
Carlos Caetano Martins
Engenheiro Técnico Sénior
Dirigente Iniciativa Liberal Açores
Eu, contra a autonomia, me levanto.
Calma. Antes que alguém me acuse de traição à causa açoriana, convém deixar isto claro: não me levanto contra os Açores, nem contra o direito dos açorianos a decidirem o seu destino. Levanto-me, isso sim, contra um modelo que nos promete autonomia e nos entrega dependência.
Porque mesmo com autonomia os Açores continuam entre as regiões mais pobres do país. O PIB per capita permanece 12,6% abaixo da média nacional. O poder de compra fica-se pelos 87,6 pontos, quando no continente ultrapassa os 100. E tudo isto apesar de recebermos, por habitante, mais transferências públicas do que qualquer região continental. Em 2026, entre a Lei das Finanças das Regiões Autónomas e os mecanismos de coesão, vão chegar mais de 1.400 euros por açoriano.
Recebemos mais e continuamos atrás. Porque é que mesmo recebendo mais recursos continuamos a ter resultados tão pobres? Talvez o problema já não esteja apenas no montante das transferências. Talvez esteja naquilo que fazemos com elas.
Ou, talvez o problema não esteja na quantidade de dinheiro que recebemos. Talvez o problema esteja naquilo que ele não está a construir.
O mundo está cheio de exemplos que ajudam a perceber o caminho que devemos seguir.
Vejamos as Ilhas Faroé. Recebem da Dinamarca um subsídio equivalente a cerca de 4% do seu PIB. Ainda assim, financiam mais de 90% do seu orçamento com recursos próprios. Ao longo da sua autonomia apostaram numa economia exportadora, assumiram responsabilidades fiscais e foram reduzindo a dependência de Copenhaga. Apesar de serem uma região periférica, hoje têm níveis de riqueza próximos dos restantes dinamarqueses. A autonomia, no caso deles, serviu para ganhar independência, não para a substituir.
No reverso da medalha podemos olhar para a Polinésia Francesa. Durante décadas recebeu transferências que chegaram a representar 20% ou 30% do seu PIB. O dinheiro nunca faltou. A dependência do estado francês também não. A única coisa que se fez foi garantir estabilidade, ao invés de uma economia capaz de andar pelas suas próprias pernas.
Por último observemos ainda as ilhas de Saint Martin e Saint-Barthélemy. Em 2017, o furacão Irma atingiu estas ilhas. A mesma tempestade, territórios diferentes. Saint-Barthélemy recuperou rapidamente. A parte francesa de Saint-Martin ficou presa na dependência do Estado central. Já Sint Maarten, a parte neerlandesa da ilha, apesar de ter recebido centenas de milhões de euros, enfrentou dificuldades sérias na execução da recuperação. A tempestade foi igual, e o dinheiro não resolveu tudo. O que fez a diferença nos resultados obtidos foi outra coisa: capacidade económica e institucional para transformar recursos em desenvolvimento.
E é aqui que a conversa começa a ficar desconfortável para nós.
Porque ninguém cresce sem investimento. Ninguém ultrapassa a insularidade sem apoio. Mas nem todo o investimento cria futuro, e nem toda a transferência cria autonomia.
Já não é uma questão de quanto dinheiro é suficiente. A verdadeira questão é perceber porque após 50 anos continuamos tão dependentes das transferências nacionais.
Temos mar, energia geotérmica, renováveis, turismo de natureza e uma posição atlântica que muitos países invejariam. Não nos faltam recursos! Falta-nos, demasiadas vezes, a capacidade de os transformar em riqueza duradoura e políticos com visão arrojada para nos tirar deste marasmo.
O artigo 229.º da Constituição determina que o Estado deve corrigir as desigualdades resultantes da insularidade. E bem. Que o faça. Mas que o faça criando capacidade. Que o faça criando economia. Que o faça criando autonomia a sério!
Porque há quem queira combater a dependência de transferências da República e não apenas as perpetuar com boas intenções.
Os Açores têm como lema uma frase que não devia ser apenas decorativa: “Antes morrer livres que em paz sujeitos.” Talvez seja aqui que o discurso tenha de ser testado. Não é pedir mais fundos, mas fazendo melhor com o que nos dão. Não és estar de mão estendida, mas construindo caminho para o futuro. Deem-nos os meios para podermos partir e as razões para querermos ficar. E isto não é uma ameaça, é uma exigência de liberdade. Nós queremos ficar, mas de pé.

Alexandra Manes
No mesmo ano, em que se comemoram os 50 anos da nossa Autonomia, celebramos os 50 anos da Universidade dos Açores, uma conquista da Democracia e da Autonomia, da qual é essencial destacar o seu papel determinante para a nossa região, bem como a excelência do seu corpo docente, cujo seu maior desafio se prende com o carácter da sua tripolaridade.
Ao longo das últimas décadas, assistimos ao esvaziamento do Polo de Angra do Heroísmo com a saída de cursos como o de Educação Básica e seu mestrado e o de Gestão, este último bastante contestado. O de enfermagem, vai resistindo… Pelo Faial, houve a possibilidade de o curso de Ciências do Mar ser deslocalizado para Ponta Delgada, mas, devido a questões óbvias e à luta de docentes e investigadores(as), resistiu ao processo de contenção de custos e está onde deve estar e que, embora com pouco, produz Ciência reconhecida a nível mundial.
Foi neste contexto de celebração, que fui alertada para a realidade, que afeta a vida de muitas pessoas, mesmo sendo facilmente varrida para debaixo do tapete quando é tempo de discursos e frases feitas. Numa Região, cada vez mais dividida, há atitudes e estratégias de gestão que se refletem na falta de coesão, e que são menos notadas, todavia, igualmente sentidas pela população residente. É importante que se assuma o facto de que, de forma sistemática e propositada, a academia insular parece ter esquecido a sua raiz tripartida, cimentando-se em torno de um modelo de centralização, anacrónico, que não pode ser ignorado.
Na verdade, em pleno séc. XXI, com ferramentas proporcionadas pela evolução tecnológica, a Uaç contraria a coesão que se exige num território descontínuo e disperso, pela falta de resposta consistente no E-learning, impossibilitando a frequência, por exemplo de Mestrados, a pessoas de outras ilhas. Bem sei que esse impedimento resulta, não somente da concentração de respostas em Ponta Delgada, mas, também, da exigência de regras de acreditação de cursos oferecidos nessa modalidade pela agência A3ES. No entanto, cedemos a essas dificuldades ou esforçamo-nos para ultrapassar esse obstáculo?
Susana Mira Leal foi reeleita por maioria, por lista única. A nova e antiga reitora voltou a sublinhar querer diversificar e descentralizar a instituição, com maior abertura de cursos e modalidades digitais e híbridas. Só que bastará a qualquer possível aluna ou aluno uma breve consulta das normas institucionais e regulamentares em vigor, para perceber que uma boa parte do funcionamento da UAç vive impedido de funcionar à distância. Qualquer pessoa adulta, sob o Estatuto Trabalhador-Estudante, que almeje realizar um mestrado ao longe, terá que se preparar para duras provas.
Claro que restam sempre hipóteses funcionais para quem segue a teoria do empreendedorismo sem razão. Demissão e alterar a residência fiscal, seguir os percursos académicos da Aberta, ficando limitados às respostas. Ou não estudar, e deixar-se estar caladinhas e subservientes, que é como o sistema gosta. A decadência deste modelo é mais uma prova silenciosa do estado a que este Estado chegou. Vivemos a medo, sem saber como avançar, sempre retidos por algemas invisíveis, da centralização, do capitalismo e do absurdismo de aceitar que a aposta na valorização académica é só para algumas pessoas. Quebrar o ciclo da pobreza estrutural dos Açores passa pela Uaç, mas não podemos aceitar que para a frequentar, sejamos potenciais números nas estatísticas da pobreza.

Duas jovens açordescendentes dos Estados Unidos da América, Amanda da Rosa, da Califórnia, e Kelsey Almerico, de Washington, venceram o concurso “I Love Azores”, promovido pela Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, através da Direção Regional das Comunidades, e pela SATA/Azores Airlines.
A iniciativa, promovida no âmbito das comemorações dos 50 anos da Região Autónoma dos Açores e dos 85 anos da SATA, convidou jovens açordescendentes radicados na América do Norte a partilharem, em língua inglesa, a sua relação com os Açores. O concurso recebeu candidaturas provenientes de diferentes comunidades dos Estados Unidos da América e do Canadá, prevendo a atribuição de quatro viagens aos Açores a partir dos aeroportos operados pela SATA: Boston, Nova Iorque, Toronto e Montreal.
O júri do concurso foi presidido pela escritora norte-americana de ascendência açoriana Katherine Vaz, residente em Nova Iorque, integrando ainda José Andrade, Diretor Regional das Comunidades, e Graça Silva, diretora de vendas e marketing da SATA. O júri deliberou atribuir dois dos quatro prémios em concurso, distinguindo os textos que mais se destacaram pela sua qualidade literária, originalidade e ligação genuína à identidade açoriana.

A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, na ilha do Faial, vai acolher a final regional do Desafio Kahoot Cultura Geral dos Açores, que este ano assinala a sua oitava edição e tem como tema central a comemoração dos 50 anos da autonomia regional. O evento terá início pelas 10h00.
Na final vão estar presentes os três primeiros classificados de cada ciclo de ensino – 1.º, 2.º e 3.º ciclos – e ainda a categoria Azores Quiz, disputada em inglês e destinada aos alunos do ensino secundário das nove ilhas do arquipélago. Ao todo serão cerca de trinta concorrentes, acompanhados pelos professores que dinamizam a iniciativa em cada uma das ilhas.
O Desafio Kahoot Cultura Geral dos Açores tem-se afirmado como um marco dos planos de atividades das escolas e uma atividade atrativa para os alunos que, ano após ano, procuram repetir a experiência, enquanto aprofundam o conhecimento da sua terra.
Este concurso consiste numa competição digital, disputada através da plataforma ????????ℎ????????????, e incide sobretudo nas temáticas de História, Geografia, Cultura, Literatura, Botânica, Biologia e Etnografia das nove ilhas dos Açores.

O presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, participou na sessão solene comemorativa do 52.º aniversário do 25 de Abril de 1974, realizada na Assembleia da República, em Lisboa.
A cerimónia voltou a assinalar uma das datas mais marcantes da história de Portugal, evocando o fim de décadas de ditadura e o início de um caminho sustentado na liberdade, na democracia e na participação dos cidadãos na vida pública.
As comemorações deste ano decorrem num contexto simbólico, ao coincidirem com os 50 anos da Constituição da República Portuguesa e da autonomia regional, dois marcos que resultam diretamente do processo democrático iniciado com a Revolução dos Cravos.
José Manuel Bolieiro tem sublinhado que o 25 de Abril “abriu um novo horizonte histórico”, ao restabelecer a liberdade e criar condições para que a autonomia dos Açores pudesse ser afirmada em democracia. Neste âmbito, destaca a Constituição de 1976 como “um momento fundador”, por reconhecer “com clareza e densidade” a autonomia político-administrativa do arquipélago.
Segundo o governante, esse enquadramento permitiu dotar a região “de órgãos de governo próprio e de um espaço institucional legítimo” para afirmar as suas especificidades e defender os seus interesses.
José Manuel Bolieiro tem igualmente defendido que o 25 de Abril representa “uma conquista democrática em Portugal e nos Açores”, cuja memória deve continuar a mobilizar a sociedade para a defesa da liberdade, da participação cívica e do aprofundamento da autonomia.

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA
Há uma reflexão que gosto de fazer sempre que chega Abril: o que estamos a fazer com a liberdade que recebemos?
Falamos muitas vezes do 25 de Abril como um marco da nossa história e é. Foi o momento em que o país teve a coragem de mudar, de escolher a democracia e de abrir caminho para que cada pessoa pudesse decidir o seu próprio destino.
Mas a liberdade não vive apenas no passado. A liberdade pede presença. Pede cuidado. Pede responsabilidade.
Nos Açores, essa conquista teve um significado ainda mais profundo. Com a liberdade chegou também a Autonomia, a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, de olhar para as nossas ilhas com os nossos próprios olhos, de assumir, com maturidade e sentido de responsabilidade, o rumo do nosso futuro.
Mas, não tenhamos ilusões, a Autonomia foi, acima de tudo, uma conquista. Não nasceu num dia, nem foi um dado adquirido, foi construída com tempo, com coragem e com muita persistência. Foi o resultado de uma luta longa, feita de vozes que não se calaram, de pessoas que resistiram e de um Povo que nunca deixou de acreditar em si. Foi essa caminhada, tantas vezes difícil, que nos trouxe até aqui. E foi também a afirmação de que saberíamos cuidar da nossa terra, valorizar o que é nosso e construir um caminho com identidade própria.
Ao longo destes anos, fomos crescendo enquanto região. Fomos consolidando instituições, afirmando a nossa voz e construindo uma identidade que hoje é reconhecida e respeitada dentro e fora do país.
Mas há algo que nunca podemos esquecer: a liberdade não é uma obra acabada.
A liberdade constrói-se todos os dias.
Constrói-se quando as pessoas sentem que o seu trabalho tem valor.
Quando os jovens acreditam que podem ficar nas suas ilhas e ali construir a sua vida, com dignidade e esperança. Quando as comunidades se juntam, não para desistir perante as dificuldades, mas para as transformar em oportunidades, com confiança no futuro.
Talvez seja por isso que eu acredite tanto nas pessoas da nossa terra.
Acredito nos agricultores que continuam a trabalhar mesmo quando o caminho é difícil. Nos jovens que arriscam, que inovam, que insistem em criar algo novo. Nas comunidades que cuidam umas das outras e que mantêm viva a essência das nossas ilhas.
Os Açores sempre foram feitos desta força. Desta resiliência que não faz ruído, mas que nunca cede. De gente que não espera que os caminhos apareçam, mas sim, de gente que os constrói, todos os dias.
Mas construir futuro exige mais. Exige visão, responsabilidade e, sobretudo, coragem para acreditar no potencial da nossa terra e do nosso Povo. Exige também escolhas, compromisso e a capacidade de não desistir perante os desafios.
E nós temos razões para acreditar.
Temos recursos únicos, uma ligação profunda à nossa terra e comunidades que sabem o valor de caminhar juntas. Temos uma identidade que nos distingue e que nos dá força.
O verdadeiro desafio está em transformar esse potencial em oportunidades reais, oportunidades para trabalhar, viver e criar família nas nossas ilhas, com qualidade de vida e estabilidade.
A vida tem-me ensinado que o verdadeiro valor das coisas raramente está no que é mais complexo. Está no que é verdadeiro: no respeito pela terra, no cuidado com a vida e na capacidade de caminharmos juntos.
É por isso que continuo a acreditar profundamente nos Açores.
Acredito num arquipélago que valoriza quem trabalha. Que cria oportunidades para os seus jovens. Que preserva a sua identidade sem deixar de olhar para o futuro.
Mais de cinquenta anos depois do 25 de Abril, a liberdade continua a ser um convite.
Um convite para participarmos mais. Para cuidarmos melhor do que é nosso. Para acreditarmos que o futuro não está escrito, constrói-se.
E constrói-se todos os dias, com trabalho, com confiança e com esperança.
Porque, no fundo, somos isso mesmo: um Povo feito de raízes e de sonhos.
Raízes que nos prendem à terra, à nossa história e às pessoas que vieram antes de nós.
E sonhos que nos empurram para a frente, lembrando-nos que a liberdade só cumpre verdadeiramente o seu propósito quando nos dá coragem para continuar a construir, com responsabilidade e com esperança, o futuro dos Açores.

O presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Luís Garcia, anunciou o lançamento do concurso de fotografia “50 Anos de Autonomia”, uma iniciativa que resulta de uma parceria entre o Parlamento açoriano e a Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores (AFAA), com o objetivo de “valorizar a identidade açoriana, a memória coletiva e o percurso democrático do arquipélago”.
A iniciativa, integrada nas comemorações do cinquentenário da Autonomia, “pretende celebrar o caminho feito ao longo de cinco décadas na Região, valorizando a forma como os açorianos se veem a si próprios e ao seu território, através da arte e da criatividade”, afirmou o presidente do Parlamento durante a assinatura do protocolo de cooperação entre a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e a Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores (AFAA).
As candidaturas, abertas a todos os fotógrafos, amadores e profissionais, residentes ou não nos Açores, abrem na próxima segunda-feira, dia 13 de abril e decorrem até 31 de agosto de 2026. Sob o tema “Ser Açores”, o concurso convida os participantes a explorar uma identidade moldada pelo mar, pelo isolamento e pela resiliência, desafiando-os a refletir sobre o passado, a interpretar o presente e imaginar o futuro da autonomia açoriana.
Cada participante poderá submeter até quatro fotografias, sem restrições quanto às técnicas utilizadas, devendo os trabalhos refletir adequação ao tema proposto, impacto visual, qualidade técnica, composição e mensagem. O júri será composto pelo fotojornalista da SIC, Rui Caria e pelos fotógrafos independentes Luís Godinho e Pepe Brix, em representação da AFAA e, em representação da ALRAA, Hélio Silveira e Isabel Nolasco, ambos fotógrafos amadores e técnicos superiores da ALRAA.
A exposição resultante do concurso terá carácter itinerante e será composta por uma seleção de vinte fotografias, sendo atribuídos três prémios monetários aos trabalhos vencedores. A inauguração da exposição e a apresentação dos resultados terão lugar no dia 20 de outubro, no átrio da Assembleia Legislativa, na cidade da Horta, ilha do Faial.
O regulamento completo estará disponível a partir do dia 13 de abril no site oficial da Assembleia Legislativa, em www.alra.pt, bem como nas redes sociais da ALRAA e da AFAA.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Há um problema nos Açores de que pouco se fala com frontalidade, mas que continua a condicionar decisões, atrasar o desenvolvimento e dividir aquilo que devia estar unido: o bairrismo entre ilhas.
Não falo de identidade local, essa é saudável, faz parte de quem somos e deve ser preservada. Falo, sim, de um bairrismo doentio, pequeno e muitas vezes alimentado por discursos fáceis, que transformam a realidade numa competição permanente entre ilhas. Agravado quando alguns personagens estão em lugares de decisão ou influencia.
E há uma frase que resume bem esse problema: “vai tudo para São Miguel”.
Repete-se como um mantra. Mas raramente é acompanhada de factos, dados ou análise séria. É uma frase que nasce mais da perceção do que da realidade, e, pior ainda, serve muitas vezes para justificar erros, ineficiências e falta de estratégia.
O desenvolvimento dos Açores não pode ser feito à base de slogans. Nem pode ser construído numa lógia de “tirar a uns para dar a outros”. Isso não é coesão. Isso é criar desequilíbrios.
Mas também é um erro, e convém dizê-lo sem medo, penalizar as zonas onde existe maior concentração populacional, maior atividade económica e, naturalmente, maiores necessidades. Escolas, hospitais, habitação, segurança, infraestruturas: tudo isso cresce onde há mais gente. Ignorar isto não é justiça. É negar a realidade.
Durante anos criou-se a ideia de que equidade significa replicar tudo em todo o lado, independentemente da escala, da procura ou da viabilidade. Essa visão não só é errada, como está a custar caro à Região.
Equidade não é igualdade cega. Equidade é garantir que todos têm acesso ao essencial, saúde, educação, mobilidade, dignidade, ajustando as respostas às realidades concretas de cada ilha.
E aqui começa o verdadeiro problema: exigir tudo, em todo o lado, sem assumir responsabilidades.
Não podemos exigir transportes marítimos regulares e eficientes e depois não ter capacidade de planeamento básico, como a criação de reservas quando sabemos que existem falhas.
Não podemos exigir ligações aéreas diretas para o exterior em quase todas as ilhas e, ao mesmo tempo, ignorar que muitas dessas rotas operam com baixa ocupação e prejuízos elevados. Obrigar companhias a manter rotas inviáveis não é desenvolvimento, é acumular problemas que alguém, mais cedo ou mais tarde, vai pagar. E, no fim, pagamos todos.
Curiosamente, muitos dos que mais falam em “centralismo” são, na prática, os mais centralistas de todos, não no sentido geográfico, mas no sentido mental. Defendem apenas o seu território, o seu interesse imediato, a sua ilha. Raramente os vemos com uma visão global dos Açores. Raramente os vemos defender o todo.
E é precisamente essa falta de visão conjunta que nos está a bloquear.
A realidade é simples: governar os Açores é, em muitos aspetos, como gerir uma família com recursos limitados.
Imaginemos uma família com rendimentos modestos e vários filhos. Todos querem o melhor, e é legítimo que queiram. Mas o orçamento não permite dar tudo a todos, da mesma forma, ao mesmo tempo.
Se a decisão for feita apenas com base em quem grita mais alto, a consequência é previsível: endividamento, desequilíbrio e, no limite, colapso.
Gerir bem implica fazer escolhas. Implica definir prioridades. Implica, muitas vezes, dizer “não” no curto prazo para garantir sustentabilidade no futuro.
E isso exige maturidade social e política.
Os Açores precisam dessa maturidade. Precisam de deixar para trás discursos fáceis e assumir uma visão estratégica, equilibrada e realista.
Enquanto continuarmos presos a este bairrismo pequeno, vamos continuar a desperdiçar recursos, a alimentar conflitos artificiais e a travar o desenvolvimento da Região.
A verdade é simples: ou pensamos os Açores como um todo, ou vamos continuar a perder todos, ilha por ilha.

A diáspora açoriana no Brasil está no centro da agenda política regional nos próximos dias, com o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, a dar início a uma visita oficial de alto significado simbólico. Segundo a nota enviada pelo executivo açoriano à nossa redação, a deslocação ocorre num momento de particular relevo histórico, coincidindo com as celebrações dos 50 anos da Autonomia dos Açores. O governante, acompanhado pelo diretor regional das Comunidades, José Andrade, e pela investigadora Susana Goulart Costa, tem como objetivo estreitar os laços com as comunidades lusodescendentes nos estados do Rio Grande do Sul e do Maranhão, num périplo que combina diplomacia cultural, apresentações académicas e a inauguração de novos espaços de memória.
O roteiro arrancou este sábado, 21 de março, em Gravataí, no Rio Grande do Sul, onde a comitiva visitou a Casa dos Açores local para celebrar o 23.º aniversário da instituição. O programa em terras gaúchas ganha especial contorno em Porto Alegre, cidade que detém o título de maior metrópole do mundo fundada por açorianos. No Teatro da Santa Casa, inserido nas festividades da “Semana de Porto Alegre”, será lançada a obra “Açores: Nove Ilhas, Nove Histórias”, da autoria de Susana Goulart Costa. Este livro, editado pela Secretaria Regional em parceria com a Casa dos Açores local, pretende ser uma ferramenta de proximidade e conhecimento sobre a realidade atual e histórica do arquipélago junto dos descendentes de terceira e quarta gerações.
A segunda etapa da viagem foca-se no Nordeste brasileiro, especificamente em São Luís do Maranhão, onde a agenda institucional atinge o seu ponto alto na segunda-feira, 23 de março. Antes dos atos protocolares, Paulo Estêvão realizará uma visita de cortesia ao antigo Presidente da República do Brasil, José Sarney, seguindo-se uma apresentação académica da obra de Susana Goulart Costa na Universidade Estadual do Maranhão. O culminar da visita oficial acontecerá durante a tarde, com o governante açoriano e o Governador do Estado do Maranhão a presidirem à inauguração oficial da “Praça dos Açores” e do “Museu Açoriano”. Estas novas infraestruturas representam um marco decisivo na preservação do legado cultural dos nossos antepassados naquela região, garantindo que a identidade açoriana permaneça viva e visível no quotidiano brasileiro.

A Associação CVA – Centro de Vida Autónoma dos Açores promoveu recentemente a palestra “Assistência Pessoal: a engenharia da autonomia – do ser ao destino”, um evento que serviu para debater o impacto da ausência de assistência a pessoas com deficiência e os seus efeitos práticos e psicológicos. A iniciativa contou com a presença da vereadora da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Cristina do Canto Tavares, que, segundo uma nota enviada pela autarquia à nossa redação, reconheceu a importância dos testemunhos partilhados para “refletir e definir qual o caminho a seguir” no âmbito das políticas de inclusão.
A Associação CVA, que conta atualmente com 38 associados, foca a sua atividade no apoio a pessoas com deficiência através de um serviço de assistência pessoal. Esta ferramenta é apresentada como um recurso para a promoção da vida independente, disponibilizando apoio na realização das atividades diárias, de acordo com as necessidades e escolhas de cada indivíduo. Sobre o trabalho da associação, que conta com um ano de existência, a vereadora afirmou acreditar que a instituição “tem muito mais para dar à nossa sociedade”, deixando o compromisso de um apoio financeiro municipal para técnicos ou equipamentos assim que a CVA esteja constituída como IPSS.
Durante a sessão, foram também abordados os mecanismos públicos já existentes, com destaque para o Balcão da Inclusão de Ponta Delgada. Segundo a autarca responsável pela área social, este serviço “centraliza informações e garante respostas sociais às pessoas com deficiência ou com incapacidade do concelho”, visando contribuir para uma vida mais autónoma. Cristina do Canto Tavares referiu ainda medidas como o reforço do Fundo Municipal de Solidariedade Social e majorações em apoios ao arrendamento e bolsas de estudo para famílias que integrem pessoas com incapacidade.
O encontro terminou com um convite à participação cívica, tendo sido solicitado aos presentes o envio de contributos e sugestões para o Plano Municipal para a Igualdade e Não Discriminação da Câmara Municipal de Ponta Delgada. De acordo com a vereadora, a colaboração direta com quem lida com estas realidades é fundamental para a eficácia das decisões públicas, sublinhando que “só juntos conseguiremos definir políticas e chegar a soluções benéficas para todas as pessoas”.