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“Estava doente e foste visitar-me”

Padre André Furtado

“Estava doente e foste visitar-me” (Mt 25,35). Este versículo faz-me questionar: Quantos sofrem à nossa volta, e nós ficamos à distância, silenciosos, iludidos a pensar que o silêncio basta, e, por vezes, mergulhamos na hipocrisia de julgar em vez de cuidar? Diz-se amiúde que “quem precisa que procure”. Em parte, é verdade, mas na realidade, muitos sofrem em silêncio por vergonha, por medo ou por não saberem a quem recorrer, e a quem confiar. Cabe-nos ter a atitude que concretiza aquele “foste visitar-me, aproximarmos e cuidarmos de quem sofre. Também se cuida fora de um hospital.

Ao longo do meu caminho no hospital, sobretudo nos cuidados paliativos — depois de uma experiência de tempestade e desencontro — recordei tantas vezes a parábola do filho pródigo: “Levantou-se e foi ter com seu pai” (Lc 15,20). Também eu precisei de regressar, de me reencontrar com a verdade. E foi nesse caminho que esta palavra deixou de ser apenas um versículo para se tornar um lugar onde sou constantemente interpelado: “estava doente e foste visitar-me”.

Ali, diante de cada doente, encontro não só a fragilidade do outro, mas também a minha. Foi aí que reaprendi o valor do ministério que me foi confiado: não tanto fazer muito, mas ser presença ativa: “foste visitar-me”.

Chega um momento em que já não há muito a fazer… mas há sempre muito a rezar, a escutar, a amar. “O Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar” – conforme disse Leão XIV. Há um abandono necessário – um repousar in sinu Jesu, como o discípulo que reclinava a cabeça no peito do Senhor (cf. Jo 13,23). Deus não nos pede grandes gestos, mas um coração disponível, entregue e agradecido.

Foi difícil aceitar isto porque queremos agir, resolver, aliviar, mudar. Queremos fazer tudo… e, tantas vezes, acabamos por não viver verdadeiramente nada. Mas, pouco a pouco, fui percebendo que, quando já não é possível fazer, ainda é possível estar. Como Maria de Betânia que escolheu “a melhor parte” (cf. Lc 10,42). E estar não é pouco. Estar com respeito, ternura, verdade. Estar sem fugir do sofrimento do outro. Estar como quem acredita, mesmo em silêncio, que os cuidados paliativos são uma carícia de Deus — discreta, mas profundamente real.

E aqui não posso deixar de agradecer aos profissionais de saúde. Para o sacerdote, o altar é o lugar da entrega. Mas convosco aprendi que, em cada doente, há também um altar. Muitas vezes senti que o meu altar era aquele doente, aquela família e até o vosso cuidado silencioso. Em cada gesto vosso, tantas vezes escondido, reconheci uma entrega que toca o sagrado.

Foi também neste caminho que comecei a descobrir algo exigente: não sou um “super-sacerdote”. Por detrás do altar há um homem. Por baixo das vestes, há um coração. Um coração também ferido, também em caminho. E talvez sejam essas feridas escondidas as que mais doem. E é necessário cuidar. porque há feridas que não se veem, mas doem tanto — ou mais — do que as que o olhar alcança. Este cuidar começa por reconhecer a nossa própria fragilidade. Só quem aceita as suas feridas pode aproximar-se verdadeiramente das feridas do outro.

Feridas da alma: medos, culpas, solidões, perguntas suspensas. Muitas vezes senti-me pequeno diante delas, sem respostas, sem palavras. E foi precisamente aí que compreendi que a assistência espiritual não consiste em explicar tudo, mas em acompanhar, sustentar, e não abandonar.

Lembro-me de alguém que me disse, deitado numa destas camas esta ideia: onde as almas são curadas, as vidas reencontram-se e são salvas.E comecei a ver isso acontecer — de forma simples, quase invisível. Pequenos reencontros, reconciliações, silêncios cheios de sentido.

Nestes quartos aprendi também que a vida não se mede pelo tempo, mas pelo amor. Há vidas longas que nunca se encontram… e instantes breves carregados de eternidade. Quantas vezes rezei em silêncio: “aumenta a minha fé…” (cf. Lc 17,5). Sobretudo quando não compreendo, quando a dor do outro me toca profundamente. E nesses momentos, ao estar junto de quem sofre, sinto que algo acontece: como se aquele espaço se tornasse sagrado. As lágrimas tornam-se um altar escondido, onde Deus se aproxima sem fazer ruído. Descobri, de forma muito concreta, que: Sem silêncio, não há escuta. Sem escuta, não há relação. Sem relação, não há fé viva. E confesso: nem sempre sei escutar. Nem sempre sei estar. Mas vou aprendendo.

Porque fora deste “hotel de sete estrelas” — como um doente um dia lhe chamou — é fácil cair na tentação de julgar, de diminuir os outros, de esconder as nossas próprias fragilidades com as dos outros. Eu próprio já o fiz. Talvez ainda o faça. É mais fácil condenar do que amar, derrubar do que levantar.

Mas aqui… aqui estou a aprender um outro olhar. Um olhar que não se coloca acima, mas ao lado. Um olhar que não acusa, mas acolhe. Um olhar que vê no outro não um problema, mas um mistério — uma página viva do Evangelho.

Jesus ensina isso: inclinar sempre. Nunca para esmagar ou ser esmagado, mas para levantar. Nunca para reduzir alguém ao seu erro, mas para o devolver à sua dignidade de filho amado. “Nem Eu te condeno” (Jo 8,11). E percebo que também eu preciso de deixar que a verdade me toque. Porque a verdade dói. Mas liberta (cf. Jo 8,32). É como no serviço administrado a cada doente: há gestos que doem — uma agulha, um cateter, uma intervenção necessária. Ninguém gosta, mas sabemos que é para curar, para cuidar, para dar vida. Assim é Deus: não entra para ferir, mas para tratar, salvar e renovar. Ele não se detém na nossa desgraça, mas mergulha nela para renascer a graça. Como a fénix que ressurge das próprias cinzas, também Deus faz brotar a vida nova precisamente a partir daquilo que parecia perdido (cf. Jo16,20).

Hoje sinto — e quero dizê-lo com convicção — que os cuidados paliativos não são apenas um lugar de fim. São um lugar de revelação. Aprende-se o essencial. Aprende-se a humanidade. Aqui, aprende-se Deus. E aquilo que aqui descubro não pode ficar fechado entre paredes. É um convite a viver fora: nas relações, nas escolhas, na forma como olho cada pessoa. Se tivesse de resumir tudo o que tenho aprendido, diria isto: fé que se curva, amor que se ergue.

O serviço de assistência espiritual não resolve tudo — e isso, no início, custava-me aceitar. Mas hoje sei que transforma tudo e todos. Não tira a dor, mas dá-lhe sentido. Não impede a morte, mas humaniza o caminho até ela. Cuidando da vida até ao fim, onde a ciência alivia e a fé dá sentido.

Porque, no fim, é o amor que permanece. E onde o amor permanece, há sempre vida que resiste.

Cancro: toca a todos

Maria João Pereira
Farmacêutica

A incidência de cancro tem vindo a aumentar ao longo dos anos. Isto deve-se, em parte, ao facto de vivermos mais tempo e termos acesso a técnicas de diagnóstico cada vez mais avançadas, mas também devido ao impacto do estilo de vida, de fatores ambientais e predisposições genéticas. Apesar dos progressos científicos, o cancro continua a assustar — e é compreensível.

De um modo simples, o cancro surge quando uma célula sofre uma mutação e passa a originar outras células igualmente alteradas (mutadas). Estas células perdem a capacidade de se diferenciar como as células normais, perdendo a sua função e apresentam uma taxa de multiplicação muito superior — uma vez que já não respondem aos mecanismos normais de controlo e regulação celular.

As mutações ao nível do DNA podem levar ao desenvolvimento de oncogenes, genes que estimulam a divisão celular, ou à perda/inativação de genes supressores de tumores, responsáveis por travar divisões celulares inadequadas. E é assim que o crescimento descontrolado se instala.

O momento do diagnóstico influencia muito o prognóstico. Há quem tenha a oportunidade de descobrir o cancro numa fase inicial, o que permite um tratamento mais eficaz e atempado. Por outro lado, muitos doentes só recebem o diagnóstico numa fase tardia – o que não invalida a possibilidade de tratamento. É complexo. Não existem receitas para lidar com um diagnóstico de cancro, independentemente do estádio ou do tipo.

Existem os tumores líquidos (como leucemias e linfomas) e tumores sólidos (como mama, intestino e pulmão). Os primeiros têm origem no sangue, na medula óssea ou no sistema linfático, enquanto os segundos formam uma massa sólida no órgão correspondente.

A abordagem terapêutica varia de acordo com o estádio da doença, o tipo de cancro e, claro, com o próprio doente e as suas escolhas. Atualmente, temos acesso a uma vasta gama de opções terapêuticas: hormonoterapia, cirurgias, transplantação de medula óssea, quimioterapia, imunoterapia, radioterapia e terapias-alvo. Nem todas se aplicam a todos os casos, mas a oferta é cada vez mais precisa e direcionada.

Em muitos casos, existe dor oncológica associada, frequentemente subtratada – seja por falta de literacia, seja pelo receio dos doentes em admitir a intensidade da dor e o quão incapacitante esta pode ser. Os opióides são os fármacos de eleição e o seu uso, quando bem acompanhado, é seguro e eficaz. O alívio da dor faz parte do tratamento e não deve ser negligenciado.

Para além de todas as opções terapêuticas proporcionadas pelo avanço da ciência, a componente humana não pode — e não deve — ser esquecida. A dimensão psicossocial precisa de ser integrada no cuidado: apoio emocional, familiar, social e psicológico são fundamentais – tanto para o doente como para os cuidadores e restantes familiares.

É perfeitamente normal sentir medo, solidão, ansiedade, raiva ou culpa. É normal viver um turbilhão de emoções. O importante é saber que esta não é uma luta solitária — são necessários aliados, humanos e profissionais, para caminhar lado a lado.

O cancro é um desafio que toca a vida de todos – do doente aos seus familiares e amigos. A compreensão, o apoio e a empatia são essenciais para enfrentar esta fase com dignidade e esperança. Que tenhamos a capacidade de olhar para o cancro como uma oportunidade de ressignificar a vida, valorizar cada momento e encontrar força na união e no cuidado mútuo.