos docentes aposentados.
As celebrações do aniversário da ASSP prolongam-se até ao próximo sábado na ilha de São Miguel sob o lema “(Re)encontros e Desafios”, preenchendo a agenda local com uma programação de cariz marcadamente cultural, que engloba conferências, visitas guiadas e apontamentos musicais. O arranque do programa ficou pautado pela partilha de conhecimento académico, incluindo uma palestra conduzida pelo professor Avelino Meneses dedicada ao tema “A Autonomia dos Açores (um processo)”, e uma dissertação sobre a “Flora Autóctone dos Açores”, a cargo do investigador Teófilo Braga. O evento inaugural encerrou com uma nota artística e literária, corporizada num momento de declamação de poesia protagonizado pelos professores Fátima Sousa e José Carlos.

O Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, recebeu as primeiras três viaturas elétricas de um lote de 76 destinadas a reforçar a frota do Serviço Regional de Saúde, num investimento integrado no Plano de Recuperação e Resiliência que visa aproximar os cuidados médicos dos cidadãos açorianos. A entrega dos veículos decorreu na sexta-feira, 22 de maio, e foi assinalada numa cerimónia presidida pela secretária regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi, que, em nota enviada à imprensa pela tutela, sublinhou o impacto desta modernização na melhoria das condições de segurança e na operacionalidade diária dos profissionais que servem a comunidade regional.
Esta renovação automóvel assume particular relevância ao substituir veículos com várias décadas de uso, garantindo uma resposta mais célere e eficaz às necessidades dos utentes em todas as ilhas. Conforme explicou a governante na mesma ocasião, “esta aposta permite continuar a aproximar os cuidados de saúde das pessoas e representa um investimento estratégico em todas as ilhas dos Açores, renovando a frota automóvel e possibilitando uma resposta ainda mais eficaz às necessidades dos utentes”. Paralelamente ao reforço logístico, o hospital de referência da ilha de São Miguel foi também dotado de novos recursos tecnológicos de vanguarda no âmbito da segunda candidatura ao PRR — a qual prevê a aquisição de 165 equipamentos para as várias unidades de saúde dos Açores, encontrando-se já mais de metade do material entregue.
Entre as principais novidades tecnológicas agora alocadas ao hospital destacam-se um sequenciador de nova geração (NGS), avaliado em 398.142 euros, um sistema EBUS para eco vídeo broncoscopia, que representou um custo de 156.250 euros, e um sistema de deteção de gânglio sentinela vocacionado para a área do cancro da mama, num valor de 31.500 euros. Mónica Seidi fez questão de frisar que estes investimentos traduzem-se num “reforço muito significativo da capacidade tecnológica e clínica” na Região Autónoma, com impactos diretos no diagnóstico laboratorial, na diferenciação hospitalar e na eficácia do rastreio do cancro do pulmão.
A terminar, a secretária regional enalteceu publicamente o esforço das administrações e dos técnicos envolvidos, destacando “o trabalho muito intenso das equipas” para assegurar o cumprimento das metas estipuladas pelo plano de modernização europeu.

DL: Relativamente à questão do preço do leite pago ao produtor, estamos aqui com uma espécie de impasse, não é?
Sim. A questão do preço do leite para nós é sempre preocupante, principalmente quando vivemos das receitas e despesas residuais. Qualquer descida no preço é complicada para o rendimento e para a economia agrícola. O que vemos é um contraciclo mundial: tudo sobe, inclusive para o consumidor, mas o preço pago ao produtor baixa. Nas hortícolas, frutas e carne, os rendimentos sobem mesmo com o aumento dos custos. No leite, passa-se o contrário: os custos aumentam e o preço baixa, gerando perda clara de rendimento.
DL: Como é que se resolve isso?
É uma situação difícil de compreender. Houve baixas internacionais, mas as subidas lá fora são muito mais acentuadas do que na região. Esperamos que a situação se inverta, pois o que se avizinha é difícil devido ao impacto brutal dos combustíveis, que afeta fertilizantes, sementes e cereais. Se o preço do leite não subir no inverno, passaremos por grandes dificuldades. Não vejo medidas dos Governos regional, nacional ou da União Europeia para minimizar este impacto. A Espanha, por exemplo, é um bom exemplo de política proativa com ajudas diretas no combustível, algo que não assistimos aqui.
DL: E o que é que acha dessa falta de medidas?
Acho que a Europa ignora um setor vital. Estão focados na guerra e na defesa, mas não se pode investir na defesa e desinvestir na agricultura. Isso torna a Europa mais pobre, dependente de terceiros e fragilizada na sua autossuficiência alimentar. O setor leiteiro precisava de fundos de compensação para crises, algo que nunca foi criado e nem parece estar projetado. Devia haver um fundo para situações anormais.
DL: Na prática, o que impede a criação de um mecanismo regional que garanta que o aumento do preço no supermercado chegue diretamente ao produtor?
Há muita fiscalização em algumas áreas e pouca em outras. O mercado passa pela livre concorrência, mas devia haver um instituto nacional ou europeu — como em França, que comunica bem ao consumidor que pagar mais pelo produto reflete-se na produção. Nós assistimos a descidas no preço pago ao produtor, mas o consumidor não vê descidas nos laticínios. A grande distribuição deveria dividir melhor as margens em toda a fileira; nós somos sempre os mais prejudicados.
DL: É utópico pensar que os Açores podem um dia produzir os seus próprios alimentos para o gado, ou estamos condenados a ser “reféns” dos mercados externos?
Estamos condenados a depender de fatores externos porque a nossa superfície agrícola é limitada. Nunca fomos autossuficientes em cereais. Para sermos menos dependentes, teríamos de baixar drasticamente a produção de leite e carne, o que não é viável. Aumentamos a produção de milho forrageiro, o que ajuda, mas a dependência de cereais externos é impensável de inverter agora. O que precisamos é de transportes marítimos competitivos. Defendo indemnizações compensatórias para o transporte marítimo, tal como existem para o aéreo, pois a economia dos Açores faz-se pelo mar.
DL: A diversificação para as fruteiras, flores ou agricultura biológica é um caminho real ou continua a ser um discurso secundário perante o peso dos laticínios?
Elas complementam-se. Podemos crescer em todas as áreas, e sou um grande defensor das produções locais. Quanto mais produzirmos, melhor para a balança comercial. O mercado de proximidade é um bom exemplo de venda direta que encurta a cadeia. No entanto, temos dois problemas graves: a falta de mão de obra, que condiciona tudo, e as condições climatéricas adversas.
DL: Acha que os produtores deviam pensar nos seguros?
Os agricultores pensam nisso, mas os governos e a Europa é que têm de pensar seriamente em criar seguros agrícolas fiáveis para intempéries. É muito mais barato para a região ter seguros do que ficar à espera de ajudas do Governo após cada tempestade. É preciso um trabalho de reflexão para dar segurança a quem quer produzir.
DL: As exigências de bem-estar animal estão a subir. Estão os produtores açorianos capacitados para responder a isso sem perderem competitividade?
Totalmente preparados não, mas estamos em evolução constante. A produção evoluiu muito mais que a indústria em termos genéticos e de pastagens. O conceito das “vacas felizes” foi o melhor marketing feito até hoje, mas a indústria não soube alimentar o projeto convenientemente. Hoje, o leite de “vacas felizes” é pago quase ao preço do leite normal, o que não é apetecível para o produtor. O marketing não se faz por um ano ou dois; alimenta-se.
DL: Que mensagem deixa em relação ao futuro?
Somos muito resistentes e resilientes. Trabalhamos 365 dias por ano. O meu desígnio é que não tenhamos a obsessão pela quantidade, mas sim pela qualidade e excelência. A produção tem feito a sua parte; esperamos que a indústria e o Governo continuem a investir em infraestruturas e apoios para valorizarmos em conjunto este produto de excelência que é o leite dos Açores.

Paulo Fontes, professor da Universidade dos Açores, destacou a necessidade de repensar o papel das migrações nas políticas públicas regionais, defendendo uma abordagem mais abrangente e integrada. Declarações dadas à margem do 4.º Fórum das Migrações, uma iniciativa promovida pela Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades do governo dos Açores nas ilhas do Corvo e das Flores, entre os dias 8 e 10 de abril, reunindo especialistas, académicos, instituições, associações, autoridades, membros da sociedade civil e imigrantes residentes no arquipélago para “debater os desafios e oportunidades das migrações nos territórios ultraperiféricos”.
Ao longo da nossa conversa, o docente alertou para a visão redutora que muitas vezes é atribuída aos imigrantes, afirmando que não se deve “olhar só para os imigrantes como alguém que vem colmatar uma falta de mão de obra, porque isso é sinal que a economia não funciona bem”.
Segundo este especialista, essa realidade revela fragilidades estruturais, uma vez que “não valoriza certas profissões e não paga bem certas profissões, por isso é que até os locais não as querem exercer”.
Apesar disso, reconhece que, numa fase inicial, os imigrantes podem responder a necessidades concretas do mercado de trabalho. No entanto, defende que o verdadeiro desafio está em ir além dessa lógica.
“A ideia é, sim, os imigrantes chegarem numa primeira fase para colmatar essas necessidades, mas nós devemos valorizar esses imigrantes, porque vamos todos enriquecer com eles”, referiu.
Na sua opinião, essa valorização passa pelo reconhecimento efetivo das competências e experiências trazidas por quem chega.
“Valorizar as suas qualificações, reconhecê-las em Portugal, valorizar as suas experiências e aquela inovação que eles podem trazer para valorizar a nossa economia e a nossa sociedade”, afirmou.
Neste sentido, Paulo Fontes reforça que não devemos “ver só os imigrantes como um recurso económico, que vem pontualmente colmatar certas falhas pontuais da economia”, mas sim como “alguém que social, culturalmente e economicamente vem ser uma mais-valia”.
Questionado sobre a realidade açoriana, o professor considera que a região já demonstra sinais positivos, embora haja margem para evoluir.
“Penso que valorizam, mas poderão valorizar mais, a nossa reflexão vai nesse sentido”, sublinhou, destacando ainda o anúncio recente de uma estratégia regional para a integração dos imigrantes como um passo relevante.
O académico enquadra esta abertura à imigração na própria história dos Açores, lembrando que o território tem raízes profundamente marcadas pela mobilidade humana.
“Nós emigramos, saímos daqui durante pelo menos uns quatro séculos”, disse, acrescentando que “o povoamento destas ilhas é fruto também de imigrantes que vieram”, uma vez que “os Açores nasceram do encontro de quatro culturas, entre flamengos, portugueses, espanhóis e franceses”.
Essa herança histórica, associada a períodos de dificuldades económicas e sociais, levou a uma forte diáspora.
“Fomos marcados por situações difíceis, pobreza, dificuldades de vida e saímos em massa dos Açores”, salientou. Hoje, porém, o cenário inverteu-se: com o desenvolvimento alcançado sobretudo após o 25 de Abril e a autonomia política regional, os Açores conseguiram “evoluir, desenvolver a região e hoje somos uma terra próspera, desenvolvida e atraímos imigrantes de outras paragens”.
Paulo Fontes concluiu dizendo que “os Açores hoje recebem mais pessoas do que mandam para fora”, o que considera “positivo”.
“É um sinal de que nós estamos mais evoluídos e que essas pessoas podem vir ajudar a evoluir ainda mais a região”, finalizou.

Júlio Tavares Oliveira
Formado em Português/Inglês
Há amores – muitos amores, muitas vezes os primeiros amores – que não têm direito a cartas de amor trocadas, que não vivem, direito, as suas cartas de amor, ou uma correspondência feliz; há amores que só se sabem – e se ouvem – pela dor constante que provocam, pelo ardume grave, e interno, que propagam, pela inflamação que os conduz e que os consome por dentro.
O amor sem cartas de amor é aquele amor inflamado, capaz, infundado, que não se ouve falar em lado nenhum pelos melhores motivos: é agressivo, violento, imparável, mas quieto, sisudo, miúdo, minúsculo; esse amor é o amor dos heróis e dos anti-heróis, dos eternos românticos apaixonados, dos nobres cavalheiros, de flor na lapela, que não cortejam, nem fazem flirt, mas que desejam tão intensa quando inconsequentemente, incondicionalmente, um amor qualquer que os destrói lenta e lentamente.
Mas não é desse amor sem cartas de amor que nascem os amores mais duradouros – distinga-se paixão de amor e traremos, nesse tratamento, nessa degustação, um amor pacífico, um amor estável, um amor que se baseia na correspondência.
Os amores incondicionais são extremamente agressivos e brutalmente corrosivos – são obsessivos, são obcecados, não têm, nem conhecem, limites.
São, de forma mais ou menos constante, uma ultrapassagem perigosa, um encontro marcado, mas magoado, em contramão, uma curva apertada a alta velocidade; um despiste incontrolável de sentimentos e emoções. Os amores, que são violentas paixões do coração, quando não são correspondidos por quem se ama desta forma, não trazem sossego, mas muita revolta e incompreensão.
E a revolta, na grande parte das vezes, traz a potência do crime, do litígio, do perigo – para quem se apaixona e para quem foge dessa paixão.
Os avisos são muitos e estão suspensos à nossa volta: mensagens constantes, chamadas constantes, perseguição, e tanto mais – por quem ama, incondicionalmente, a quem não ama, de todo, esse “incondicionalmente”, mas que o detesta.
É, diria eu, uma doença incapacitante, uma cegueira, que litiga, de forma abismal, contra quem daria a sua própria vida pela vida da pessoa que ama, mas que o detesta – e esta é a doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós. É, diria eu, uma necessidade, também, de se procurar ajuda especializada.
É aí que entra a necessidade, primeiro, de se reconhecer a si mesmo; e de se procurar ajuda – e há muita gente que nos pode, de facto, ajudar.
Posso dizer que já estive do lado que se apaixona, se calhar mais do que uma vez, incondicionalmente por alguém, numa vã inglória da vida – numa paixão que não se controla, nem se aprende a dominar, nem conhece as suas limitações ou os seus limites à sua superação constante, na tentativa de agradar, de todas as formas, a pessoa amada – invariavelmente, toda a paixão incondicional sem correspondência provoca repugnação, nojo, ou medo em quem se sente impotente, e incapaz, de parar tal proeza.
Aprender a largar não é fácil; aprender a aceitar o que nos magoa é difícil. Sobretudo para quem, como eu, ama de uma forma difícil de entender no mundo de hoje – de uma forma, por vezes, que se deixa ficar em último para que quem amamos fique em primeiro. A doença – se será? – de se amar de uma forma que nos prejudica tanto, e que só nos traz coisas negativas, lágrimas e prantos, importa, da parte de todos nós, que não se apontem dedos desnecessários, importa que não se julgue o incondicional por ser isto que é: incondicional.