
Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Faz, este mês de fevereiro de 2026, um ano e três meses sobre a partida do meu avô Sargento António Tavares, que vi morrer, após uma longa apneia, nos Cuidados Paliativos, a 26 de novembro de 2024.
Para quem duvida e desvaloriza o sacrifício que tantos militares portugueses, antigos combatentes, fizeram no Ultramar, digo-vos que a guerra não se acaba, mesmo após terminada: deixa marcas, profundas e indeléveis, traumas e um «stress» que tirou noites de sono, entre infinitas insónias e graves pesadelos, ao meu Avô, que os pude presenciar na primeira pessoa.
O meu avô, à época, não teve a oportunidade de assistir ao funeral dos seus pais, porque estava em África; sequer teve uma chance de se despedir deles. Estava embarcado, e só recebeu a notícia, por telegrama, muitos dias após o seu falecimento.
A guerra ceifou, mais do que vidas, gerações inteiras, entorpeceu saudades e gerou pesadelos e distância.
Gostaria, portanto, de aproveitar este «espaço» no Diário da Lagoa, para confessar, relativamente ao Sargento Tavares, um pouco do seu percurso militar e de combate.

É de forma grata, e expressiva, que recordo o meu Avô Sargento-Ajudante António Tavares, ou o Furriel e Sargento Tavares, lagoense nascido a 25 de abril de 1940, e é de forma reconhecida, e também grata, que recordo o brilhante aluno, de Santa Cruz, o primeiro estudante do sexo masculino, natural de Santa Cruz, à época, a ir estudar para o Liceu Nacional de Ponta Delgada.
É de forma grata, e expressiva, que recordo o meu Avô, que foi um dos primeiros açorianos a integrar contigentes militares destinados ao combate ativo; a incorporar Companhias militares preparadas e destinadas a lutar em solo africano, onde travariam a detestável Guerra Colonial, estando, ele, e nomeadamente, integrado numa companhia de Portugal Continental.
É de forma grata, e expressiva, que o recordo: com o seu sorriso terno, o seu sentido de humor e, acima de tudo, com uma palavra de apreço pelas coisas simples da Vida: um café, um pastel de nata, uma colher de gelado de baunilha.
O meu avô António Tavares foi dos poucos combatentes portugueses que travaram quatro comissões de serviço no Ultramar Português. De 1962 a 1975, interpoladamente durante oito anos efetivos, em zonas de alto risco e de perigo para a sua vida e da sua família, o meu Avô António combateu e lutou pela Pátria, seja em Angola, seja na antiga Província da Guiné.
Para além disso, recordo-o, ao meu Avô António, como um herói de combate, em zonas de alto sacrifício e de vida, que sacrificou, inclusive, a própria vida pela vida dos seus amigos e dos seus camaradas militares: assim o foi a 5 de julho de 1963, quando, e indo junto com outros camaradas em socorro urgente após uma emboscada, o seu jipe militar pisou uma chamada «mina anti-carro», que vitimou vários soldados e um Capitão, mas poupou o meu Avô, e a sua vida, por milagre.

Incorporado, à altura, em Bessa Monteiro, Norte de Angola, no Batalhão de Artilharia 400 – com o cognome de “OS GATOS” -, ao meu avô foi-lhe sugerido, por razões de saúde e traumáticas, nessa altura, que regressasse à Metrópole, em Lisboa, algo que ele, na hora, recusou, preferindo continuar a acompanhar os seus camaradas militares.
No final da sua vida, o grande sonho do meu avô era ver-me, a mim, seu neto, Licenciado. Tal veio a suceder, sim, e precisamente, conforme atesta o diploma emitido pela Universidade dos Açores, a 5 de julho de 2024, precisamente – e quem diria… – também precisamente 61 anos após essa emboscada fatal, que poderia ter mudado tudo, destinos, rumos e vidas.
A vida tem dons infinitos e infinitos mistérios para nos contar.
A seu tempo, fazendo uma brilhante carreira militar, no ramo de Artilharia, do Exército Português, o meu avô, inúmeras vezes louvado militarmente, foi, nos anos oitenta, condecorado com a Medalha de Mérito Militar, uma das mais altas honras militares em Portugal.
Devemos-lhe, como devemos a todos os antigos combatentes, as maiores honras, memórias e tributos.

Contar isto, de uma maneira ou de outra, trará, aos presentes leitores, uma ligeira sensação de abandono. Ainda assim, este conto passa-se no Verão de 2001, na casa dos meus avós maternos, por baixo de um Sol abrasador. Situando-me, eu, no espectro temporal de me ver, assim, de súbito, desprovido das mais vivas sensações soalheiras, fui, por força, impelido, pelo meu Avô António Tavares a caminhar rua abaixo – e, por entre passeios, vi-me sozinho. O objetivo – dizia, repetidamente, o meu Avô – era o de chegar ao STOP, e de parar aí. Mas, naquele lugar a meio caminho, a minha súbita abstração numa qualquer sensação de insegurança impôs-se e tive de fugir, rapidamente, para trás – para os braços do meu Avô. Tentaremos noutra altura; noutro dia, de novo.
E chegou, passados dois dias, a chance de voltar a tentar: o objetivo, esse sempre o mesmo, era o de chegar, sozinho, sem mão ‘amarrada’ à minha, ao sinal de trânsito mais próximo, no final da rua. Seria uma vaga esperança, que me inundava o peito e se confundia com o chilrear dos melros nas árvores, que me fariam anuir a outra tentativa. Ninguém mais o faria por mim, senão o meu avô António; afinal, quem é que perde o seu precioso e magnânimo tempo a tentar fazer alguém chegar ao sinal de trânsito mais próximo? Ninguém no seu perfeito juízo; só o meu Avô, suficientemente “louco” para isso. Seria, de novo, nessa noção de que as pessoas são os momentos; e os momentos fazem as suas, as nossas, pessoas que me voltaria de novo para o meu Avô, a meio do trajeto, e correria para os seus braços. A chorar e com medo da solidão daquele trajeto de abandono. O meu Avô, apertando-me os braços com as duas mãos e pondo-se de joelhos, firme pronunciava que, no dia seguinte, voltaríamos a tentar. E lá, a meio da tarde, daquele Verão de 2001, voltávamos a tentar; a falhar e a ruir o nosso próprio caminho, entre um trajeto tão inseguro. E foram assim, continuamente, com mais ou menos choro, e muitas ansiedade, se passando dias e dias. Afinal, a maioria, naquele tempo e lugares, e perante aquele contexto, já havia desistido. Mas o meu Avô não, ele continuava, sempre, seguro na sua de que, um dia, haveria sozinho de chegar ao sinal de trânsito ao final da rua. Seria a uma sexta-feira que, voltando da escola, o meu Avô me propôs, calmo e com muita serenidade, que tentássemos de novo. Com a mão – a minha – segura à dele, propôs, então, que fosse, passo a passo, como quem se não segurava a nada e caminhava sobre uma ponte quase a ruir, até ao sinal de STOP, no fim da rua. Parecendo-me, quase a desistir daquela missão, um objetivo nada palpável, nem real, fui, interiormente, passo a passo, até dar o primeiro passo daquele longo trajeto. A meio dele, senti uma sensação, lá está, de solidão despovoada, de abandono e de insegurança que, num clima de ansiedade precipitando-se sobre os meus braços, pernas, peito, garganta e, sobretudo, a minha mente, consistiam no cenário de tentação absoluta em voltar para os braços do meu Avô. Mas não voltei. Segui, passo a passo, um passo de cada vez, em frente. E, aí, a escassos dois metros de distância do STOP (um recorde mundial já batido, para mim), e quase a desmaiar de ansiedade, parei. Pensei, para mim, que aquilo, ali, não teria significado nenhum para ninguém, senão – ao menos – para o meu Avô, que o queria deixar contente e orgulhoso de mim. E dei mais um passo sobre a corda ténue e trémula do destino. Aí, tornei a parar, parecendo-me tarde de mais para conseguir, e alternando na incerteza, nova, daquele sucesso tão perto, ouço o meu Avô ao longe: – “Está quase, só mais um bocadinho!” Fecho os olhos. Tremo. E prossigo. Cheguei, ao fim de dois meses de tentativas, ao STOP. O meu avô, ao meu toque no sinal, corre ao meu encontro e, com um forte abraço, selámos a nossa eterna amizade.
Fiquei a conhecer o meu avô nesse momento, e, agora, quero que todos o conheçam como eu o conheci também. Um homem absolutamente confiante no seu neto e que, talvez, e não desistindo dele, o tivesse feito avançar tanto no seu Caminho.
Com o seu falecimento, no passado dia 26 de Novembro de 2024, ficou um vazio difícil de preencher na minha vida. Terei, como ele me ensinou, de caminhar sozinho daqui para a frente. Mas na certeza, absoluta, de que ele me continuará, sempre, a guiar.