
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Lembro-me bem da noite de 4 de fevereiro de 2024. Enquanto muitos festejavam resultados, distribuíam lugares e faziam contas ao poder, deixei um aviso que na altura poucos quiseram ouvir.
Disse que a estabilidade dos Açores não podia ficar dependente apenas da soma de deputados. Disse que havia diferenças profundas entre os parceiros daquela solução governativa. E disse que mais cedo ou mais tarde essas divergências acabariam por vir ao de cima.
Na altura, houve quem desvalorizasse o alerta. Houve quem dissesse que o CHEGA estava apenas a fazer oposição. Houve quem acreditasse que bastava assinar acordos e distribuir cargos para garantir quatro anos de estabilidade.
Passaram mais de dois anos. E hoje, infelizmente para os Açores, toda a gente consegue ver aquilo que nós víamos nessa noite. O tempo deu-nos razão.
A crise não está no CHEGA ou na oposição. Nunca esteve.
A crise está dentro do Governo Regional. A crise está dentro da própria coligação. E quanto mais tentam escondê-la, mais evidente ela se torna.
Os açorianos assistem a declarações contraditórias, a sinais de desconfiança entre parceiros, a posicionamentos públicos incompatíveis com uma maioria coesa e a uma crescente sensação de que alguns dirigentes políticos estão mais preocupados com o seu futuro do que com o futuro da Região.
Mas existe um aspeto ainda mais grave.
Ao longo dos últimos anos, os Açores fizeram um esforço para ultrapassar velhos bairrismos e rivalidades artificiais entre ilhas. Com dificuldades, é certo.
Mas sempre com a consciência de que o futuro da Região depende da união das nove ilhas e não da divisão entre elas.
Infelizmente, o Vice-Presidente do Governo decidiu ressuscitar alguns dos piores fantasmas da política açoriana. Os fantasmas do bairrismo. Os fantasmas das ilhas contra ilhas. Os fantasmas daqueles que sempre viveram politicamente da divisão, da intriga e do conflito territorial.
E rapidamente apareceram os suspeitos do costume. Os mesmos que durante décadas alimentaram rivalidades artificiais.
Os mesmos que transformaram a política regional numa permanente disputa entre ilhas. Os mesmos que parecem acreditar que para uma ilha ganhar, outra tem de perder.
Essa nunca foi a nossa visão. Nem nunca será.
Os Açores não avançam divididos. Os Açores não crescem quando se alimentam ressentimentos. Os Açores não resolvem os seus problemas colocando açorianos contra açorianos.
Aquilo a que assistimos não é uma estratégia para os Açores. É uma estratégia de sobrevivência política. Uma estratégia que parece preocupar-se mais com a defesa de interesses localizados do que com os interesses da Região.
Mas quem exerce funções governativas não representa apenas uma ilha. Representa nove ilhas. Representa todos os açorianos. E tem a obrigação de governar para todos.
É precisamente por isso que esta situação não pode continuar a ser ignorada. Porque os Açores têm desafios demasiado importantes pela frente.
Temos a SATA. Temos o futuro do Hospital do Divino Espírito Santo.
Temos a preparação e execução dos próximos quadros comunitários europeus. Temos problemas graves na habitação. Temos dificuldades persistentes na saúde. Temos jovens que continuam a abandonar a Região por falta de oportunidades. Temos uma economia que precisa de mais crescimento, mais investimento e mais competitividade.
Nada disto se resolve com guerras internas. Nada disto se resolve com recados políticos. Nada disto se resolve com um Governo dividido. E é exatamente isso que temos hoje.
Uma paz podre. Uma paz podre onde todos fingem que está tudo bem. Uma paz podre onde ninguém quer assumir aquilo que já é evidente. Uma paz podre onde se tenta ganhar tempo enquanto a confiança desaparece e a instabilidade aumenta.
Quero deixar uma coisa muito clara. O CHEGA não quer eleições antecipadas. E aquilo que sentimos todos os dias na rua é que os açorianos também não as querem.
As pessoas estão cansadas de jogos políticos. As pessoas querem estabilidade. Mas estabilidade verdadeira.
Não estabilidade para proteger lugares. Não estabilidade para manter cargos. Não estabilidade para preservar interesses partidários.
Os açorianos querem estabilidade para governar. Querem estabilidade para decidir. Querem estabilidade para enfrentar os desafios que temos pela frente.
Foi precisamente por isso que o CHEGA foi o primeiro partido a exigir uma clarificação política. Foi o CHEGA o primeiro a dizer que os açorianos tinham direito a saber se esta maioria continua ou não unida. Foi o CHEGA o primeiro a defender uma Moção de Confiança.
Enquanto outros faziam cálculos eleitorais. Enquanto outros avaliavam sondagens. Enquanto outros se preocupavam em não perder os seus lugares dourados.
O CHEGA preocupou-se com aquilo que realmente interessa: a estabilidade da Região.
Porque quem acredita na sua maioria não tem medo de a confirmar. Quem acredita no seu Governo não tem medo da transparência. Quem acredita no seu projeto político não foge aos esclarecimentos.
Ao longo desta legislatura, o CHEGA demonstrou que sabe ser firme quando é necessário e responsável quando os interesses dos Açores estão em causa.
Fomos decisivos na defesa dos pensionistas mais pobres da Região. Fomos persistentes na denúncia dos problemas da saúde, dos transportes e da gestão pública. Fomos exigentes quando foi preciso.
E fomos responsáveis quando a estabilidade da Região esteve em causa. Continuaremos a sê-lo.
Porque aquilo que está em causa não é o futuro de um partido. É o futuro dos Açores.
E os Açores merecem mais do que uma coligação preocupada em sobreviver.
Merecem um Governo preocupado em governar. Merecem transparência. Merecem estabilidade. Merecem verdade.
Na noite de 4 de fevereiro de 2024 avisámos que os maiores riscos para a estabilidade da Região estavam dentro da própria solução governativa.
Dois anos depois, os factos falam por si. O tempo deu-nos razão.
Mas não retiramos qualquer satisfação disso.
Porque quando uma previsão política se confirma à custa da instabilidade governativa, quem perde não são os partidos. Quem perde são os Açores.
E os Açores já perderam demasiado tempo em pequenas guerras e lutas de egos inchados.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
A notícia de que São Miguel já representa 60,8% do PIB dos Açores não me espanta. O que me espanta é a rapidez com que alguns transformam o crescimento de uma ilha num problema político, quase como se produzir mais riqueza fosse um pecado a expiar.
Entre 2021 e 2023, São Miguel passou de 59% para 60,8% do PIB regional, com o seu produto a subir de 2.581,6 milhões para 3.271 milhões de euros. No mesmo período, o PIB total da Região passou de 4.374,6 milhões para 5.374 milhões.
Isto tem uma leitura séria: São Miguel cresceu e os Açores cresceram. O que não aceito é que se queira fazer de São Miguel a culpada do seu próprio esforço.
Eu repudio o bairrismo. Sempre repudiei. Não embarco nessa política rasteira de meter ilhas umas contra as outras, como se o problema dos Açores fosse São Miguel ter empresas, iniciativa, capacidade económica e gente que trabalha. São Miguel não pode ser castigada por crescer. Era o cúmulo da estupidez política: punir quem puxa, só para disfarçar a incapacidade de fazer os outros crescer também. Isso não é justiça. Isso é nivelar por baixo. E nivelar por baixo nunca salvou nenhuma terra.
Mas convém não fugir ao essencial. Defender São Miguel não é fechar os olhos aos desequilíbrios da Região. São coisas diferentes. Uma coisa é dizer, com frontalidade, que São Miguel não tem de pedir desculpa pelo seu dinamismo. Outra é exigir ao poder político que governe os Açores como um arquipélago de nove ilhas e não como um mapa onde basta gerir a maior e ir entretendo as outras com discursos de circunstância.
Tenho defendido exatamente isso: a verdadeira coesão territorial não se faz em guerrilhas de ilha para ilha, faz-se olhando para a totalidade do arquipélago, povo a povo, freguesia a freguesia. E tenho também insistido que a coesão económica, social e territorial não pode continuar a ser apenas uma frase bonita para constar em intervenções oficiais; tem de se traduzir em investimento estratégico, acessibilidades, oportunidades e equilíbrio real. O CHEGA Açores tem ligado essa coesão à necessidade de melhorar acessibilidades em todas as ilhas, com um pacote que estimou em 26,3 milhões de euros.
É aqui que muita gente se engana, ou finge enganar-se. Os números não mostram que São Miguel esteja a “tirar” riqueza às outras ilhas. Mostram, sim, que São Miguel cresceu mais. A Terceira, por exemplo, desceu em peso relativo de 21,46% para 20,31%, mas subiu em valor absoluto de 938,7 milhões para 1.091,3 milhões de euros. O Faial passou de 276,2 milhões para 323 milhões, apesar de ter perdido algum peso percentual. Portanto, a questão séria não é travar São Miguel. A questão séria é perceber porque falham as políticas que deviam estar a criar condições para que outras ilhas acompanhassem esse crescimento com mais força.
E é aqui que eu não alivio o Governo Regional. Porque o mais fácil é deixar correr, olhar para São Miguel a crescer e vender isso como se fosse prova automática de sucesso regional. Não é. Uma Região não está equilibrada só porque a sua maior ilha está forte. Uma Região está equilibrada quando a sua força principal serve de motor ao conjunto, e quando o poder político usa essa força para corrigir fragilidades, não para aprofundar dependências.
O que eu recuso é este truque barato: sempre que se fala de coesão, aparecem logo os especialistas do ressentimento a insinuar que São Miguel tem demais. Não. O problema não é São Miguel ter demais. O problema é haver ilhas que continuam a ter de menos. E isso não se resolve tirando músculo a quem o tem. Resolve-se criando músculo onde ele falta. A política séria faz crescer. A política medíocre redistribui desculpas.
São Miguel tem peso. Muito bem. Então use-se esse peso com responsabilidade regional. Não para a enfraquecer, não para a penalizar, não para a transformar em bode expiatório de décadas de falhanços estratégicos. Use-se esse peso para alavancar os Açores como um todo. Porque uma São Miguel forte numa Região fraca é um sucesso pela metade. E um arquipélago onde se castiga quem cresce é um arquipélago que desiste de si próprio.
A minha posição é simples e não tem truque nenhum: não aceito o discurso anti-São Miguel e não aceito o comodismo de quem usa São Miguel para esconder o desequilíbrio regional. Quero São Miguel a crescer mais, sem complexos e sem pedir licença. Mas quero também Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa, Santa Maria, Flores e Corvo com condições reais para crescerem com ambição. Isso é que é coesão. Isso é que é governar. O resto é conversa para dividir os Açores e desculpar quem nunca os soube unir.
No fim do dia, o ponto é este: crescer não é crime. Crime político é querer que São Miguel pague a fatura do seu próprio sucesso, em vez de obrigar quem governa a fazer o que devia ter feito há muito — criar condições para que o progresso de uma ilha ajude a levantar todas as outras.

Paula Catarina Andrade
Assistente Social
Cédula Profissional n.º 01018
Exmo. Sr. Deputado José Pacheco,
Na qualidade de Assistente Social, com mais de 25 anos de exercício profissional, sinto-me na obrigação de reagir às suas recentes declarações sobre o papel dos Assistentes Sociais nas escolas.
A afirmação de que “é um erro disfarçado de solução” é, convenhamos, digna de registo: revela um desconhecimento absoluto da profissão e, ouso dizer, do mundo real. Os Assistentes Sociais são, de facto, parte da solução para problemas que, talvez por distração, passam despercebidos à vista de alguns críticos de ocasião. Recordo que estamos a falar de uma profissão centenária em Portugal, com um percurso consolidado, regulamentado e reconhecido na proteção social e na defesa dos direitos das pessoas.
Permita-me começar por um ponto simples, mas elucidativo: a ideia de que poderíamos estar “com receio de perder o emprego”. Se algum dia o trabalho do Assistente Social deixasse de ser necessário, isso significaria que a pobreza, as desigualdades, a violência, a falta de habitação, as dependências, o abandono e a exclusão social deixariam de existir. Nesse dia, não haverá motivo para preocupação profissional; haveria, sim, uma conquista civilizacional extraordinária. Infelizmente, estamos ainda muito longe desse cenário na nossa Região.
A sua declaração evidencia uma compreensão limitada e um desconhecimento completo da nossa intervenção. Atuamos sobretudo na prevenção, capacitação e garantia de direitos fundamentais, e não apenas na remediação de problemas, como se o mundo fosse tão simples quanto um tweet de 280 caracteres. Trabalhamos para evitar ruturas, antecipar riscos e promover trajetórias de vida dignas e equilibradas, missão que não cabe em slogans populistas.
É importante esclarecer: qualquer pessoa, em qualquer momento da sua vida, inclusive V. Exa., pode necessitar da intervenção de um Assistente Social. Esta não é uma profissão “para os outros”; é uma profissão ao serviço de todos. Estamos presentes em escolas, hospitais, empresas, autarquias, tribunais, instituições sociais e no setor privado, garantindo respostas integradas e eficazes. Intervimos em áreas como educação, habitação, saúde, emprego, proteção social e reintegração, sempre com foco na dignidade humana e na justiça social.
No contexto educativo, a nossa intervenção é estratégica e estrutural. Numa Região com níveis preocupantes de abandono escolar precoce e insucesso educativo, as equipas multidisciplinares, compostas por psicólogos, assistentes sociais, professores e a comunidade educativa, são essenciais para compreender contextos familiares, sinalizar riscos, prevenir negligência ou abuso e criar condições para o sucesso escolar. Este trabalho conjunto não é acessório; é vital.
Ainda assim, os Assistentes Sociais nunca foram uma aposta consistente das políticas públicas regionais no setor da Educação ao longo de 50 anos de Autonomia Regional. A presença nas escolas tem sido residual. Trata-se de um erro estratégico, se se quiser usar linguagem técnica, ou de uma negligência, se se optar por linguagem quotidiana.
Também não podemos ignorar o impacto concreto de políticas sociais como o Rendimento Social de Inserção (RSI). Esta medida foi e continua a ser um verdadeiro elevador social: permite a jovens prosseguir estudos, completar formação superior e a famílias estabilizar a vida doméstica. Para quem insiste em olhar apenas para números frios, recordo que, em 2026, o RSI representa aproximadamente 0,4 % da despesa total do Orçamento do Estado, uma fração muito reduzida face ao total da despesa pública, mas com um retorno social gigantesco. Poucas políticas públicas conseguem impactar de forma tão direta e transformadora. Ignorar isto seria, portanto, não apenas um erro político e social, mas também um exercício de flagrante insensibilidade estatística.
Preocupa-me, igualmente, o discurso que desvaloriza o conhecimento, simplifica problemas complexos e, em alguns casos, alimenta narrativas que promovem a divisão, o ressentimento e a estigmatização dos mais vulneráveis. A nossa Região tem um ativo extraordinário: as suas pessoas, açorianos e açorianas que todos os dias acreditam que a política serve para resolver problemas reais, e não para gerar manchetes provocatórias.
Outro ativo incontornável é a Universidade dos Açores, que há mais de 25 anos forma Assistentes Sociais com elevado rigor científico e técnico, fortalecendo o setor social e contribuindo decisivamente para a construção de respostas robustas. Desvalorizar o Assistente Social é também desvalorizar o percurso coletivo da academia no desenvolvimento regional.
A desinformação contida nas suas declarações, quando amplificada publicamente, tem consequências reais. Reforça estigmas, preconceitos e fragiliza respostas que deveriam ser fortalecidas. Se existe uma preocupação genuína com desigualdades e injustiças sociais, o debate deve ser conduzido com responsabilidade, evidência e respeito por quem intervém no terreno e não com slogans dignos de coluna de opinião de café.
O exercício profissional do Assistente Social rege-se por um Código Deontológico exigente, assente na dignidade humana, justiça social, equidade e defesa intransigente dos direitos. A nossa intervenção não se orienta por agendas políticas nem por narrativas simplistas; é técnica, fundamentada, eticamente comprometida e centrada nas pessoas.
Não tememos o escrutínio, ele faz parte da nossa prática profissional. O que não podemos tolerar é a desinformação que descredibiliza uma profissão cuja missão é garantir que ninguém fica para trás.
O essencial é o seguinte: antes de opinar, importa conhecer. Quando falamos de pessoas, desigualdades e direitos, a responsabilidade não diminui; ela aumenta.
Em jeito de sugestão, antes de se aventurar em novos diagnósticos sobre profissões centenárias, sugiro que se dedique a conhecer o terreno, ouvir quem intervém e compreender os desafios reais, e não apenas a lançar declarações provocatórias.
Com consideração institucional,

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Há um problema nos Açores de que pouco se fala com frontalidade, mas que continua a condicionar decisões, atrasar o desenvolvimento e dividir aquilo que devia estar unido: o bairrismo entre ilhas.
Não falo de identidade local, essa é saudável, faz parte de quem somos e deve ser preservada. Falo, sim, de um bairrismo doentio, pequeno e muitas vezes alimentado por discursos fáceis, que transformam a realidade numa competição permanente entre ilhas. Agravado quando alguns personagens estão em lugares de decisão ou influencia.
E há uma frase que resume bem esse problema: “vai tudo para São Miguel”.
Repete-se como um mantra. Mas raramente é acompanhada de factos, dados ou análise séria. É uma frase que nasce mais da perceção do que da realidade, e, pior ainda, serve muitas vezes para justificar erros, ineficiências e falta de estratégia.
O desenvolvimento dos Açores não pode ser feito à base de slogans. Nem pode ser construído numa lógia de “tirar a uns para dar a outros”. Isso não é coesão. Isso é criar desequilíbrios.
Mas também é um erro, e convém dizê-lo sem medo, penalizar as zonas onde existe maior concentração populacional, maior atividade económica e, naturalmente, maiores necessidades. Escolas, hospitais, habitação, segurança, infraestruturas: tudo isso cresce onde há mais gente. Ignorar isto não é justiça. É negar a realidade.
Durante anos criou-se a ideia de que equidade significa replicar tudo em todo o lado, independentemente da escala, da procura ou da viabilidade. Essa visão não só é errada, como está a custar caro à Região.
Equidade não é igualdade cega. Equidade é garantir que todos têm acesso ao essencial, saúde, educação, mobilidade, dignidade, ajustando as respostas às realidades concretas de cada ilha.
E aqui começa o verdadeiro problema: exigir tudo, em todo o lado, sem assumir responsabilidades.
Não podemos exigir transportes marítimos regulares e eficientes e depois não ter capacidade de planeamento básico, como a criação de reservas quando sabemos que existem falhas.
Não podemos exigir ligações aéreas diretas para o exterior em quase todas as ilhas e, ao mesmo tempo, ignorar que muitas dessas rotas operam com baixa ocupação e prejuízos elevados. Obrigar companhias a manter rotas inviáveis não é desenvolvimento, é acumular problemas que alguém, mais cedo ou mais tarde, vai pagar. E, no fim, pagamos todos.
Curiosamente, muitos dos que mais falam em “centralismo” são, na prática, os mais centralistas de todos, não no sentido geográfico, mas no sentido mental. Defendem apenas o seu território, o seu interesse imediato, a sua ilha. Raramente os vemos com uma visão global dos Açores. Raramente os vemos defender o todo.
E é precisamente essa falta de visão conjunta que nos está a bloquear.
A realidade é simples: governar os Açores é, em muitos aspetos, como gerir uma família com recursos limitados.
Imaginemos uma família com rendimentos modestos e vários filhos. Todos querem o melhor, e é legítimo que queiram. Mas o orçamento não permite dar tudo a todos, da mesma forma, ao mesmo tempo.
Se a decisão for feita apenas com base em quem grita mais alto, a consequência é previsível: endividamento, desequilíbrio e, no limite, colapso.
Gerir bem implica fazer escolhas. Implica definir prioridades. Implica, muitas vezes, dizer “não” no curto prazo para garantir sustentabilidade no futuro.
E isso exige maturidade social e política.
Os Açores precisam dessa maturidade. Precisam de deixar para trás discursos fáceis e assumir uma visão estratégica, equilibrada e realista.
Enquanto continuarmos presos a este bairrismo pequeno, vamos continuar a desperdiçar recursos, a alimentar conflitos artificiais e a travar o desenvolvimento da Região.
A verdade é simples: ou pensamos os Açores como um todo, ou vamos continuar a perder todos, ilha por ilha.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Mesmo não sendo economista e com a informação que hoje abunda, fico demasiado preocupado com as contas da nossa Região.
E digo-o de forma direta, como costumo falar: isto não é conversa de técnicos, nem um tema para ficar fechado em gabinetes. Isto diz respeito à vida real dos Açorianos. E aquilo que os números mostram é preocupante, muito preocupante.
Durante anos, o Tribunal de Contas tem vindo a avisar. Não foi uma vez, não foi duas. Foram anos seguidos a dizer a mesma coisa: há problemas nas contas, há falta de controlo, há dívida a mais e transparência a menos.
E quando uma entidade destas repete o mesmo alerta durante uma década, há duas hipóteses: ou ninguém ouviu… ou não quiseram ouvir.
Os números não enganam. Em 2024, tivemos um défice de cerca de 247 milhões de euros. Em 2025, voltamos a ter um défice perto dos 200 milhões. Isto não é um acidente, é um padrão.
Ao mesmo tempo, a dívida já anda perto dos 3,4 mil milhões de euros, cerca de 60% da nossa economia. E mais grave ainda: já ultrapassámos os limites legais de endividamento em mais de mil milhões de euros.
Isto tem de ser dito como é:
Estamos a gastar mais do que aquilo que temos.
E estamos a fazer isso há anos.
Depois há outro problema que me preocupa ainda mais: a falta de clareza nas contas. O próprio Tribunal de Contas diz que as contas são aprovadas com reservas. Isto quer dizer, em linguagem simples, que passam… mas não estão bem.
E se nem as contas são claras, como é que alguém pode garantir aos Açorianos que tudo está controlado?
A isto junta-se uma dependência enorme de dinheiro que vem de fora , do Estado e da Europa. Atenção: esse dinheiro é importante, claro que é. Mas não podemos viver permanentemente agarrados a isso, como se fosse solução para tudo. Porque não é.
E depois temos as empresas públicas. Sempre que há prejuízos, quem paga? Somos todos nós. Sempre que há decisões erradas, a conta vai parar à dívida da Região. E ninguém assume responsabilidades.
O mais frustrante no meio disto tudo é que os problemas são conhecidos. O Tribunal de Contas tem recomendado, ano após ano, exatamente o que é preciso fazer: mais rigor, mais controlo, menos dívida, mais transparência.
Mas a pergunta é simples: O que mudou realmente? Muito pouco.
E enquanto nada muda, a Região continua a andar na corda bamba. Pode não cair hoje. Pode não cair amanhã. Mas está cada vez mais perto do limite.
E há uma coisa que temos de perceber de uma vez por todas: não há autonomia a sério sem contas certas. Podemos falar de autonomia política o que quisermos, mas se dependemos sempre de dinheiro de fora e se estamos afogados em dívida, essa autonomia é cada vez mais frágil. Isto não é ser alarmista. É ser responsável.
Os Açores precisam de mudar de rumo. Precisam de mais verdade nas contas, mais rigor na gestão e mais coragem para tomar decisões difíceis. Porque continuar assim é fingir que está tudo bem quando não está.
E a verdade é esta, sem rodeios: os Açores estão a viver no limite.
E quem anda no limite durante muito tempo, mais cedo ou mais tarde paga a fatura.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Portugal voltou a descer no Índice de Perceção da Corrupção divulgado pela Transparency International. Ficámos com 56 pontos em 100 e na metade inferior da União Europeia.
Não é conversa de café. Não é “sensação”. É um indicador internacional que mede como o mundo vê a integridade das nossas instituições.
E quando o mundo nos vê a descer, isso tem consequências.
Durante anos habituámo-nos a ouvir que “não somos dos piores”. Mas essa é uma ambição pequena para um país que quer ser respeitado. O problema não é apenas a existência de casos de corrupção. O problema é a cultura de impunidade, a lentidão da justiça, a falta de consequências políticas imediatas e a normalização de práticas pouco transparentes.
Agora pergunto: os Açores estão fora desta realidade? Claro que não.
Somos uma Região onde o peso do setor público é enorme na economia. Dependemos fortemente de fundos europeus, de apoios regionais, de contratos públicos, de decisões administrativas que impactam diretamente empresas e famílias. Num contexto destes, a exigência de transparência devia ser ainda maior do que a média nacional.
E, no entanto, quantas vezes vemos concursos pouco claros? Quantas vezes assistimos a nomeações para cargos estratégicos sem critério técnico evidente? Quantas vezes se levantam dúvidas sobre empresas públicas regionais sem que haja esclarecimentos rápidos e objetivos?
Não se trata de acusar indiscriminadamente. Trata-se de reconhecer que a opacidade corrói a confiança.
O CHEGA Açores tem sido firme nesta matéria. Temos defendido transparência total nos contratos públicos, auditorias independentes às empresas públicas, maior fiscalização parlamentar e responsabilização política efetiva quando surgem falhas graves.
Num território pequeno como o nosso, a confiança é um ativo essencial. Aqui todos se conhecem. A proximidade pode ser uma força, mas também pode ser um risco se não houver regras claras e fiscalização séria.
Quando Portugal desce nos rankings internacionais, isso afeta a imagem do país e, inevitavelmente, da Região. Investidores olham para estes indicadores. Parceiros europeus também. A credibilidade constrói-se com rigor institucional, não com discursos.
Cada euro mal aplicado pesa mais numa economia insular. Cada decisão mal explicada gera mais ruído. Cada suspeita não esclarecida amplia-se rapidamente.
Por isso, os Açores não podem limitar-se a dizer que “aqui não é assim”. Têm de provar que fazem melhor.
Mais transparência. Mais prestação de contas. Mais exigência ética. Menos compadrio. Menos opacidade.
A luta contra a corrupção não é uma bandeira partidária. É uma condição para o desenvolvimento sustentável da Região. Sem confiança não há investimento. Sem confiança não há crescimento. Sem confiança não há futuro.
Portugal recebeu um aviso. Os Açores não podem ignorá-lo.
A questão é simples: queremos continuar a descer com o país, ou queremos afirmar-nos como exemplo de rigor dentro dele? A escolha é nossa.

Nasceu na freguesia de São Roque, em Ponta Delgada, em 1971, naquela que considera ter sido a “pior época do Estado Novo”. Foi na freguesia onde cresceu que ganhou o gosto pelas romarias, pela música e pelo Espírito Santo, e entre as histórias que nos conta confessa que: “tenho muitas histórias que tropeço nelas, pois grande parte da minha vida não a planeei”.
A entrada que considera “mais a sério” no mundo da política aconteceu a meias com o seu amigo Paulo Gusmão devido à admiração pelo antigo líder do CDS-PP, Manuel Monteiro. Mas é em 2005 que José Pacheco se muda para a Ribeira Chã, na Lagoa, e inicia um projeto pessoal enquanto designer gráfico. Depois do CDS-PP, passou pelo PPM e mais tarde esteve no PSD/Lagoa como independente e é quando estava de saída do partido com o qual diz não se identificar que recebe o telefonema de Diogo Amorim Pacheco do Chega.
DL: Como reagiu quando descobriu que iria ser deputado pelo Chega?
Eu nunca quis ser deputado na vida, mas eu preparei-me durante meses e acreditava. Já o Carlos Furtado não acreditava. E eu até disse a ele que íamos eleger em São Miguel, na compensação e se corresse bem até podíamos eleger na ilha Terceira. Eu acreditava nisso. Mas na Terceira também nos correu mal e só mesmo perto das eleições percebemos onde estávamos metidos. Mas a vida é assim mesmo.
DL: Que balanço faz do primeiro mandato?
Foi bom, eu preparei-me. Aprendi desde muito novo que um dos maiores perigos da política é o deslumbramento. Estou sempre a dizer isso aos meus colegas. O pior não é errar ou dizer uma asneira, é deslumbrar-se. Há que ser sempre muito humilde. E peço a Deus, todos os dias, para que me dê essa força. Eu gosto tanto da minha terra que eu podia ser deputado nacional e eu não quis. Tive muitas oportunidades na minha vida de sair daqui.
DL: Acredita que é possível o Chega alcançar o poder?
Eu acho que tudo é possível. Não nos podemos pôr em bicos de pés, mas se amanhã me baterem à porta a dizer que vou ser presidente do Governo regional, então, sim senhor. Eu nunca virei as costas a um desafio. Mas se me perguntarem se quero ser presidente do Governo? Não. Também nunca quis ser deputado. Mas se me disserem que é esta a minha missão, então pronto. A política é madrasta e muito má para as pessoas, por isso encaro a política com muito humor, com muito jogo de cintura.
DL: De que forma, enquanto deputado e lagoense, pode contribuir para a Lagoa?
É possível na medida em que tenho até contribuído. Não faço grande bandeira disso até por uma questão de alguma reserva. Se eu começar a falar demasiado das coisas que vou puxando para a Lagoa, a certa altura vão dizer que vou puxar para mim próprio, mas não. Há uma história sobre as luzes do Pisão. Isso levou-me dias a decidir se eu punha ou não no compromisso com o Governo anterior. Foi das poucas coisas que eles cumpriram. Eu achava que aquilo estava devasso e que precisava de iluminação, porque não tinha e era uma coisa simples e barata de se fazer. E já está.
Há mais coisas que tenho visto mas prefiro sempre não falar nisso porque sou deputado dos Açores. Não puxo para minha ilha nem para a minha freguesia, nada. Agora quando eu ando por cima dos problemas doi-me a alma e vou fazendo isso mais discretamente. Sou lagoense sou, adoptado, mas não quero que pensem que sou o deputado da Lagoa, pois sou deputado dos Açores. Foi sempre esse espírito que eu tive e, aliás, eu disse aos meus colegas que aqui no nosso grupo parlamentar não há deputados das Flores, nem da Terceira nem de São Miguel, aqui há deputados dos Açores. Mas, sejamos honestos intelectualmente, se nós estamos a ver as coisas com mais frequência porque moramos e passamos nos sítios é natural que nos chame mais atenção. Por exemplo, no outro dia chamaram-me atenção para o estado de uma estrada em que outrora passava muito mas atualmente não. Que é aquela que liga a Vila Franca do Campo à Achada das Furnas. Ligaram-me duas ou três pessoas sobre isso e têm razão. No dia a seguir tive uma reunião com José Manuel Bolieiro e disse-lhe que já tinha ido ver a tal estrada e realmente tem que se fazer alguma coisa. Eu acho que é assim que se deve estar na política.
DL: O que é que falta à Lagoa?
A Lagoa tem um problema grave. O empresário Norberto Ponte uma vez disse uma coisa muito engraçada que eu fixei. A Lagoa precisava de ter uma Torre Eiffel. Ou seja, a Lagoa não tem nada icónico. Quase todos os concelhos têm algo, mas a Lagoa não tem. É muito dormitório, na periferia de Ponta Delgada. Sempre teve boa restauração, mas não se pode criar artificialmente coisas icónicas. Caiu-se muito no ridículo, por exemplo, com festivais como o “Lagoa Com Vida” que era copiar o que os outros fazem e fazer concorrência, deu prejuízo.
Por exemplo, o Império de São Pedro eu já disse à presidente da Câmara Municipal que no meu entender, e mesmo o de Ponta Delgada, que nunca devia ser a autarquia a organizar. Teria que existir uma comissão independente. É uma concorrência desleal aos outros impérios que fazem como podem. É desleal e desvirtua. O poder político nunca deve estar na Igreja nem a Igreja deve estar no poder político. Isso desvirtua o que é o Espírito Santo.
DL: Considera a Fábrica do Álcool icónica?
Eu não acho. Tenho todo o respeito pelo património e penso que se pudermos fazer algo de positivo, sim, mas não vamos fazer daquilo a Torre Eiffel porque nunca vai ser. Acho que se vai enterrar ali milhões e vai-se fazer experimentalismos. Nunca se esqueçam do Parque Tecnológico do qual se falava que ia ser mas neste momento já não é.
DL: Como encara o crescimento do Tecnoparque na Lagoa?
Acho que devíamos esquecer a parte da tecnologia, que até pode lá estar, e transformavamos aquilo num parque multiusos com algum ordenamento paisagístico. Penso que se prenderam muito a um conceito que nunca funcionou nem vai funcionar. Está lá o Nonagon mas quem lá vai percebe que aquilo é nada.
DL: E a freguesia onde reside, a Ribeira Chã?
A Ribeira Chã tem sofrido um desinvestimento há dezenas de anos. Até fui lá candidato e na altura já explicava isso aos miúdos que tocavam música comigo. Se nós não criarmos habitação vocês vão desaparecer todos daqui. E eles desapareceram todos de lá. É normal pois temos que criar âncoras. Eu tive projetos para aquela zona. Um deles era criar um parque de campismo. Não quer dizer que é a solução, é uma das soluções. Ali tínhamos o espaço certo, temos miradouros e praias. É das coisas mais fáceis de fazer porque há lá muito espaço. Eu acho que também há uma falta de vontade. Temos uma vereadora que mora na Ribeira Chã, ela não vê o que falta? Ninguém se preocupa com nada, a Ribeira Chã está completamente esquecida.
Aquela visão que o padre Flores teve de fazer de um pequeno lugar, um Centro Cultural Urbano, essa visão ninguém a percebeu e deixaram morrer.
Há uma que vou guardar para a minha vida que foi o esforço pessoal que eu tive para criar os Filhos da Terra e que é a única coisa que vou agradecer à Cristina Calisto que foi ter-nos arranjado um espaço que estava abandonado e fechado por capricho. De resto eu dizia tantas vezes que não queríamos dinheiro, queríamos era tocar.
DL: Como encara o facto de Cristina Calisto suspender o mandato de deputada?
Eu acho que isso não se deve fazer, isso é enganar as pessoas. Não foi só ela, houve uma data de autarcas e isto é do pior que a política tem. Por isso é que as pessoas não acreditam na política. Então eu digo que agora eu vou ser deputado, vou defender vocês todos. No dia a seguir, sou eleito e digo que estava a brincar e que afinal vou para a câmara porque afinal não vou para o governo? Nunca tive nada contra a Cristina Calisto, até fico com pena. Mas acho que o PS está há demasiado tempo na Lagoa e eu gosto muito da mudança.
DL: Nas legislativas nacionais o Chega aparece como terceira força política na Lagoa. Como vê isso?
Isso vale o que vale, porque já ando nisto há algum tempo e sei que as coisas às vezes não são assim tão lineares. Agora traz-nos grande responsabilidade. Eu acho que temos uma autarquia extremamente fraca e que não faz ideia para onde caminha ou o que está a fazer e o que quer para o futuro. Gere o dia a dia como um cata vento e isto é preciso dizer às pessoas. Como é que se conseguem perpetuar no poder? Comprando os votos. São as latas de tinta, são as obras em casa, são as festaloras. Isso não enche a barriga a ninguém e muito menos garante o futuro aos nossos filhos. Esses senhores quando saírem vão deixar zero na Lagoa.
DL: A nível regional, como é que encara este novo ciclo político? Vai chegar ao fim do mandato?
Pode chegar, mas não depende de mim, depende deles. E eles sabem disso e essa conversa já tivemos. Neste momento, se me perguntarem “as coisas estão a correr bem?”, “estão excelentes, não estão bem, estão ótimas”. Tem havido um diálogo constante, não só com o presidente do governo. Eu acho que eles aprenderam alguma coisa. Penso que eles também tinham um problema (ou dois) complicado chamado CDS-PP. O Artur Lima e Paulo Estêvão entalaram isso tudo. Eu e o Paulo Estêvão andamos mais brigados, mas um dia destes fazemos as pazes. Eu sou amigo do Paulo há muitos anos mesmo. Já nos conhecemos há muitos anos. Não podemos casar uns com os outros, temos é que nos respeitar.