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Um conto infantil

Alexandra Manes

Por estes dias, recebi um pedido para assinar uma petição pública defendendo a continuidade da Hora do Conto, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro. Muitas das pessoas que lerem este texto também terão recebido. Assumo a incredulidade só com o título. Então não há dinheiro para pagar uma hora do conto?

Foi um susto passageiro. Agravou-se rapidamente. É que, como muitas e muitos açorianos, eu também tenho ouvidos nos corredores do Palacete Silveira e Paulo. E não são os ouvidos que as teorias da conspiração podem fazer crer. São ouvidos discretos. Em todos os sentidos da palavra. O que me chegou foi a informação, já desmentida, numa breve resposta ao Diário Insular, mas que me parece bater certo com este cancelamento da Cultura. A nova diretora regional, depois de ter demorado meio semestre a tomar posse, reuniu as suas chefias para informar que, em 2026, não há dinheiro. Sim, leram bem. Este ano, as bibliotecas e museus da Região vão congelar muitos dos seus planos de atividades, algo que, perante o Diário Insular, a Secretaria se escudou de confirmar… ou desmentir.

Comecei por pensar que poderia ser um ato performativo, estilo instalação artística, a modos que invisível, para celebrar os 50 anos da Autonomia e a efeméride da Capital Portuguesa da Cultura. A nossa liberdade permite que nada façamos! Algo assim, meio para o abstrato. Mas não. É informação transmitida em nome da Senhora Secretária, que nem esteve na reunião. Não há dinheiro para a Cultura. Outra vez. E desta vez nem o arroz escapa. Prato vazio para quem quer usar os nossos serviços externos para representar o arquipélago.

Agora, entendo a “fuga” da anterior diretora da cultura, provavelmente por antever a crise profetizada. Não se esperava era que fosse desta dimensão. Ao que é possível apurar, junto de quem de direito, os diretores e as diretoras estão de cabelos em pé. Dezenas de fornecedores de serviços, alguns deles apalavrados e outros com compromisso firmado, receberam nota de cancelamento. Entre eles, a hora dos contos infantis na biblioteca de Angra. São as crianças que perdem. Os adultos. Os turistas. Segundo consta, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo já terá indicado a sua disponibilidade para assegurar a manutenção da Hora do Conto, resolvendo mais um imbróglio da ineficácia governamental. Assim o espero. Caso contrário, fica tudo ao abandono, como se fosse um cenário de guerra ou uma autoestrada depois do rio galgar. Esta é a política do governo de Bolieiro, secundada pela extrema direita e validada pela atual diretora e pelas suas chefias diretas, que nada fazem para apaziguar as direções dos museus e bibliotecas. Cancelem. Esqueçam. A cultura agoniza. Tal como num conto infantil do século passado, são os vilões de cinema que se levantam para nos engolir. Deixo um abraço solidário a quem trabalha na Direção Regional da Cultura e não tem culpa de nada. Querem fazer, mas não vos deixam. Eu sei. Desejo-vos força e resiliência. Tal como nos contos infantis, um dia esta sombra irá passar. Bem que há abaixo-assinados a pedir o regresso de D. Sebastião. Até lá, é aguentar.

Já agora, talvez fosse interessante conhecer a distribuição das verbas orçamentadas entre o Teatro Micaelense e as restantes ilhas, no contexto regional, após os cortes transmitidos.

Letras Lavadas acolhe lançamento do livro “Uma família açoriana”

Livro de Beatriz Moreira da Silva vai ser lançado no próximo dia 29 de novembro pelas 15 horas

© DL

O livro “Uma família Açoriana” da autoria de Beatriz Moreira da Silva, colaboradora do Diário da Lagoa (DL), vai ser lançado oficialmente no próximo dia 29 de novembro, pelas 15 horas, na Livraria Letras Lavadas, no centro histórico de Ponta Delgada. Vai ser apresentado por Clife Botelho, diretor do DL, e pela lagoense, Marta Ferreira.  

Trata-se de uma obra infantil sendo esta a primeira de Beatriz Moreira da Silva. Segundo a autora, “a saudade ensina-nos, o livro é a prova disso. Não se trata de ser fácil, trata-se de fazê-lo com amor e dedicação. Escrever, corrigir, ouvir muitos «não’s» fizeram parte do percurso. Ninguém acreditou mais do que eu e, sobretudo, mais do que quem cá já não está – o meu avô. Transcrever o que sentimos e poder partilhá-lo é a maior benção. Ninguém está sozinho. No fundo somos todos iguais”.

“Porquê falar de sentimentos ou emoções?”, questiona a autora. “Uma criança com três anos tem cerca de 80% do seu cérebro desenvolvido, não tem capacidade para saber gerir frustrações. Dar a conhecer é tão importante como respirar, portanto não nos coibirmos de permitir sentir, demonstrar compreensão, abraçar, ficar apenas ali no chão a dar o conforto. Não se trata de descer ao nível da criança, ela é que está sã e nós só temos de lhes preparar para voar, ainda que com obstáculos pelo percurso”, diz.

O livro infantil “Uma família açoriana” foi escrito em 2015, em Castelo Branco, mas só agora foi editado pela editora Flamingo. Conta a história de uma menina, Violeta, que “tem a sorte de pertencer a dois países. Nascida em Toronto mas com alma açoriana” pode ler-se na sinopse.  

O lançamento do livro tem entrada livre.

Miopia Infantil: Um problema que não pode ser ignorado

Tiago Fernandes
Especialista em Oftalmologia
no Hospital CUF Açores

Caro leitor, se o seu filho tem mostrado dificuldades em focar objetos distantes, como o quadro da escola ou a televisão, ou se tem começado a semicerrar os olhos para ver objetos que antes observava com clareza, este artigo foi escrito para si.

A miopia é um erro refrativo, ou seja, uma condição ocular onde a imagem não é corretamente focada na retina, a camada interna do olho responsável pela visão de detalhes, fazendo com que as crianças com miopia tenham dificuldades em ver objetos distantes com clareza, mas que a visão de objetos próximos seja, normalmente, nítida.

A miopia ocorre quando o olho é demasiado longo ou quando o poder de focagem do olho, exercido pela córnea (a camada transparente na frente do olho) e pelo cristalino (a lente natural do olho), é excessivo. Este fenómeno faz com que a imagem seja focada no plano à frente da retina, causando dificuldades de visão à distância.

Tal como muitas outras condições, a miopia resulta da conjugação entre fatores genéticos e ambientais. A prevalência da miopia é especialmente elevada na Ásia, o que indica uma forte predisposição genética. Contudo, fatores ambientais também são determinantes, e um dos principais fatores ambientais é o tempo reduzido que as crianças passam ao ar livre. Neste sentido, um estudo mostrou que as crianças que passam entre 10 a 14 horas por semana ao ar livre têm menor risco de desenvolver miopia, mesmo que apresentem outros fatores de risco, como o uso excessivo de dispositivos de perto ou histórico familiar de miopia.

Embora a relação entre o uso de dispositivos digitais e o desenvolvimento da miopia seja ainda debatida, está comprovado que o tempo excessivo em atividades de perto (como o uso de telas) contribui para o seu aumento e progressão.

Nos últimos anos, a consciencialização sobre a necessidade de controlar a progressão da miopia tem aumentado, uma vez que cada vez mais crianças estão a desenvolver miopia cada vez mais cedo. Importa dizer que esta doença não se limita à dificuldade em ver ao longe; a sua progressão pode levar a complicações graves, como descolamento de retina, glaucoma e catarata, que podem causar perda irreversível da visão. Além dos custos médicos com consultas e tratamentos, a miopia tem um impacto significativo na qualidade de vida e na produtividade laboral.

A correção óptica da miopia pode ser feita com óculos e lentes de contacto. Embora a cirurgia refrativa seja uma opção para adultos com graduação estável, a sua aplicação em crianças é controversa, sendo indicada apenas em casos de miopia elevada e quando outras formas de correção não são viáveis. Entretanto, novas abordagens terapêuticas têm surgido, não apenas para corrigir a visão, mas também para retardar a progressão da miopia, nomeadamente as lentes de óculos e lentes de contacto com desfoque periférico, uso de gotas com atropina diluída ou então ortoqueratologia. Acresce que, em alguns casos, pode ser necessário combinar tratamentos para, em conjunto com algumas mudanças de comportamento, potencializar os resultados.

Cada criança é única e o tratamento da miopia deve ser adaptado às suas necessidades específicas. Consultar um oftalmologista é fundamental para obter uma orientação adequada. Proteger a visão do seu filho é essencial para o seu desenvolvimento e bem-estar. Quanto mais cedo a miopia for diagnosticada e tratada, melhores serão as perspetivas para a saúde ocular no futuro.

Se suspeitar que o seu filho possa estar a sofrer de miopia, não hesite em procurar ajuda médica. Um diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para garantir a saúde ocular e evitar complicações a longo prazo.