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Maia quer “dar vida” ao campo professor Aurélio do Couto Botelho

© ACÁCIO MATEUS

A Junta de Freguesia da Maia, no concelho da Ribeira Grande, e o Clube Desportivo Santa Clara assinaram, recentemente, um protocolo de cooperação através do qual é cedido o campo professor Aurélio do Couto Botelho para a prática de futebol dos escalões de formação por parte do clube de Ponta Delgada.

Na sequência da assinatura do protocolo, ao Diário da Lagoa chegaram algumas denúncias relativamente aos moldes do mesmo, principalmente no que diz respeito à legalidade e contrapartidas financeiras. O nosso jornal entrou em contato com o presidente da junta de freguesia, Hélder Tavares, para esclarecer as dúvidas.

Hélder Tavares esclareceu que a cedência do campo professor Aurélio do Couto Botelho ao Clube Desportivo Santa Clara é “gratuita”, pelo que “não existe nenhuma contrapartida financeira”, acrescentando que o contrato tem uma “duração de doze meses, renovável por igual período”.

Relativamente à legalidade do contrato, o presidente da junta de freguesia deixou claro que “o campo de jogos é propriedade da junta de freguesia que mantém um espírito de cooperação, diálogo e boa-fé com entidades públicas e privadas”, vincando ainda que o documento foi “aprovado por unanimidade na Assembleia de Freguesia”.

O autarca acrescentou que o acordo firmado entre as partes foi “tratado após as eleições autárquicas” de outubro passado, confirmando a não existência de “conversações” com o anterior executivo relativamente a este assunto.

Quanto ao facto de haver clubes no concelho que carecem de mais espaço para os seus jovens jogarem/treinarem e ser dada primazia a um clube de fora do concelho da Ribeira Grande para a utilização do recinto desportivo da Maia, Hélder Tavares foi claro na resposta:

“Uma das grandes diferenças que a freguesia da Maia tem em relação às restantes é que é uma freguesia acolhedora, que sabe receber e que pensa a longo prazo, na medida em que vê nesta cooperação institucional uma mais-valia para o desenvolvimento, podendo até futuramente nascer novos talentos na nossa freguesia”.

Lançada primeira pedra para construção de apartamentos na freguesia da Maia

© GRA/SRJHE

A empreitada de construção de novos apartamentos multifamiliares no aldeamento de São Pedro, na freguesia da Maia, São Miguel, foi consignada pela secretária regional da Juventude, Habitação e Emprego, Maria João Carreiro, segundo comunicado do Governo regional.

No total, vão ser construídos seis apartamentos de tipologia T2 e seis de tipologia T3, numa obra adjudicada à empresa Marques, S.A., por 2,3 milhões de euros, totalmente financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e com um prazo de execução de 450 dias.

A titular da pasta da Habitação sublinhou, na ocasião, o “orgulho” do Governo dos Açores em “iniciar uma obra que vai alargar a oferta de habitação acessível para a população da freguesia”, num espaço que já esteve ao abandono e que já foi tudo menos aquilo a que se destinava: “um conjunto habitacional para responder às necessidades das famílias”, pode ler-se

Os apartamentos, a construir nos últimos lotes disponíveis para o efeito no aldeamento de São Pedro, vão ser colocados no mercado em regime de arrendamento com opção de compra, garantindo às famílias habitações acessíveis, modernas, eficientes e confortáveis, diz o mesmo comunicado.

Maria João Carreiro garantiu que o executivo está a trabalhar, no âmbito do PRR e das políticas públicas regionais, para que os jovens e a classe média possam ultrapassar os constrangimentos no acesso a habitação, “que resultam, em grande parte, da falta de investimento público e privado ao longo dos anos em habitações acessíveis às famílias açorianas”.

“As anteriores governações regionais não conseguiram identificar e antecipar as necessidades de habitação como as que se verificam hoje nos Açores”, frisou ainda.

De acordo com o Governo regional, estão em curso na região investimentos em habitação na ordem dos 24 milhões de euros, que se vão traduzir em 200 novas habitações.

Participaram na cerimónia de consignação, que decorreu no Museu do Tabaco da Maia, e de lançamento da primeira pedra, entre outros convidados, a presidente da Junta de Freguesia da Maia, Susana Ferreira, o diretor regional da Habitação, Daniel Pavão, e os vereadores da Câmara Municipal da Ribeira Grande, Cátia Sousa e João Moniz.

Laudalino da Ponte Pacheco, o fotógrafo da Maia

“Ao descrevermos algumas destas fotografias percebe-se nelas a dimensão sobretudo psicológica. Percebemos a alegria e a tristeza, a emoção forte e o entorpecimento, a luta pela vida e a vida sem luta, o dia a dia, os pequenos e grandes círculos de uma vida, que tanto pode nunca sair do seu bairro como atravessar o oceano para sobreviver. Nestas imagens conseguimos vislumbrar todo esse mundo de emoções fortes e fracas, mansas ou histriónicas.”

Margarida Medeiros in Continuar a viver – imagens de um quotidiano açoriano, Laudalino da Ponte Pacheco, 1963 -1975, Araucária, 2021.

Família na freguesia dos Fenais da Ajuda no ano de 1969 © LAUDALINO DA PONTE PACHECO

O arquivo de Laudalino da Ponte Pacheco (1921-1998) foi depositado pela família deste fotógrafo em 2018, na Santa Casa da Misericórdia do Divino Espírito Santo da Maia, é constituído por uma coleção de cerca de 155 mil fotografias, objetos e alguns filmes.

Trata-se de uma coleção de imagens fascinantes, as quais não deixam ninguém indiferente, diria que despertam no observador uma inquietação e um fascínio instantâneos, talvez porque nos permitem a imersão num tempo e num território. Este arquivo permite a apreensão do social, do antropológico e etnográfico da ilha de São Miguel e dos Açores em geral.

Além de ser um recurso para a compreensão deste território, provoca em quem as frui emoções diversas, como espanto, descoberta, saudade, tristeza, alegria e beleza.

Por serem imagens fortes e significativas, dilatam o tempo e o espaço, além de terem o poder de ativar memórias, interpelam e questionam, fazem pensar, permitindo construir novas narrativas e outras leituras do passado e do presente, eventualmente ajudam a construir um caminho coletivo do futuro.

Trata-se de um acervo que é um recurso sociológico, uma ferramenta preciosa para um melhor conhecimento de São Miguel, através do olhar de alguém que pertence à comunidade, retrata a vida quotidiana, a vida doméstica, o trabalho, as festividades, os ritos, a infância, a doença, a morte, os animais, as plantas, as dificuldades, as oportunidades, os desejos, as alegrias, as tristezas, as partidas e as chegadas.

O “retratista da Maia”, nasceu na freguesia da Ribeirinha, na ilha de São Miguel, no dia 25 de junho de 1921, numa altura em que os seus pais, José Remígio e Maria das Mercês da Ponte Remígio, naturais da Maia (São Miguel), trabalharam, como feitores, na granja do Lameiro, propriedade da “marquesa”. Os pais de Laudalino tiveram cinco filhos, Laudalino o mais velho, Elvira, José, Cidalisa e Dionísio. O casal regressou à Maia quando Laudalino era ainda uma criança de dois anos, e foi na Maia que viveu toda a sua vida, tendo falecido no dia 7 de agosto de 1998.

Laudalino fez a 4ª classe, tendo em seguida começado a trabalhar na fábrica de Tabaco da Maia, laborou nesta unidade fabril durante 50 anos, onde realizou várias tarefas, no entanto, foi como escriturário que se destacou e especializou. A formação e o exercício desta função fez com que adquirisse um método eficaz de registo e de organização, que aplicou no ofício de fotógrafo.

Na Fábrica de Tabaco da Maia no ano de 1963 © LAUDALINO DA PONTE PACHECO

Foi na fábrica de Tabaco que conheceu Maria dos Anjos Medeiros, casaram em 1957, tiveram três filhos, Paula Maria (1958-2022), Mercês (1960) e Laudalino (1965).

As várias pessoas que entrevistei sobre Laudalino, foram unânimes na afirmação de determinadas características da sua personalidade: “era um homem muito imaginativo, muito talentoso, um engenhocas, divertido, cumpridor, trabalhador e fura vidas, muito dotado, com um grande fascínio pelas novas tecnologias”, referiu João Bulhões.

“Quando foi construída a “casa nova”, em 1964, o meu pai instalou nela toda a rede elétrica, apesar de não haver eletricidade pública na Maia, e esta só ter chegado nos finais dos anos 70. Na época das festas religiosas da freguesia, a igreja era toda enfeitada e iluminada com luz elétrica através de um gerador, então o meu pai puxava a corrente, e a nossa casa ficava toda iluminada, constituindo uma atração da freguesia. Este episódio demonstra bem como ele era uma pessoa muito à frente!” — relatou o filho.

Foi provavelmente em 1953 que o irmão mais novo de Laudalino, Dionísio, emigrado no Canadá, em Montreal, enviou-lhe aquela que seria a sua primeira câmara fotográfica. Este “engenho” veio mudar a sua vida. A sua personalidade curiosa e empreendedora, aliadas à posse daquele novo artefacto, constituíram ingredientes para uma mudança do seu destino, levando-o a uma nova etapa da sua vida.

Assim iniciou o seu percurso como fotógrafo, montou um pequeno negócio que conciliou com o trabalho na fábrica de Tabaco. Maria dos Anjos foi a sua principal colaboradora, contudo toda a família se envolveu no empreendimento. José Remígio, o irmão que trabalhava nas camionetas, Caetano Raposo Pereira, levava, às segundas-feiras, os rolos com os negativos para a cidade (Ponta Delgada), entregando-os no “Nóbrega” (foto Nóbrega), trazendo as imagens reveladas na semana seguinte.

No Aeródromo de Santana em 1978 © LAUDALINO DA PONTE PACHECO

O negócio foi florescendo com o registo de momentos do quotidiano da vida na comunidade onde vivia, as fotos que sobravam no rolo eram a oportunidade para registar e experimentar novos disparos e enquadramentos.

O seu percurso fotográfico iniciou-se na Maia, com a expansão do negócio aumentou o seu raio de ação, estendendo-o a novas geografias, começou pelas freguesias vizinhas e depois foi indo mais além na ilha de São Miguel. Há também registos fotográficos no Canadá, para onde viajou duas vezes.

Era ao domingo que Laudalino ia à procura do “negócio”, novas imagens, procurando atrair novos clientes. Quando o negócio gerou algum dinheiro, Laudalino, que primeiro usou a bicicleta para se deslocar, investiu numa moto, e lá ia ele, “o retratista da Maia” como era conhecido, com a mulher, e, por vezes, com uma das filhas, todos na mota para captar novas imagens nas redondezas da Maia.

E assim, Laudalino foi adquirindo, ao longo dos anos, experiência e conhecimento sobre fotografia, sendo um homem muito curioso, além de habilidoso, talentoso e sensível, procurou saber e aprender mais. Também procurou apoio e conhecimento junto do fotógrafo mais bem estabelecido em Ponta Delgada, Gilberto Nóbrega, madeirense que em 1940 se radicou em Ponta Delgada criando a maior casa de fotografia da ilha, à semelhança da Casa Vicente no Funchal, onde havia trabalhado.

Crianças a brincar na rua na freguesia da Maia no ano de 1969 © LAUDALINO DA PONTE PACHECO

A vida e a obra de Laudalino já suscitaram pequenas exposições, comunicações e um livro publicado pela editora Araucária, em 2021, no qual participei, redigindo a biografia do fotógrafo. Atualmente, um grupo de interessados neste acervo (onde me incluo), está a preparar uma exposição sobre Laudalino da Ponta Pacheco, que será realizada no Museu Carlos Machado, em parceria com a família de Laudalino da Ponte Pacheco, a Santa Casa da Misericórdia do Espírito Santo da Maia e o Município da Ribeira Grande.

Uma exposição que propõem percursos e programação diversificada, a partir do arquivo de Laudalino Pacheco, com fotografias, com objetos, com testemunhos, com a contextualização do espaço e do tempo, envolvendo diálogos com artefactos, objetos, pessoas, propondo interpretações variadas, convocando à participação cidadã e à construção de outras narrativas sobre a história do território de São Miguel e dos Açores.