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Projeto Terras do Chá dá nova vida à antiga escola da Lombinha da Maia

Edifício do Estado Novo foi transformado numa incubadora cultural. Os visitantes são levados numa viagem no tempo até aos anos 50, 60 ou 70 do século XX. O dia a dia do comum açoriano é visível em todas as salas

Locais e turistas vão descobrindo a Incubadora Cultural Terras do Chá © ACÁCIO MATEUS

A fachada não engana. A antiga escola primária da Lombinha da Maia foi construída durante o período ditatorial do Estado Novo (1941-1969) e o primeiro sinal da divisão entre rapazes e raparigas salta à vista mal se entra no edifício do Plano dos Centenários: duas portas lado a lado que encaminhavam os alunos para salas diferentes. Os rapazes entravam por uma e as raparigas por outra, sem se misturarem.

No presente, as portas lá permanecem, mas a segregação deu lugar a um espaço de partilha, de conhecimento e de lazer. A escola da Lombinha da Maia foi reabilitada para nela ser instalado o projeto Terras do Chá, uma incubadora cultural que também é um museu pois, no primeiro andar, existe muito para ver e descobrir.

Acomodada num edifício do Plano dos Centenários, a incubadora cultural Terras de Chá é titulada pela Casa do Povo da Maia, conta com curadoria do Museu Carlos Machado e o apoio da Fábrica de Chá da Gorreana. A transformação realizada permitiu unir tradição, cultura e inovação num único espaço.
Ao entrar no edifício, à direita, uma imagem forte: a fotografia de um casal nas lides de casa, mormente na cozinha. A pobreza não passa despercebida aos olhares, registada na altura por Laudalino da Ponte Pacheco, fotógrafo que marca presença constante ao longo do edifício através de outras fotografias que fazem os visitantes recuar no tempo.

A partir daí entra-se num mundo de descobertas. No rés-do-chão foi recriada a antiga mercearia açoriana, com móveis de madeira e produtos a granel. Aqui também é possível degustar produtos regionais como o chá, queijadas de queijo de cabra, de abóbora ou batata-doce, mel ou pimenta da terra, receitas ancestrais que transportam os visitantes através do palato.

Mas não só de doces se faz o sucesso da incubadora. Desde o frango assado aos bifinhos de porco à regional, passando pelo bacalhau frito aos chicharros com molho de vilão, qualquer pessoa pode encomendar refeições para take-away. Assim se faz a nova vida da antiga escola da Lombinha da Maia.

Primeiro andar com história

A subida ao primeiro é ladeada por fragmentos da história. Os alguidares de barro, as peneiras, os boiões de salgar carne, as vassouras de milho e até a réplica de um cafuão fazem os visitantes recuar até aos 50, 60 ou 70 do século XX, quando a matança do porco era uma festa de família, quando se secavam chicharros-caneco dentro de casa pendurados em canas ou vimes. Quando os jornais serviam de papel de parede. Quando um saco de plástico substituía o vidro nas portas. Quando os chãos eram de terra batida. Quando até as casas mais pobres eram feitas de palha.

Trata-se do Espaço de Memória com Cinema porque também é possível assistir a um vídeo com cerca de vinte minutos que mostra a azáfama coletiva da matança do porco. Tudo isto alicerçado no Laboratório de Salvaguarda da Gastronomia Tradicional que estuda as receitas açorianas e garante que a culinária tradicional seja perpetuada pelas gerações vindouras.
É também no primeiro andar que se encontra uma exposição de fotografia de Laudalino da Ponte

Pacheco, fotógrafo da Maia que registou o quotidiano da freguesia durante cerca de quarenta anos em mais de 150 mil imagens.

Depois da segregação durante o Estado Novo, a visita termina numa mesa comunitária que convida à degustação dos sabores da terra, ao convívio e à troca de impressões. É também local de partilha entre locais e muitos turistas que, devagarinho, vão descobrindo a Incubadora Cultural Terras do Chá.