
A Universidade dos Açores promoveu, esta sexta-feira, dia 22 de maio, uma aula aberta subordinada ao tema “Serviço Social em Catástrofes: Consolidando a Prática Profissional no Contexto da DANA de Valência”. De acordo com a nota informativa enviada à redação do Diário da Lagoa, a iniciativa decorreu esta manhã, tendo reunido com sucesso estudantes, docentes e profissionais da área interessados em compreender os mecanismos de intervenção social e comunitária em cenários de extrema urgência e emergência humana.
A sessão contou com a participação especial da professora Ángela Carbonell Marqués, docente de Serviço Social na Universidade de Valência e especialista em Saúde Mental, que se encontra na região ao abrigo do Programa Erasmus+. A convidada internacional partilhou na primeira pessoa a experiência vivida e coordenada no contexto da DANA de Valência — o fenómeno meteorológico extremo que causou severos impactos sociais e perdas humanas na Península Ibérica —, promovendo uma reflexão profunda sobre os desafios da resposta psicossocial em situações de crise e a consolidação das práticas de Serviço Social quando as comunidades locais são severamente afetadas.
O encontro foi promovido no âmbito da unidade curricular “Intervenção em Contextos de Exclusão”, lecionada pelo professor doutor Eduardo Marques, que assumiu as funções de anfitrião e moderador do debate aberto à comunidade. O programa desta cooperação académica e científica integra-se ainda nas atividades do projeto TRANS-Lighthouses, aproveitando a escala de trabalho para estimular a reflexão crítica em torno de riscos e acidentes em trilhos naturais, uma problemática com forte pendor de proximidade e de crescente relevância para a salvaguarda de residentes e turistas na Região Autónoma dos Açores.
Além da componente letiva e do debate aberto ao público, a agenda da docente espanhola em solo micaelense prevê a realização de reuniões de trabalho com diversos stakeholders locais e visitas técnicas a espaços naturais emblemáticos. Entre as deslocações programadas, destaca-se a visita ao projeto-piloto sediado no Trilho da Água / Janela do Inferno, uma das infraestruturas de pedestrianismo de referência no concelho da Lagoa, permitindo a partilha mútua de conhecimentos sobre prevenção e intervenção comunitária em áreas de risco.

A Câmara Municipal da Lagoa, na ilha de São Miguel, vai assinalar o Dia Mundial da Árvore e das Florestas, no próximo dia 21 de março, com uma ação de limpeza e conservação do trilho da Janela do Inferno.
Segundo nota de imprensa enviada pela autarquia lagoense, o evento nasce de uma vasta rede de parcerias que envolve o projeto TransLighthouses, o Expolab, o Centro de Educação e Formação Ambiental de Lagoa (CEFAL), o Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA), a associação Kairós, a Junta de Freguesia de Santa Cruz e a Associação Cultural e Recreativa dos Remédios. Esta união de esforços tem como principal objetivo incentivar práticas de sustentabilidade e reforçar o respeito pelo património natural do concelho, convocando os cidadãos para um papel ativo na preservação da biodiversidade local.
O ponto de encontro para todos os interessados em participar nesta iniciativa está marcado para as 9h00, na Casa da Água – Trail Point, nos Remédios. A organização recomenda que os voluntários se façam acompanhar de calçado e vestuário adequados à prática de pedestrianismo, bem como de água e uma lanterna, acessório essencial para a passagem nos túneis que caracterizam este percurso. Mais do que uma simples recolha de resíduos, a ação pretende sensibilizar para a importância das florestas e para a manutenção da qualidade ambiental de um dos ex-líbris turísticos e recreativos da ilha de São Miguel.
O trilho PRC37 SMI – Rota da Água – Janela do Inferno, inaugurado a 13 de maio de 2014, está equipado com tecnologia de eco-contadores, que permite a monitorização de utilizadores em tempo real, sendo que o percurso registou uma adesão recorde no último ano. De acordo com os dados partilhados pela autarquia, em 2025 foram contabilizados mais de 60.000 acessos, um número que espelha a crescente relevância deste trilho tanto para os residentes da Lagoa como para os turistas que visitam a região, justificando assim o investimento contínuo na sua limpeza e valorização.

O projeto que envolve o trilho da Janela do Inferno entrou numa fase crucial de avaliação. Num grupo de discussão recente, que decorreu no mês passado, na Universidade dos Açores, parceiros locais e especialistas reuniram-se para analisar o progresso do projeto sob diversas dimensões — governança, economia, ambiente, sociedade e cultura — utilizando uma metodologia partilhada com outros países europeus, como Bélgica e Alemanha.
Segundo Eduardo Marques, responsável pelo Translight Houses, este grupo focal funciona como uma “câmara de ressonância” do que foi alcançado até agora. O objetivo é recolher dados comparáveis que permitam à Comissão Europeia delinear políticas públicas alinhadas com o conceito de Soluções Baseadas na Natureza (SBN). “Estamos aqui para celebrar o nosso compromisso com os territórios e o bem-estar das pessoas, num respeito profundo pela natureza”, afirmou o docente, sublinhando que a Lagoa é um dos “pilotos” cujos resultados servirão de bitola para o futuro da sustentabilidade urbana na Europa.
Um dos pontos altos do encontro foi a intervenção de Roberto Medeiros, que trouxe luz sobre a toponímia local. Ao contrário do que o nome “Janela do Inferno” possa sugerir, a origem está profundamente ligada à engenharia hidráulica micaelense do século XIX. O antigo vereador municipal, Roberto Medeiros, explicou que o termo “Janelas”, utilizado comumente entre os habitantes de Água de Pau, refere-se aos vãos dos imponentes aquedutos que transportavam água para a antiga Fábrica do Álcool da Lagoa e, mais tarde, para o abastecimento público de Ponta Delgada. O “Inferno” seria uma alusão à imponência das ravinas e à força da natureza no local. “A Vila de Água de Pau é a única no país com quatro fontenários a correr 24 horas por dia há mais de cem anos”, destacou Medeiros, reforçando o valor estratégico e histórico deste património hídrico onde ainda se podem observar espécies como os tritões.

Apesar do valor paisagístico, os parceiros do projeto apontam desafios práticos. Ana Rita Matias, investigadora do projeto, mencionou a importância do trabalho de campo e da proximidade com os lavradores mas notou alguma “desconexão entre o que se pretende e o que se faz”. Já Rita Patarra, do Expolab, destacou que o maior ganho são as relações estabelecidas, embora a escassez de tempo e recursos humanos sejam limitações reais.
Pedro Gouveia, da Kairós, trouxe uma reflexão crítica sobre o impacto real na comunidade. O retorno local relativamente ao Lugar dos Remédios, apesar de próximo do trilho muito visitado, ainda beneficia pouco do investimento público realizado; preservação versus uso: o desafio de usar o recurso sem o degradar (notando que o avistamento de tritões tem diminuído) e a necessidade de combater o “défice de contacto com a natureza” das crianças através de aprendizagem in loco.
O consenso do grupo é que o final deste projeto deve ser, na verdade, um ponto de partida. A meta agora é garantir que o sistema de governança facilite a gestão deste trilho que, antes de ser uma “solução baseada na natureza”, já era parte integrante da identidade e da sobrevivência da população da Lagoa.
O projeto “Translight Houses, Para além do verde: Faróis de soluções transformadoras baseadas na natureza para comunidades inclusivas” trata-se de um projeto de investigação à escala europeia e que, nos Açores, é liderado pela Universidade dos Açores em consórcio com outras entidades locais e com um único local a estudar: os Remédios da Lagoa, mais concretamente, tudo o que inclui e envolve o trilho da Janela do Inferno, localizado naquele lugar lagoense, para onde são atraídos, diariamente, centenas de turistas, em época alta.
Em junho de 2025, Eduardo Marques explicava quais os principais objetivos deste projeto pioneiro nos Açores. “A ideia é perceber como é que um ativo, um recurso importante, a «Rota da Água – Janela do Inferno», pode alavancar um processo de uma relação mais positiva com o trilho de forma a que também que a comunidade pudesse ter benefícios dessa relação com o trilho”, justifica. O responsável acrescenta que se pretende “transformar o trilho numa solução baseada na natureza para um turismo sustentável”. Nós podemos inspirar-nos na natureza e no seu funcionamento para resolver problemas sociais complexos”. E dá exemplos: “como é que se resolve problemas de desemprego, como é que nos podemos inspirar, basear na natureza para resolver problemas de emprego versus desemprego, como podemos melhorar a saúde — temos soluções desde os anos 60 implementadas no Japão que são os parques de terapias da natureza que reduzem o stress, reduzem a tensão arterial — portanto, podemos utilizar a natureza para nos curar, para ser integrada nos sistemas de saúde, podemos integrar a natureza como dimensão da arte e cultura”.

O trilho da Janela do Inferno, no lugar dos Remédios, na Lagoa, será palco da exibição de uma sessão de cinema de cariz ambiental no próximo dia 24 de julho, pelas 19h30.
A iniciativa resulta do projeto “TRANS-Lighthouses – More than green: Lighthouses of transformative nature-based solutions for inclusive communities”, da Universidade dos Açores, em parceria e colaboração com a iniciativa “Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela” e com o projeto “Water is Love”.
Com especial enfoque na água, a sessão integra-se também na iniciativa nacional Ciência Viva no Verão em Rede, que leva a Ciência à rua desde 1996.
A organização salienta que a ação pretende “proporcionar uma noite especial a toda a comunidade académica: uma sessão de cinema na Floresta Encantada.”
O ponto de encontro acontece na Casa da Água, no Lugar dos Remédios, na freguesia de Santa Cruz da Lagoa.
O projeto refere, ainda, em nota enviada ao nosso jornal, que será “uma experiência imersiva, onde natureza e cultura se encontram sob as estrelas, aproximando a ciência do público através da arte, do cinema e da vivência dos espaços naturais, promovendo o debate ambiental e a valorização do território açoriano”.
As vagas são limitadas e a inscrição pode ser realizada através do site da Expolab – Centro de Ciência Viva, do e-mail geral@expolab.pt ou através do telefone 296 960 520.