
Alexandra Manes
Ainda com a memória do 25 de abril passado entre nós, a semana que se segue deverá ser sempre motivo para relembrar a valorização das nossas e dos nossos trabalhadores, e a sua luta por mais e melhores direitos, numa sociedade que se quer cada vez mais voltada para as elites. No entanto, esta é também a semana em que devemos refletir sobre o legado de um ser humano bom que partiu recentemente.
A 21 de abril, pelo alvor da madrugada, recebemos a notícia de que o Papa tinha falecido. Jorge, de seu nome profano, mais tarde ungido como Francisco, pelos poderes investidos no Vaticano, foi uma personalidade de elevado destaque na história recente da Humanidade. Mesmo sendo líder de uma das nações com mais vícios e complicações, e com um vasto historial de opressão e corrupção, Francisco destacou-se, não só pela sua atitude reformista, mas também pela sinceridade e pelo carinho na forma como se comportou ao longo da sua vida. Ainda que sentado no centro de um gigantesco palácio, construído com dinheiro discutivelmente adquirido, aquele Papa nunca abandonou uma matriz humanista na forma como agiu e como dialogou com os milhões de fiéis que o seguiram, pelo mundo fora.
Já muito foi escrito acerca da vida e obra de Francisco. Não tenho pretensão de aqui trazer nada de novo, sobre o assunto, e já fiz a minha reflexão pessoal, aquando da sua morte, e da forma como a mesma me tocou, particularmente. Mas quando me sentei em frente a um teclado para escrever a crónica desta semana, referente ao Dia do Trabalhador, foi de Francisco que me lembrei, primeiramente.
Ao longo do seu tempo como Papa, foram imensos os discursos e pensamentos que deixou ao mundo, sobre quase todas as grandes questões fraturantes do nosso tempo. Entre o grande manancial de conhecimento que partilhou connosco, e em virtude do 1 de maio, não posso deixar de destacar um pouco do que Francisco nos ofereceu. Desde logo, o falecido pontífice era um fervoroso defensor do papel dos sindicatos na vida profissional. Para ele, aquelas eram organizações de importância fundamental na defesa da dignidade laboral, devendo ser homenageadas pelo relevo que assumiram, historicamente, e apoiadas, para continuarem a elevar adequadamente o lugar do trabalhador comum ao destaque que ele merece.
Francisco nunca fugiu dos fantasmas da Igreja, mas soube reorganizá-los, valorizando as colunas da liberdade e da igualdade social, em detrimento da estratigrafia de classes, que outros Papas defenderam de forma desenfreada. Para aquele homem bom, o sol quando nasce deve nascer para “todos, todos, todos”. Já se tornou um cliché citar essa sua expressão, no entanto não nos devemos esquecer da ideologia subjacente a tal afirmação. Muito mais do que algum presidente poderá almejar ser, aquele foi verdadeiramente um líder de afetos, que deixa uma profunda saudade na sua partida, e um manifesto de trabalho para um dia o Vaticano voltar a ser verdadeiramente cristão.
Certamente, por isso mesmo, as forças do ódio e da extrema-direita ficaram profundamente magoadas com o legado de Francisco. O pequeno líder português desse movimento parasitário, ávido de sensacionalismo, em plena campanha eleitoral, veio lamentar o falecimento daquele homem, enquanto continua na nossa memória a frase dele, sobre o péssimo serviço que diz que o Papa terá prestado ao cristianismo. Maria Vieira, deputada municipal em Cascais, ao serviço do partido de Ventura, esclareceu a posição, e a dos correligionários, insultando vergonhosamente o trabalho de Francisco, com palavras que nem me atrevo a reproduzir aqui, mas que espelham a verdadeira postura daquela gente. Se a hipocrisia pudesse concorrer à Assembleia, sabemos porque partido o faria.
Hoje, mais do que nunca, urge homenagear o Trabalhador e a Liberdade, mas também lutar para manter a justiça social já conquistada, e para conquistar mais igualdade, em nome da verdade que querem destruir. Em tempos de crescente escuridão, o fumo branco que esperamos receber não se limitará à escolha de uma nova pessoa para ocupar o lugar no Vaticano. Desejamos que seja o legado de Francisco a perpetuar a ação da sua Igreja, contra as tiranias e as pequenas vaidades, que almejam destruir as pedras do templo de São Pedro. Com o começo da caminhada em nome do Espírito Santo, que agora iniciamos, começa também uma nova madrugada de ação. Feito o merecido luto e honrando a humildade de um lutador, devemos permanecer ativamente no combate às oligarquias e aos poderes instituídos que financiam a desconstrução da sociedade, assentando a nossa balança pela bitola do Trabalho digno e da qualidade de vida, em todas as suas vertentes.
A 1 de maio de 2025, o hino do nosso país não deve apelar a que o Luís possa trabalhar. Não podemos admitir que se façam campanhas eleitorais apenas com base em músicas tornadas virais pela comunicação social. Não podemos deixar passar incólume uma sucessão de atos musculados para suprimir graves acusações levantadas e ainda não esclarecidas.
Quem necessita de trabalhar são todas as pessoas que fazem do nosso país e do nosso mundo um lugar melhor. Com os valores de Francisco, com os ideais de Abril e com a certeza de Maio. Construindo um futuro que seja, verdadeiramente, para todas e todos. Em nome de Franciscus e da sua fé.

Alexandre Pascoal
Gestor Cultural
A editora Artes e Letras lançou a 2 de maio, na livraria Solmar, em Ponta Delgada, o nº 5 da “Avenida Marginal”.
Nessa quinta-feira, à mesma hora, aconteciam, várias iniciativas culturais. O problema não é que ocorram todas em simultâneo, esta é uma questão antiga, mas não será a fundamental. O que importa expor é que somos (demasiado poucos), e vezes demais, sempre os mesmos.
Este será, provavelmente, um dos maiores desafios do presente, agravado na pandemia, a necessidade de renovação dos públicos da Cultura. Em particular, nas áreas artísticas tradicionais, face aos desafios gerados pelos novos formatos, especialmente, os digitais, e no impacto gerado junto dos mais novos. Um problema que nos deve convocar a encontrar soluções que permitam uma salutar coexistência (e complementaridade).
Apesar disto, assistimos, paralelamente, ao revivalismo (artístico e comercial) em torno dos formatos ‘analógicos’, no ressurgimento do vinil, das K7s e até mesmo dos CDs, no caso da música, do VHS no cinema (ou nas artes visuais), tanto como apropriação cultural, simples inspiração ou numa abordagem a referências que possibilitem outras (re)leituras.
Em Portugal, por exemplo, no circuito das livrarias independentes, as quais têm contribuído para uma maior diversidade (de propostas e conteúdos) no panorama editorial português, existe um fenómeno crescente da actividade alfarrabista, no dar uma nova vida aos livros usados, nomeadamente, na procura por edições de livros que já não estão disponíveis no mercado editorial e que agora são motivo de interesse por parte de outras gerações.
Os mais novos chegam aos livros, sobretudo, através das redes sociais (e das suas celebridades), os chamados ‘influencers’, em particular, no TikTok (materializado pelo fenómeno viral dos booktokers), contribuindo para o aumento exponencial da venda de livros por todo o mundo.
No estudo “Mercado do Livro e Hábitos de Compra em Portugal”, apresentado em 2023, pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), ficamos a saber que menos de dois terços dos portugueses compraram livros e que são os jovens quem está a impulsionar as vendas no nosso país, na medida em que os inquiridos, entre os 15 e os 34 anos, já representam 28% do total do mercado. No entanto, Portugal mantém-se como o país que, na Europa, menos lê.
Outro dado que me parece particularmente relevante tem a ver com os pontos de venda dos livros, na medida em que 70% dos livros são, ainda, e felizmente, vendidos em livrarias, mas os hipermercados já ocupam 30% desta cota (sendo que em algumas ilhas do arquipélago só encontramos livros em espaços indiferenciados).
Existem dados desagregados para os Açores (em que as livrarias são uma espécie rara ou em vias de extinção)?
Neste domínio, faltam elementos concretos sobre o sector do livro, tal como faltam para outras áreas artísticas, dados que ajudariam a sistematizar estratégias e políticas culturais.
Esta questão carece de reflexão e merece ser profusamente discutida, envolvendo vários intervenientes, da Educação à Cultura, na medida em que o livro enfrenta desafios muito relevantes que requerem diálogo, discussão e conhecimento.
Outro aspecto que não pode ser descurado é facto de o “consumo cultural ser socialmente estratificado” (ICS, 2020), na medida em que os hábitos de lazer e de consumo de produtos culturais não estão dissociados dos níveis socioeconómicos e de escolaridade.
Neste cenário, o que leva alguém a querer fundar uma editora? É antes de tudo, um acto de enorme coragem e arrojo, especialmente, numa escala como a nossa, onde por vezes parecem existir mais escritores que leitores. Digo isto com todo o respeito, mas os autores (artistas) não podem ser tratados todos por igual, nem é possível comparar o que não é comparável. Não raras vezes, tendemos a balizar tudo pela mesma bitola.
Este não é um problema exclusivo da literatura. Esta é uma problemática que se coloca nas artes visuais, nas artes performativas ou na música. Nos Açores, o caminho de futuro para a Cultura é o da profissionalização (não vale a pena ignorá-lo).
Em regiões como a nossa, a descontinuidade geográfica e os custos agravados pelos transportes (distribuição e logística), aumentam as assimetrias no acesso a bens e a serviços essenciais, relegando, inexoravelmente, a cultura para uma posição secundária, onde a democratização cultural é determinada pelo estatuto social (status), tenazmente agravada pelos índices sociais que detemos.
Importa alterar este estado de coisas, a começar por colocar a educação “no centro das políticas culturais” (Paulo Pires do Vale). Neste sentido, o cheque-livro apresentado pelo Governo da República, agora secundado pelo Governo Regional, é um caminho para o incentivo ao contacto com os livros e com as livrarias.
A par disto importa garantir um conjunto de outras medidas que aproximem a comunidade literária, e as instituições culturais, da população, com iniciativas de mediação para a leitura e para a promoção do livro.
Em termos legislativos, urge rever os apoios à edição e os objectivos das políticas públicas. Não faz sentido apoiar o livro se depois falhamos em toda a restante cadeia de valor, temos o produto, mas não temos distribuição (regional e nacional), nem promovemos, eficazmente, o acesso à leitura.
A região tem que dar o exemplo, investindo nas suas instituições públicas, ano após ano, para que possam prestar o papel que delas se exige, nomeadamente, pela actualização permanente de conteúdos, em particular, das bibliotecas públicas e escolares, no combate incessante aos baixos índices de leitura e literacia.
E não menos importante, promover uma profunda reflexão sobre a necessidade de existir um Plano Regional de Leitura ou, se em alternativa, não devemos pugnar por garantir a presença dos nossos escritores (e editores) no Plano Nacional de Leitura, com acesso a outros recursos e a mais públicos.
A “Avenida Marginal” é um contributo, e um precioso recurso, para desbravar um caminho sinuoso, cuja missão presta um verdadeiro serviço público no estímulo à inovação e na descoberta de novos nomes no ecossistema literário local.
Manter uma livraria e uma editora é hoje um acto de amor (e militância), mas sobretudo de resistência.
Uma última palavra para o impressivo trabalho do João Amado que ilustra a capa desta edição, na qual reflecte um universo fantástico e surreal (e que nos parece querer dizer que (sobre)viver nas ilhas, também, consegue ser um desafio surrealista).
* Apresentação da Avenida Marginal nº5, 2 maio de 2024, Livraria Solmar, Ponta Delgada (texto revisto e acrescentado)