
Ana Rita Arruda
Especialista em Psicologia Clínica com formação em Neuropsicologia
Hospital CUF Açores
Na nossa sociedade, estar sempre ocupado passou a ser entendido como “viver bem”. Saltamos de mensagem em mensagem, de tarefa em tarefa, de ecrã em ecrã, muitas vezes sem uma verdadeira pausa. A sensação de ter a mente sempre ligada tornou-se familiar para muitos de nós: mesmo quando o corpo para, o pensamento continua a correr. E ainda que o cérebro humano seja extraordinariamente adaptável, isso não significa que possa, de alguma forma, beneficiar deste funcionamento em esforço contínuo.
Estar permanentemente em modo de resposta não é saudável para o cérebro. O excesso de estímulos, a pressão para sermos produtivos e a ocupação constante dificultam a atenção, aumentam o cansaço mental e reduzem a capacidade de organizar a informação que recebemos ao longo do dia. Quando tudo parece urgente, torna-se mais difícil distinguir o essencial do acessório. E isso tem consequências não apenas no rendimento, mas também na memória, no humor e na forma como lidamos com o stress.
O cérebro não funciona num único registo. Há momentos em que está orientado para o foco, para a resolução de problemas, para a tomada de decisões e para a resposta às exigências do quotidiano, mas também há momentos em que precisa de abrandar. Durante períodos de repouso mental, continua ativo, mas de outra forma: organiza informação, consolida memórias, integra experiências e recupera recursos importantes para voltar a concentrar-se. As pausas não são, por isso, uma perda de tempo. São parte de um funcionamento cerebral saudável.
Cada vez mais pessoas descrevem a dificuldade de não conseguir desligar, ou de estarem sempre a pensar em tudo ao mesmo tempo. Muitas vezes, não se trata de falta de capacidade, mas de um cérebro sobrecarregado, com pouco espaço para respirar. Sem pausas, a atenção torna-se mais frágil, a memória mais dispersa e a gestão emocional mais difícil. Ficamos mais reativos e irritáveis e com menos tolerância ao cansaço e à frustração.
Felizmente, o cérebro mantém ao longo da vida uma notável capacidade de adaptação. Os nossos hábitos diários moldam, pouco a pouco, a forma como ele funciona. Dormir com regularidade, fazer pausas, aprender coisas novas, mexer o corpo, cultivar relações e reduzir a sobrecarga mental são medidas que podem proteger a saúde cerebral e contribuir para uma longevidade com mais qualidade de vida.
Viver mais não basta. Importa viver melhor. E cuidar do cérebro não exige mudanças radicais. Às vezes, começa com decisões pequenas: fazer uma pausa curta sem telemóvel, caminhar alguns minutos, respeitar o descanso, fazer uma tarefa de cada vez, criar momentos de silêncio. Num mundo que glorifica a pressa, talvez parar seja, afinal, uma das formas mais inteligentes de cuidar da mente.

O Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) realizou um encontro técnico dedicado à “Intervenção Comunitária em Crianças e jovens em situação de risco”, assinalando o Mês Internacional da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância. A iniciativa, que reuniu diversas instituições açorianas, desde a Segurança Social a entidades privadas e centros de saúde, serviu para consolidar as estratégias de atuação do Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco (NACJR) e contou com a presença da coordenadora da equipa técnica do Comissariado dos Açores para a Infância, Carmen Ventura, que enalteceu o trabalho desenvolvido.
A coordenadora destacou a importância da abertura da instituição à comunidade, referindo que o encontro deu visibilidade a um trabalho exaustivo que precisa ser mais conhecido. Carmen Ventura sublinhou a necessidade de fortalecer as pontes e o trabalho em rede entre os diversos serviços da região, priorizando sempre o superior interesse da criança e o bem-estar das famílias.
Para a coordenadora do NACJR e médica pediatra do HDES, Augusta Arruda, o sucesso do evento residiu precisamente no networking e na partilha de experiências. Segundo a responsável, o objetivo central passa por dotar as equipas de ferramentas que permitam atuar precocemente nas situações de risco, evitando que estas evoluam para situações de perigo tipificadas por lei.
Desde a sua criação no HDES este núcleo multidisciplinar — composto por médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos — já acompanhou cerca de 102 crianças e jovens. Apesar dos desafios logísticos, Augusta Arruda reforçou a satisfação com os resultados alcançados desde que assumiu a coordenação, destacando que esta proximidade entre instituições promove a elaboração de melhores planos de vigilância para os menores.

O hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada reafirma a sua posição na vanguarda da medicina tecnológica em Portugal ao completar o primeiro ciclo de operação com o sistema de inteligência artificial, Gleamer Copilot. Implementada em julho de 2025, esta ferramenta tornou-se um pilar essencial no serviço de urgência da unidade hospitalar açoriana, auxiliando as equipas médicas na deteção precoce de traumatismos e patologias críticas.
A utilização dos módulos BoneView e ChestView permitiu elevar o padrão de segurança clínica oferecido aos utentes, garantindo uma validação de exames radiológicos em apenas alguns minutos e otimizando o tempo de resposta, especialmente em períodos de elevada pressão assistencial.
O sucesso operacional desta tecnologia, que atua como um assistente de suporte à decisão clínica em exames de raio-X e tomografia computadorizada, reflete-se na maior precisão diagnóstica de patologias do tórax e do pulmão, como o pneumotórax, nódulos pulmonares, derrames pleurais e opacidades alveolares, bem como de lesões ósseas, incluindo fraturas agudas, luxações, lesões corticais subtis e pequenos destacamentos ósseos.
Com a consolidação deste sistema, o maior hospital dos Açores prepara-se agora para uma nova fase de expansão, com a previsão de anúncio de novas ferramentas de inteligência artificial que deverão abranger outras áreas diagnósticas e operacionais.
Estas futuras soluções visam aprimorar a triagem e a gestão de fluxos clínicos, solidificando o arquipélago como um polo de referência em inovação médica.
O percurso de modernização tem um impacto direto na confiança dos profissionais e na segurança dos pacientes. O balanço desta primeira fase dá a confiança necessária para avançar com novos projetos que colocarão o hospital num patamar de eficiência tecnológica ainda mais elevado.

Padre André Furtado
“Estava doente e foste visitar-me” (Mt 25,35). Este versículo faz-me questionar: Quantos sofrem à nossa volta, e nós ficamos à distância, silenciosos, iludidos a pensar que o silêncio basta, e, por vezes, mergulhamos na hipocrisia de julgar em vez de cuidar? Diz-se amiúde que “quem precisa que procure”. Em parte, é verdade, mas na realidade, muitos sofrem em silêncio por vergonha, por medo ou por não saberem a quem recorrer, e a quem confiar. Cabe-nos ter a atitude que concretiza aquele “foste visitar-me”, aproximarmos e cuidarmos de quem sofre. Também se cuida fora de um hospital.
Ao longo do meu caminho no hospital, sobretudo nos cuidados paliativos — depois de uma experiência de tempestade e desencontro — recordei tantas vezes a parábola do filho pródigo: “Levantou-se e foi ter com seu pai” (Lc 15,20). Também eu precisei de regressar, de me reencontrar com a verdade. E foi nesse caminho que esta palavra deixou de ser apenas um versículo para se tornar um lugar onde sou constantemente interpelado: “estava doente e foste visitar-me”.
Ali, diante de cada doente, encontro não só a fragilidade do outro, mas também a minha. Foi aí que reaprendi o valor do ministério que me foi confiado: não tanto fazer muito, mas ser presença ativa: “foste visitar-me”.
Chega um momento em que já não há muito a fazer… mas há sempre muito a rezar, a escutar, a amar. “O Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar” – conforme disse Leão XIV. Há um abandono necessário – um repousar in sinu Jesu, como o discípulo que reclinava a cabeça no peito do Senhor (cf. Jo 13,23). Deus não nos pede grandes gestos, mas um coração disponível, entregue e agradecido.
Foi difícil aceitar isto porque queremos agir, resolver, aliviar, mudar. Queremos fazer tudo… e, tantas vezes, acabamos por não viver verdadeiramente nada. Mas, pouco a pouco, fui percebendo que, quando já não é possível fazer, ainda é possível estar. Como Maria de Betânia que escolheu “a melhor parte” (cf. Lc 10,42). E estar não é pouco. Estar com respeito, ternura, verdade. Estar sem fugir do sofrimento do outro. Estar como quem acredita, mesmo em silêncio, que os cuidados paliativos são uma carícia de Deus — discreta, mas profundamente real.
E aqui não posso deixar de agradecer aos profissionais de saúde. Para o sacerdote, o altar é o lugar da entrega. Mas convosco aprendi que, em cada doente, há também um altar. Muitas vezes senti que o meu altar era aquele doente, aquela família e até o vosso cuidado silencioso. Em cada gesto vosso, tantas vezes escondido, reconheci uma entrega que toca o sagrado.
Foi também neste caminho que comecei a descobrir algo exigente: não sou um “super-sacerdote”. Por detrás do altar há um homem. Por baixo das vestes, há um coração. Um coração também ferido, também em caminho. E talvez sejam essas feridas escondidas as que mais doem. E é necessário cuidar. porque há feridas que não se veem, mas doem tanto — ou mais — do que as que o olhar alcança. Este cuidar começa por reconhecer a nossa própria fragilidade. Só quem aceita as suas feridas pode aproximar-se verdadeiramente das feridas do outro.
Feridas da alma: medos, culpas, solidões, perguntas suspensas. Muitas vezes senti-me pequeno diante delas, sem respostas, sem palavras. E foi precisamente aí que compreendi que a assistência espiritual não consiste em explicar tudo, mas em acompanhar, sustentar, e não abandonar.
Lembro-me de alguém que me disse, deitado numa destas camas esta ideia: onde as almas são curadas, as vidas reencontram-se e são salvas.E comecei a ver isso acontecer — de forma simples, quase invisível. Pequenos reencontros, reconciliações, silêncios cheios de sentido.
Nestes quartos aprendi também que a vida não se mede pelo tempo, mas pelo amor. Há vidas longas que nunca se encontram… e instantes breves carregados de eternidade. Quantas vezes rezei em silêncio: “aumenta a minha fé…” (cf. Lc 17,5). Sobretudo quando não compreendo, quando a dor do outro me toca profundamente. E nesses momentos, ao estar junto de quem sofre, sinto que algo acontece: como se aquele espaço se tornasse sagrado. As lágrimas tornam-se um altar escondido, onde Deus se aproxima sem fazer ruído. Descobri, de forma muito concreta, que: Sem silêncio, não há escuta. Sem escuta, não há relação. Sem relação, não há fé viva. E confesso: nem sempre sei escutar. Nem sempre sei estar. Mas vou aprendendo.
Porque fora deste “hotel de sete estrelas” — como um doente um dia lhe chamou — é fácil cair na tentação de julgar, de diminuir os outros, de esconder as nossas próprias fragilidades com as dos outros. Eu próprio já o fiz. Talvez ainda o faça. É mais fácil condenar do que amar, derrubar do que levantar.
Mas aqui… aqui estou a aprender um outro olhar. Um olhar que não se coloca acima, mas ao lado. Um olhar que não acusa, mas acolhe. Um olhar que vê no outro não um problema, mas um mistério — uma página viva do Evangelho.
Jesus ensina isso: inclinar sempre. Nunca para esmagar ou ser esmagado, mas para levantar. Nunca para reduzir alguém ao seu erro, mas para o devolver à sua dignidade de filho amado. “Nem Eu te condeno” (Jo 8,11). E percebo que também eu preciso de deixar que a verdade me toque. Porque a verdade dói. Mas liberta (cf. Jo 8,32). É como no serviço administrado a cada doente: há gestos que doem — uma agulha, um cateter, uma intervenção necessária. Ninguém gosta, mas sabemos que é para curar, para cuidar, para dar vida. Assim é Deus: não entra para ferir, mas para tratar, salvar e renovar. Ele não se detém na nossa desgraça, mas mergulha nela para renascer a graça. Como a fénix que ressurge das próprias cinzas, também Deus faz brotar a vida nova precisamente a partir daquilo que parecia perdido (cf. Jo16,20).
Hoje sinto — e quero dizê-lo com convicção — que os cuidados paliativos não são apenas um lugar de fim. São um lugar de revelação. Aprende-se o essencial. Aprende-se a humanidade. Aqui, aprende-se Deus. E aquilo que aqui descubro não pode ficar fechado entre paredes. É um convite a viver fora: nas relações, nas escolhas, na forma como olho cada pessoa. Se tivesse de resumir tudo o que tenho aprendido, diria isto: fé que se curva, amor que se ergue.
O serviço de assistência espiritual não resolve tudo — e isso, no início, custava-me aceitar. Mas hoje sei que transforma tudo e todos. Não tira a dor, mas dá-lhe sentido. Não impede a morte, mas humaniza o caminho até ela. Cuidando da vida até ao fim, onde a ciência alivia e a fé dá sentido.
Porque, no fim, é o amor que permanece. E onde o amor permanece, há sempre vida que resiste.

No coração do Atlântico, onde o verde das criptomérias toca o cinzento das rochas vulcânicas, um grupo de cidadãos belgas percorre trilhos que são, simultaneamente, caminhos físicos e rotas de introspecção. O que os traz aos Açores não é o turismo convencional de contemplação, mas sim um projeto científico e terapêutico pioneiro que une a Universidade dos Açores ao hospital belga AZ Monica. Sob o conceito de Forest Mind (Floresta Consciente), este programa de terapias da natureza está a transformar a forma como pacientes com lesões cerebrais, burnout e traumas graves encaram o seu processo de recuperação.
O mentor desta iniciativa, o professor Eduardo Marques, da Universidade dos Açores descreve a semana como muito mais do que um intercâmbio académico. “Nós temos um momento de conexão humana, de interculturalidade”, afirma. “Temos aqui um grupo de doentes que vieram de um hospital belga aos Açores para um programa de reconexão com a natureza e terapias para encontrarem caminhos e estratégias para aumentar o seu bem-estar psicológico”.

A escolha dos Açores não foi um acaso geográfico, mas uma decisão clínica. Greet Dierckx, neuropsicóloga belga que trabalha com doentes com lesões cerebrais, explica a importância de tirar os pacientes do ambiente hospitalar. “É muito importante para eles aprenderem ferramentas para manter o cérebro o mais saudável e forte possível. A terapia baseada na natureza é um método muito forte para manter o corpo e o cérebro saudáveis”, refere a especialista.
Greet sublinha ainda que o mau tempo que assolou o arquipélago durante a semana acabou por ser uma ferramenta terapêutica inesperada: “A vida é desafiante. E esta semana foi muito desafiante em relação ao tempo. Mas aprendemos muito. Quando se faz em grupo, é ainda mais forte porque trocamos experiências e conhecimentos”, afirma.
Para os participantes, os exercícios serviram como espelhos das suas próprias vidas. Ann Willems, que se juntou ao projeto inspirada por uma amiga, utilizou elementos naturais para desenhar a sua “linha da vida”. Para ela, a natureza trouxe uma clareza necessária: “Isto representa-me. São lembretes para mim própria de que, na vida, temos de vir primeiro. Tens de estar saudável, forte e aterrada. Se estiveres segura, tudo o resto interage e a vida torna-se uma harmonia”, considera.
Essa mesma busca por harmonia é partilhada por Nadia Makrache, uma empresária que enfrentou dois episódios de burnout. Para Nadia, a surpresa foi a eficácia das dinâmicas: “tornou-nos criativos, tornou-nos calmos. Estávamos conscientes. Foi bom conectar com os locais e outras pessoas novas, sinto-me leve por partilhar”.”

Para aqueles que lidam com sequelas físicas e neurológicas graves, a floresta ofereceu uma nova perspetiva sobre as suas capacidades. Romelia Schwarzkechel viajou como guia de uma amiga que sofreu um acidente de carro com danos cerebrais, mas acabou por se envolver profundamente no processo. “É uma jornada, claro. Tivemos a natureza bela e todo o tipo de novos exercícios como usar binóculos para testemunhar a natureza de uma forma diferente e ver como o cérebro responde ao olhar fisicamente de uma maneira distinta”, explica.
Helene Van Der Linden sofreu uma hemorragia cerebral há um ano e meio. Admite que inicialmente hesitou em participar por não querer estar num “grupo de doentes”. Contudo, a experiência mudou a sua visão: “como podem ver, não somos realmente um grupo de doentes. São apenas pessoas a encontrar uma nova forma de viver depois do que aconteceu.” Helene confessa preferir as atividades físicas: “a surpresa da natureza aqui é algo que gosto muito. Sinto que não temos apenas as quatro estações num dia, mas todos os tipos de natureza do mundo num só lugar. Parece a Escócia depois parece o Havai”, diz, referindo-se aos Açores.
A eficácia da terapia mede-se pelo que os pacientes levam na bagagem de volta para a Bélgica. Peter Plusquin, que sofre de sintomas como “nevoeiro cerebral” e falta de concentração, encontrou nos Açores uma forma de ressignificar a sua condição. “A natureza desta ilha ajuda-nos a relacionarmo-nos connosco próprios. É como uma selva, mas uma selva fresca”, descreve. Peter leva consigo âncoras mentais dos exercícios realizados: “encontrei quatro ou cinco recursos que posso usar para me sentir melhor, são elementos-chave que nunca esquecerei. Ainda tenho os mesmos sintomas, mas acho que tenho mais formas de me relacionar com eles”.

O professor Eduardo Marques acredita que este é apenas o início de um caminho que pode transformar a região num destino de Turismo de Saúde e Bem-Estar. “Podemos utilizar a natureza, um recurso que temos espalhado por todas as ilhas, como um ativo importante em providenciar novas estratégias ao nível da saúde”, defende.
Mais do que isso, o projeto redefine o papel do assistente social moderno: “o assistente social pode assumir também uma função de terapeuta. Eu dispo-me do meu papel enquanto professor e assumo enquanto assistente social terapeuta, conduzindo sessões indutoras de renascimento individual”.
Embora o caminho seja novo e possa gerar desconfiança, Eduardo Marques é categórico: “os resultados provam que esta experiência está a ser extremamente positiva e gratificante”. Nos Açores, entre a névoa e o verde absoluto, provou-se que a natureza não é apenas um cenário, mas poderá ser uma parte essencial da cura humana.

Hélio Ponte nasceu em Vila Franca do Campo no ano de 1976, onde viveu até 2004, mas sem nunca perder a ligação à terra de origem. Atualmente vive na Ribeira Grande com a esposa e o filho. Toda a família e ascendentes são de Vila Franca do Campo.
Viveu uma infância normal, sem luxos, no berço de uma família humilde. Enquanto criança, passou muito tempo com os amigos, em particular no cais do Tagarete, mantendo sempre uma estreita ligação à igreja, inicialmente como acólito.
Filho de pai pescador e uma de família ligada ao mar, viu o pai mudar de vida quando passou a motorista marítimo, mas sem perder o ‘chão’ de água. A mãe, doméstica, tratava das lides da casa.
É o filho mais velho de três – irmão de Raquel e José Mário – e o seu percurso académico começou na então Escola Primária de Vila Franca do Campo (atualmente EB1/JI Prof. António dos Santos Botelho), Escola Preparatória de Vila Franca do Campo (agora designada de EB/S Armando Cortês-Rodrigues), Escola Secundária Antero de Quental e, mais tarde, Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (atualmente Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores).
Nesta entrevista, fala da fé, da romaria, do ser romeiro, do ser enfermeiro e de como a ciência e a fé se podem complementar na salvação de pessoas.

DL: Quando decidiu ser enfermeiro?
O meu ensino secundário, por vários fatores, não foi totalmente linear. Alguns sobressaltos, dúvidas talvez típicas da idade. Nunca fui um “aluno de excelência”, mas tinha consciência que sempre dei o meu melhor. Em 1997 fiz exames nacionais e iniciei o curso de enfermagem nesse mesmo ano, ainda como curso de bacharelato terminando em 2000, mas tivemos oportunidade de fazer de imediato o ano complementar de formação em enfermagem que terminou em 2001 dando-nos a equivalência a licenciatura. Nesta altura já enfermeiros formados há vários anos já estavam a regressar aos bancos da universidade para obterem a mesma equivalência. Foi uma mais-valia ter-nos sido dada essa oportunidade.
DL: Foi algo que já queria ou foi uma oportunidade de carreira/estabilidade?
Um misto de ambas. Talvez tenha descoberto essa apetência bem tarde ou, se calhar, até foi no momento certo, será sempre uma incógnita, mas não me arrependo de nada e tenho a certeza que faço-o com rigor e dedicação. Não gosto de falar do termo “vocação”, acho demasiado forte e não acho que se adeque por completo a esta profissão. É, acima de tudo, necessário o saber, saber estar e saber ser. Na altura era uma profissão com muita saída e colocação garantida. Também foi uma oportunidade de estabilidade de carreira e rapidamente (em menos de um ano) entrei para os quadros do HDES.
DL: Sempre trabalhou na mesma área ou tem vindo a mudar de área?
Desde que comecei a exercer atividade profissional foi sempre nesta área e na mesma instituição, o HDES.

DL: Ser romeiro foi uma decisão repentina ou já tinha outros familiares romeiros na família que o foram “puxando” para a romaria?
A pergunta foi muito bem colocada: desde quando és romeiro e não desde quando vais de romeiro. São duas perspetivas completamente diferentes porque a romaria é uma vivência para a vida e não só aqueles oito dias. Acaba por ser uma conduta e não um mero rito anual de penitência. Até podemos questionar o porquê deste penitenciar nos dias de hoje, mas não é uma procura de sacrifício desmedido porque, acima de tudo, quer-se misericórdia e não sacrifícios. Acaba também por ser um “peso” e responsabilidade porque somos logo apontados ao mínimo deslize no dia a dia. Não participamos numa romaria por sermos “santos e exemplo” (nunca haveria romarias assim), vamos na mesma por termos um propósito e um chamamento. Obviamente que há, infelizmente, quem se desvie do que é fazer e estar numa romaria.
Nunca tive familiares próximos que fossem romeiros na altura em que comecei. Fiz a minha primeira romaria em 2006 e desde então nunca mais deixei a mesma. Só me arrependo de não ter começado mais cedo. No entanto, tal não foi possível por múltiplos fatores, especialmente os estudos. Vila Franca do Campo só retomou as romarias no ano de 2000 depois de um grande interregno desde 1979 e, em boa hora, voltaram nas pessoas dos irmãos Carlos Saêta, José Pimentel e Hermínio Sousa, ficando depois entregue ao nosso atual mestre, irmão Carlos Vieira, e melhor entregue não poderia ficar.
Sempre gostei de ver os ranchos de romeiros, sempre tive a minha ligação à igreja e aos seus movimentos, como acólito, escuteiro e no Grupo de Jovens Vicentinos, mas nunca surgira oportunidade de o concretizar. Depois de ler o livro “Diário de uma Romaria”, de 2005, do irmão mestre Carlos Vieira, foi o incentivo que faltava. Não me sentia necessariamente afastado da igreja nessa altura, mas faltava algo e a romaria foi o que faltava.
Lembro-me perfeitamente da minha primeira romaria. A minha primeira pernoita de sempre na Fajã de Cima foi mesmo um testar das forças e de força de vontade, não pela família que nos recebeu que foi de um carinho formidável, mas por outros fatores desde água fria e eu, por respeito e ainda acanhado e novato, tive vergonha de dizer, desde barulho de vizinhos…dormi pouco ou mesmo nada. Na madrugada seguinte, no Alto da Mãe de Deus, em Ponta Delgada, só me apetecia vomitar. Não estava fisicamente bem e questionei mesmo o que eu fazia ali. Foi o primeiro e único momento desde que sou romeiro que essa “tentação” de sair da romaria me passou pela cabeça. Não estava mesmo bem. Mas os irmãos mais experientes foram sempre me incentivando. A refeição na paragem na Casa de Saúde de Nossa Senhora da Conceição foi o volte-face. Desde então que não consigo imaginar um ano sem ter essa semana de isolamento e introspeção. Sei bem ao que me vou sujeitar, ao desconforto, à dor, a poucas horas de sono, a dias que podem ser mesmo violentos. Sim, dependendo de várias circunstâncias, uma romaria pode mesmo ser violenta física e psicologicamente. Os três anos de interregno devido à pandemia não foram fáceis de lidar.
DL: Sendo um homem da medicina, onde por vezes se operam verdadeiros milagres que salvam pessoas, até onde vai a medicina e onde começa a fé/devoção das pessoas?
Numa das reuniões de preparação da romaria falamos precisamente disso, do equilíbrio entre a fé e a ciência. Faz-se a comparação com as duas asas de uma ave. A mesma só voa em segurança se as duas asas estiverem bem. Uma asa é a razão (a ciência) e a outra é a fé (Deus). É perfeitamente possível esse equilíbrio desde que vejamos esse equilíbrio na base da complementaridade e não do conflito. São duas formas complementares de se buscar a verdade. O próprio Einstein via a ciência e a racionalidade do universo como evidência no limite de algo superior, de uma inteligência criadora. Várias pessoas ligadas à igreja foram também cientistas como Georges Lemaître, sacerdote, que desenvolveu a teoria do Big Bang, do átomo primordial. A ciência explica como aconteceu e a fé o porquê de acontecer. A ciência não tem de anular a fé, nem vice-versa. Na nossa civilização ocidental, se é que é permitido usar esta expressão sem que me atirem sete pedras, a criação de universidades cristãs são o exemplo de como a fé cristã pode fomentar o conhecimento e desenvolvimento científico. A meditação também é vista como ciência da mente.
Entendo que consegui uma formação catequética e católica lúcida no sentido de entender que há espaço para a fé e a ciência conviverem e complementarem-se uma à outra. Efetivamente, já fui questionado nesse sentido, não necessariamente apenas relacionado com a profissão que exerço, mas porque há uma correlação muitas vezes errada com o grau de ensino e a crença numa religião, credo ou fé. Uma não invalida a outra, mas é certo que me baseio no dia-a-dia na evidência científica no exercício da minha profissão.

DL: Já teve algum paciente que pensou que poderia não sobreviver e, sem que nada aparente o pudesse justificar, recuperou-se?
Sim, várias vezes. Cada pessoa tem mecanismos fisiológicos ou condicionantes provocados por doença que originam diferentes formas de adaptação à alteração do seu estado normal de saúde como situações de traumatismo grave, por exemplo, em especial das células nervosas. Neste preciso momento em que partilhamos estas ideias acredito que está a acontecer uma situação destas num caso extremamente delicado e instável.
Mas voltando ao tal equilíbrio necessário entre a fé e a ciência, a primeira também pode influenciar decisões relacionadas com o prolongamento de medidas de suporte artificial de vida ou até mesmo interrupção da mesma em casos extremos. Há sempre a questão de tratamentos ou prolongamento dos mesmo que se transformam em autêntica distanásia. A dignidade até no morrer está acima de tudo, e um morrer sem dor acima de tudo. É lícito usarmos a fé para manter medidas desproporcionadas ao doente que até podem atentar à dignidade humana? É o tal equilíbrio que é necessário.

DL: A fé salva pessoas?
Sendo católico não posso excluir isso, mas como disse anteriormente, no dia-a-dia, baseio-me na evidência científica no exercício da minha profissão. A fé, numa vertente catequética também é falada nas nossas reuniões de preparação. É o acreditar sem ver. É um dom gratuito da graça de Deus e não o resultado de obras humanas, a tal dicotomia entre a ciência como evidência e a “falta” da evidência que é a fé, o acreditar sem ver. Mas a fé também pode ser intelectual, não tem necessariamente de estar ligada a uma crença ou religião, mas também a uma filosofia de vida, por exemplo. A mesma promove a ligação a algo maior que não se vê, o tal acreditar sem ver. Pode trazer paz e conforto em momentos difíceis, de forma alguma está descartado que a fé não desempenhe o seu papel na recuperação de uma doença, nem que seja no conforto e esperança.
Este é um facto real. Um Cavaleiro da Ordem de Santiago de Compostela, residente em Ponta Delgada, em 2013 confiou fervorosamente a oração ao nosso rancho por um bisneto que tinha nascido com várias complicações. Os médicos tinham muitas reservas sobre a sobrevivência do mesmo. Na romaria de 2014 esta intenção foi rezada fervorosamente, assim como todas as outras, e a verdade é que o menino é hoje uma criança saudável. O seu bisavô testemunhou esta vivência à Ordem. A mesma atribuiu a Medalha de Ouro da Ordem ao Rancho de Vila Franca do Campo. Terá sido só a medicina? A oração e a fé? Ambas juntas? Dá que pensar estas e muitas outras situações. Como já foi dito numa romaria “busca-se também aqui o que a Ciência não resolve!”
Outra situação que também dá que pensar. Na igreja da Senhora do Rosário na Povoação há uma imagem invocada como Senhora do Ó ou Senhora do Parto. Invocada para que a futura mãe tenha uma “hora pequenina” (parto sem dificuldade) ou por quem não consegue engravidar. Duas situações ocorreram em que após anos a tentar engravidar, mesmo com o auxílio de medicação tal não aconteceu e após o pedido de oração do nosso rancho à mesma imagem no ano seguinte estava-se a agradecer a concretização do pedido de oração. Inclusivamente este ano uma das mães levou a sua menina à igreja acompanhando-nos na oração.

Joaquim Amaral
Coordenador de Otorrinolaringologia e especialista na Unidade do Sono
Hospital CUF Açores
O sono é fundamental para a nossa saúde física e mental, sendo de extrema importância para o funcionamento cognitivo e para a prevenção de múltiplas doenças, considerando-se, atualmente, um fator determinante na longevidade e na qualidade de vida.
De entre as patologias que afetam a qualidade do sono, aquelas que estão relacionadas com a obstrução das vias aéreas superiores ocupam um lugar de destaque, estimando-se que cerca de 60% dos homens e que 40% das mulheres adultas ressonem (roncopatia), e que cerca de 5% da população tenha algum grau de apneia obstrutiva do sono.
O diagnóstico e tratamento desta condição revela-se cada vez mais importante, uma vez que diminui o risco cardiovascular, os casos de sonolência excessiva durante o dia (causadora de inúmeros acidentes) e impacto no raciocínio e no temperamento. Desta forma, a avaliação feita por um otorrinolaringologista, preferencialmente integrado numa equipa multidisciplinar com outras especialidades, revela-se imprescindível, tanto para o diagnóstico e localização da causa da doença, como, muitas vezes, para o seu tratamento.
A avaliação das fossas nasais, da cavidade oral, da faringe e da laringe, através da observação direta e exames complementares, permite a localização dos locais de obstrução da passagem do ar durante o sono. Entre outras razões, é esta diminuição da oxigenação enquanto dormimos que determina a maioria dos sintomas e processos de lesão dos nossos órgãos.
Com a caracterização das alterações anatómicas que estão a contribuir para a obstrução, e após o diagnóstico assente em exames complementares, é possível o planeamento multidisciplinar do melhor tratamento, personalizado para cada doente. Também aqui a Otorrinolaringologia tem um papel fundamental, especialmente nos casos em que uma intervenção cirúrgica é necessária, nomeadamente a realização de correção de desvios do septo nasal, diminuição do volume dos cornetos nasais, palatoplastias, diminuição do volume das amígdalas, correção de patologias da laringe, entre outras.
As patologias relacionadas com o sono podem manifestar-se ainda na infância, sendo o volume aumentado das amígdalas e adenoides uma das causas mais comuns. A agitação psicomotora, a desatenção, dificuldades de concentração, atraso de crescimento, alterações no desenvolvimento da face e dos dentes, são algumas das consequências destas patologias, fazendo com que o seu tratamento seja essencial para o normal desenvolvimento físico e mental das crianças afetadas. Nestes casos, deve ser iniciado um tratamento médico e, caso este não seja suficiente, a adenoidectomia (cirurgia para remover as adenoides) e a amigdalectomia (cirurgia que permite a remoção total ou parcial das amígdalas), são das intervenções mais comuns, tendo um nível de eficácia muito elevado com a reversão quase completa dos sintomas.
Ressonar não é normal e fazer apneias durante o sono retira longevidade e qualidade de vida. Se é o seu caso, ou de um dos seus familiares, não ignore os sinais e procure ajuda especializada.

O Hospital CUF Açores, na cidade da Lagoa, anunciou esta terça-feira, 28 de outubro, a criação de uma Unidade de Sono.
Segundo nota de imprensa enviada ao nosso jornal, a nova unidade tem como objetivo assegurar uma resposta “focada no diagnóstico, tratamento e acompanhamento das doenças do sono”.
De acordo com a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, mais de metade da população portuguesa assume não dormir bem, o que, segundo o médico pneumologista com competência em Medicina do Sono e coordenador da Unidade do Sono do Hospital CUF Açores, Tiago Sá, “revela a dimensão e a importância deste problema de saúde pública, muitas vezes associado a outras comorbilidades, tais como doenças cardíacas, doenças metabólicas, doenças neurológicas, condições psiquiátricas e obesidade”.
A criação da Unidade do Sono permite um acompanhamento multidisciplinar que interliga diferentes especialidades, promovendo uma resposta adaptada a cada pessoa: “Existe agora uma equipa dedicada e articulada que define, em conjunto, a decisão terapêutica mais adequada a cada caso, tornando o tratamento mais célere, eficaz e personalizado”.
A nova unidade dispõe de salas técnicas para exames diagnósticos, tecnologia de última geração e consultas dedicadas, integrando especialistas em Cirurgia Maxilo-Facial, Endocrinologia, Medicina Dentária, Neurologia, Nutrição, Otorrinolaringologia, Pneumologia, Psicologia Clínica e Psiquiatria, para o diagnóstico e tratamento integrado de diversas patologias. A sua atuação abrange os distúrbios respiratórios do sono, incluindo apneias obstrutiva e central do sono, insónias e hipersónias, bem como os distúrbios de movimento relacionados com o sono, como a síndrome das pernas inquietas, parasónias e alterações do ritmo circadiano.
“Todas estas condições afetam não apenas o descanso noturno, mas também a saúde física, mental e a qualidade de vida”, alerta o coordenador da Unidade do Sono do Hospital CUF Açores, aconselhando que “na presença de sintomas como sonolência diurna excessiva, fadiga ou ressono intenso acompanhado ou não por pausas respiratórias noturnas, seja procurada ajuda especializada”.
Com esta nova resposta assistencial, o Hospital CUF Açores reforça a sua aposta em cuidados de saúde diferenciados, especializados e próximos, disponibilizando à população açoriana uma unidade de referência que contribui para a melhoria do bem-estar, do descanso noturno e da qualidade de vida.

Eduardo Ferreira
Especialista em Otorrinolaringologia
no Hospital CUF Açores
A perda de audição no adulto é uma queixa muito frequente nas consultas de Otorrinolaringologia. Vários fatores podem estar envolvidos no surgimento da surdez, que pode iniciar com uma simples gripe ou ser provocada por algum tipo de traumatismo do ouvido, pelo uso de determinados medicamentos ou, até, devido a um acidente vascular cerebral.
A perda de audição, que pode ser súbita ou progressiva, inclui quadros de surdez que implicam uma compensação, que pode ser alcançada através de uma prótese auditiva externa, como um aparelho auditivo convencional, ou implantes colocados cirurgicamente, como é o caso dos implantes cocleares. Por outro lado, existem também situações em que a audição pode ser recuperada através de tratamentos farmacológicos ou de pequenas intervenções cirúrgicas.
Por exemplo, algumas pessoas desenvolvem um crescimento exagerado do osso do canal auditivo externo (onde se acumula a cera), que pode provocar uma oclusão total. Esta situação é mais frequentemente verificada em quem está muito exposto a água fria, como os surfistas, mas pode ocorrer sem qualquer causa identificável. Nestes casos, pode ser feita uma cirurgia de “ampliação” deste canal, um procedimento simples e seguro quando feito em quadros menos avançados.
Também os quadros de otite crónica, quando desvalorizados, podem levar à destruição do tímpano e dos pequenos ossos do ouvido médio (martelo, bigorna e estribo). Para reduzir a probabilidade disso acontecer, é importante prevenir e tratar atempada e adequadamente as infeções frequentemente associadas.
Num ouvido não infetado, as cirurgias de reparação do tímpano têm riscos relativamente pequenos e podem ser feitas, frequentemente, em regime de ambulatório.
Por outro lado, há casos em que se verifica um crescimento anormal de pele no ouvido médio, implicando uma cirurgia mais complexa. Esta cirurgia tem como objetivo principal deixar o ouvido médio sem resíduos de pele, ou seja, totalmente livre de doença – chamada colesteatoma. Na ausência de cirurgia, a doença vai continuar a progredir, destruindo cada vez mais o ouvido, com risco de infeções quase constantes, agravamento da surdez, paralisia facial e vertigem.
Outros casos de surdez poderão dever-se à fixação de um dos ossículos do ouvido médio. Neste contexto, poderá ser feita uma cirurgia com restauração da mobilidade dessa cadeia ossicular, procedimento que conta com uma taxa de sucesso bastante elevada, pois consegue melhorar significativamente a audição em cerca de 90% dos casos.
Por fim, quando em vez de um ouvido médio bem ventilado, observamos um preenchimento por líquido seroso que se mantém após medicação, pode ser necessário efetuar uma drenagem. Este cenário é muito comum em crianças e envolve a colocação de tubos no tímpano. Em adultos com uma surdez persistente após uma otite média aguda, essa drenagem também pode estar indicada. Por outro lado, adultos com líquido no ouvido médio sem qualquer causa aparente deverão ser avaliados por um especialista, para excluir uma possível causa tumoral.
A conclusão é clara: antes de pensar em aparelhos auditivos, há outras possibilidades a explorar. Diagnosticar precocemente e conhecer as várias opções terapêuticas pode fazer toda a diferença na qualidade de vida de quem começa a manifestar perda de audição.

Os profissionais do Hospital CUF Açores, na cidade da Lagoa, ilha de São Miguel, foram homenageados na segunda-feira, 23 de junho. Tratou-se de uma demonstração pública de reconhecimento pelo apoio prestado ao Serviço Regional de Saúde (SRS) após o incêndio que afetou gravemente o Hospital do Divino Espírito Santo.
A cerimónia decorreu nas instalações da CUF Açores, após uma reunião entre o presidente do Governo regional dos Açores, José Manuel Bolieir e o CEO da CUF, Rui Diniz. Para além da homenagem aos profissionais envolvidos, o momento serviu também para assinalar os 80 anos da fundação da CUF.
“Quero deixar uma palavra de gratidão e reconhecimento. O que cada um fez, fez bem”, afirmou o presidente do Governo regional, dirigindo-se aos profissionais da CUF.
Segundo comunicado do Governo dos Açores, o incêndio no HDES “obrigou à evacuação total da unidade hospitalar, envolvendo centenas de doentes e profissionais. Graças à resposta rápida e eficaz das estruturas de saúde da região, em estreita articulação com o setor privado, foi possível assegurar a continuidade dos cuidados sem consequências graves para os utentes”.
José Manuel Bolieiro, salientou, assim, que o sucesso da operação foi fruto de uma ação coordenada, onde todos deram o melhor de si.
“Foi uma situação de calamidade. Mas correu bem porque houve esforço, entrega e profissionalismo”, sublinhou, acrescentando ainda que, “não houve facilitismos, houve virtude na forma como foi enfrentada a dificuldade”.
O líder do executivo açoriano destacou ainda a forma como a CUF acolheu os utentes, garantindo condições de dignidade e qualidade clínica.
O executivo sublinha, em comunicado, que a homenagem foi também ocasião para reforçar o compromisso do Governo dos Açores com uma estratégia de colaboração entre os setores público, privado e social da saúde. O governante defendeu um modelo de complementaridade que potencie recursos e capacidades, assegurando uma rede de resposta mais robusta e integrada.
“Queremos um SRS musculado, preparado para responder à essência, e a essência não se pode limitar ao mínimo”, referiu.
O presidente do Governo regional deixou, por fim, uma mensagem de estímulo: “Cada situação é uma oportunidade de aprendizagem. Continuaremos a trabalhar para uma saúde mais preparada, mais humana e mais próxima”.