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Associação dos Emigrantes Açorianos distinguida com Insígnia Autonómica

© DIÁRIO DA LAGOA

A Associação dos Emigrantes Açorianos (AEA), sediada na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, foi escolhida para receber uma das Insígnias Autonómicas de 2026, uma distinção atribuída pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e que será entregue nas comemorações oficiais do Dia dos Açores, a 25 de maio.

Em comunicado, a associação, presidida por Andrea Moniz-DeSouza, manifestou “enorme honra e profunda gratidão” pela distinção recebida, considerando tratar-se de um reconhecimento que valoriza o trabalho realizado em prol da emigração açoriana.

“A nossa associação foi escolhida pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores para receber uma das Insígnias Autonómicas de 2026, um reconhecimento que muito nos orgulha e que reforça o valor do trabalho que temos vindo a desenvolver em prol da comunidade emigrante açoriana”, refere a nota divulgada pela instituição.

A direção da AEA sublinhou também que a homenagem deve ser partilhada por todos os que contribuíram para a missão da organização ao longo dos anos. “Este reconhecimento não é apenas nosso – pertence a todos os que, ao longo dos anos, têm contribuído com dedicação, espírito de missão e amor às nossas raízes. É a prova de que preservar a identidade açoriana além-fronteiras continua a ser uma causa viva e essencial”.

Na mesma mensagem, a instituição felicitou ainda os restantes homenageados deste ano, considerando ser “uma honra partilhar esta distinção” com personalidades e entidades cujos percursos dignificam a diáspora açoriana e projetam o nome dos Açores no mundo.

Emigrou, mas agora rejeita os imigrantes

Octávio Lima
Professor

Há alguns anos, uma mulher pediu-me amizade numa rede social. Alegava conhecer-me da infância e, para confirmar a sua identidade, citava nomes da minha família, amigos de antigamente e vizinhos da época.

A história por trás do pedido era como um conto: ela era a menina que, no final dos anos 1960, tinha emigrado com os pais para o outro lado do Atlântico, onde se radicou, não tendo mais regressado ao lugar onde nasceu. 

As impressões que guarda do seu passado na ilha permanecem congeladas no tempo. As imagens do seu presente, porém, resumem-se a manifestações exacerbadas, nas redes sociais, de um novo patriotismo: o apoio incondicional ao atual chefe máximo e o combate feroz àqueles que, tal como ela há sessenta anos, imigraram sonhando colher os doces frutos da prometida árvore dos dólares.

Quando a saturação desses temas se instala, replica todos os feitos que tornaram o seu país de acolhimento a maior potência mundial. Assim, espraia-se na celebração do Dia da Queda das Torres, do Dia da Independência, do Halloween, do Dia de Ação de Graças – com os seus inevitáveis perus desmedidos. E, na míngua absoluta de assunto, subsiste sempre o postal de uma bandeira cravada na areia, contra o pano de fundo de um pôr do sol no horizonte.

Ela não está sozinha; muito pelo contrário. Sempre que ostenta o seu orgulho patriótico e desprezo pelos imigrantes, recebe apoio incondicional de amigas que não só reforçam a mensagem, como lhe acrescentam substância e tempero. Uma cola-lhe a imagem de um fac-símile do Preâmbulo da Constituição, riscado com o grafito ‘We the people have had enough’. Outra acrescenta a estampa do Grande Chefe. Uma terceira anexa um selo que agradece o ‘heroico trabalho’ das milícias de caça ao imigrante. 

Creio residir aqui uma ironia profunda e triste: quem conheceu na pele o desenraizamento, a saudade e a luta por uma vida melhor, vira agora as costas a quem trilha o mesmo caminho. Esta emigrante que hoje critica os imigrantes poderá ser vítima do que os especialistas chamam de ‘amnésia geracional’, apagando da memória as lutas dos seus antepassados — ou as suas próprias. 

A história da emigração portuguesa é um testemunho de resiliência, mas também de solidariedade comunitária. Esquecê-lo é trair a nossa memória coletiva. O sucesso alcançado não deve ser uma escada que se puxa para cima, mas uma ponte que se estende para trás.   

No fundo, a condição de imigrante — com a sua vulnerabilidade e esperança — é um laço humano mais forte do que qualquer diferença de origem ou época. Negar este fio que nos une é, em última análise, negar uma parte essencial de quem somos.

Carta aos emigrantes

Cláudia Ferreira
Escritora e biblioterapeuta

De caneta na mão é assim que me dirijo aos emigrantes, que outrora viveram embrulhados no encanto dos Açores. Aqui os pássaros voam com liberdade, os montes são cor de esperança e e os foguetes preenchem o ar. A música embala as ondas do mar, marcando o compasso da vida e o Espírito Santo, acende uma luz em cada casa e em cada coração.

Ser emigrante é saber segurar as lágrimas de saudade, é ter ousadia de buscar novos horizontes e novas esperanças. Para trás, ficaram as tradições, as memórias de infância e metade do vosso coração, mas apesar do oceano que vos separa de casa, serão para sempre filhos dos Açores.

Quando a saudade desponta, o vento crocita o vosso bendito nome, a natureza veste-se de saudade e a calçada da rua chora pelos seus filhos emigrantes. Para muitos passam anos, para outros uma vida, mas os Açores continuam embebidos num choro de saudade pelos filhos que partiram corajosamente, e que antes de seguirem viagem, lavaram o rosto com água salgada. Por sua vez, o mar agitou-se, beijando cada rosto que ali depositava as lágrimas da partida.

Gostaria de trazer-vos para casa, para sossegar a natureza e amansar as ondas que eclodem nas rochas, mas perante a minha incapacidade, ofereço-vos as minhas palavras, sei que são meras e pobres, mas são o que de mais puro carrego no coração.

Por agora despeço-me, homenageando todos os emigrantes audazes, glorificando-os pela magia das palavras que brotam da minha alma. Porque sendo eu, também, açoriana, falo a mesma língua da natureza e percebo cada palavra dita pelo mar, pelo vento e pela chuva. E em cada suspiro e cada murmúrio, a conversa é a mesma: “Que lá longe, em terras distantes, o Espírito Santo, continue a proteger os nossos filhos emigrantes”.