
Alexandra Manes
Hugo acordou e abriu as persianas. Recebeu uma mensagem do patrão que informava que naquele dia ia fazer mais três horas, dentro do banco de extraordinárias. Estava perto do final do ano e ainda não tinha cumprido as 150 horas extra que a empresa aprovara, sem a autorização expressa dos trabalhadores. Quem se recusar já sabe: “a porta da rua é serventia da casa”.
No andar de baixo do prédio, Rosário passara a noite em branco. Roía as unhas, até à pele, enquanto pensava no que ia dizer naquela entrevista de emprego que estava programada para daí a duas horas. Uma oferta rara naqueles dias. Um contrato a prazo, sem qualquer regalia, e com a possibilidade de terminar a meio, se a patroa o entender. Mas, como Rosário estava a entrar no mercado de trabalho, as suas opções estavam limitadas a ofertas daquele género. Era isso, ou escravatura. E ela roía as unhas, na dúvida sobre qual a melhor tortura.
Do outro lado da cidade, numa casinha pequenina, com o telhado a cair e manchas de humidade, o casal Esteves discutia de forma acesa. Carla tinha descoberto que o Luís tinha sido despedido e não lhe tinha dito nada. Quando confrontado, desatou a chorar e admitiu que tinha ido para a rua. A empresa mudara de política interna. Fora substituído por um computador. E ainda lhe disseram que era justa causa. Carla não podia acreditar. Tal coisa não poderia ser verdade. Não viviam num mundo desumano assim, pois não?
Aquela manhã chegara a Portugal, e não veio pela calada. Veio vestida com nuvens cinzentas e pacotes apresentados pela Spinumviva, com a validação dos amigos que já não são nem do centro, nem cristãos. Não esquecer os sanguinários partidários da filosofia de Milei, capazes de explorar tudo para justificar vidas humanas com números imaginários. E, claro, sentados nas sombras, a aplaudir, estavam os senhores do ódio. Aqueles que se arrogam de serem machos, mas que deixam o cravo afrouxar e morrer nas suas mãos.
Chamaram-lhe, eufemisticamente, pacote laboral. Uma medida de marketing, certamente patrocinada pela consultadoria de uma empresa digna de futuro primeiro-ministro. Na verdade, é a sangria do povo. Uma última investida junto dos direitos que conquistamos há mais de cinquenta anos, a ferro e fogo. É uma armadilha e uma morte anunciada para o que resta dos pobres e remediados em Portugal. Montenegro está disponível para assinar este acordo com os grandes senhores do patronato, desde que lhe garantam um lugar na mesa, em anos vindouros. Um acordo miserável, parafraseando o outro que acha que a Revolução é brinquedo.
Quando celebramos as datas que andam por aí por estes dias, não se trata de um apagar de velas, e de um sorriso acéfalo. Honrar o 25 de abril e, principalmente, o 1 de maio, é levar a luta para a rua. O país está à beira de acordar com mais horas de trabalho e menos direitos para a classe operária. Mais cego, é quem não o quer ver. Eles estão a aproveitar esta luta para destruir o que resta do sindicalismo. E mais cego é quem ainda não vê. Estamos condenados a cair, mas não precisamos de nos deixar ficar no chão. Juntem-se, este ano, e sempre que for necessário. Marchem junto às casas dos ministros. Não se calem em frente aos fachos e aos patrões. Somos seres humanos. Mulheres e homens com direitos. Obriguem-nos a temer a realidade que não querem que se saiba: o povo é soberano. E o povo tem fome de viver.

Alexandra Manes
Na altura, em dois mil e vinte e troca o passo, a Visão fez uma capa com António Costa, citando uma suposta resposta do então primeiro-ministro, numa entrevista sobre a continuidade do seu governo de maioria absoluta. Se eu não tivesse passado lá já depois disso, acreditaria que tinha caído o Carmo e a Trindade, pela intensidade da resposta da oposição da época. Ainda hoje, uma pesquisa rápida no Google revela-nos a posição espumada do CDS-PP e do PSD, cujos líderes não mudaram. Escusado será dizer qual a postura irracional dos populistas liberais ou dos salazaristas. A indignação foi abominável. Pelo país fora correram rios de tinta em jornais. Os gritos de acusação de estrangulamento por parte da ditadura socialista ecoaram nas esquinas e avenidas do nosso calhau plantado junto ao Atlântico. E Portugal tremeu.
António Costa foi derrubado antes do final do seu mandato. Os motivos, verdadeiros ou falsos, que levaram a esse acontecimento são bem conhecidos. Não vou perder tempo a discutir a validade da investigação. Ninguém quer saber disso, hoje em dia. Verdade seja dita, o resultado foi bastante positivo para o antigo primeiro-ministro, a nível pessoal, e para a oposição de direita extremada e de extrema direita, a nível político. O resto, já não parece interessar.
Entretanto, Montenegro foi eleito, sem maioria, por duas vezes, espelhando um país que não sabe o que quer, e reforçando o peso dos mal informados e da abstenção. Os principais atores políticos daquela bancada direita são os mesmos, se descontarmos os que saltaram do PPM, do PSD e principalmente do CDS para as bancadas dos salazarentos. Quem se sentava indignado contra Costa, em 2022, era Nuno Melo e Hugo Soares. Os mesmos que, há uns dias atrás, assinaram acordos de fraquíssima veleidade constitucional para destruir toda a base de legislação portuguesa referente à boa integração dos povos que nos visitam. Assinaram com os supostos adversários, claro está.
Foi num acordo de pessoas que precisam de conferir no dicionário o que é um cavalheiro, que se instalou a nova legislação sobre imigração e nacionalidade. A criação de uma espécie de ICE à portuguesa, polícia política que vai servir para acolher no seu seio os elementos extremados dos movimentos neonazis, é apenas o começo da trumpização nacional. Montenegro sorriu. Nuno Melo inchou. Hugo Soares virou-se para a bancada do PS e terá gritado: “habituem-se”. Soa familiar, não é?
Só que desta vez não há indignação. Poucas são as vozes, a não ser as ditas elites pensantes, que vieram para a rua fazer tremer Portugal. A comunicação social apagou o caso, remetendo-o para uma paródia referente a António Vitorino, com mais de vinte anos, quanto toda a gente sabe que era sobre Costa que eles falavam. Agora não interessa pegar na impunidade da classe governante nem na soberba da maioria instalada. Agora, conta mais fazer de conta que o problema principal do país é o imigrante e os papéis que ele precisa de assinar para ser legal. Nunca é de mais reforçar a importância que a nossa classe de jornalistas está a ter na ascensão do novo fascismo.
Confesso-vos que esperei alguma indignação. Talvez até um movimento de raiz a começar nas próprias bases sociais-democratas, contra tamanha arrogância de Soares e Montenegro, que depois de anos a venderem o “não” para manter preso o voto moderado, foram direitinhos ao “sim”, assim que se viram no conforto do poleiro. Esperei ainda por uma enchente da esquerda, manifestando-se rua abaixo e rua acima, contra este verdadeiro atentado aos direitos dos portugueses e à nossa tradição de saber integrar e valorizar quem se junta à nossa portugalidade.
Nada. O país está adormecido. Tem medo. Toda a gente tem um vizinho que é do tal partido. E se falar muito alto, ainda corre o risco de ir para a lista. Os partidos da oposição estão atolados. Moções de confiança interna sem sentido. Viragens ao centro, sem travão de mão, que só acabará na direita. Crescimentos ténues que correm o risco de desmoronar por falta de coesão. E um pilar antigo, esvaziado, que permanece imutável, mesmo quando o mundo segue em frente. Não há maneira de combater isto? Estaremos destinados a cair ainda mais fundo?
No fim de semana de 12 e 13 de julho, entrou em cena um grupo de neonazis, devidamente armado, para instaurar o caos em Espanha. Nas ruas de Torre Pacheco, zona de Múrcia, os meliantes perseguiram sistematicamente uma comunidade inteira de pessoas que falavam uma língua diferente, alegando defender a soberania do seu Estado. Para além do ridículo de se ser nacionalista num país tão partido aos bocados como é o caso de Espanha, a situação ganha particular gravidade quando se passa de um exemplo para todos. Alegadamente, falou-se em violência de um grupo de imigrantes contra um cidadão espanhol que já veio a público lamentar o aproveitamento, por parte da extrema-direita, a solução tem que passar pelas autoridades locais e pela aplicação da lei por igual. Não por um grupo de racistas de cara tapada. Mas agora vale tudo, não é?
Essa gente não se recordará da história que nunca leu. Ditadores do século passado contaram com grupos deste género para espalhar a discórdia, dividindo para reinar. Depois, tornam-se incómodos. Porque são, na sua maioria, profundamente limitados a nível empático e intelectual. Por isso, acabam saneados, com facas longas espetadas nas suas brancas barrigas inchadas pela suástica. Um dia, os que correram em Espanha, nos Estados Unidos e em muitos outros lugares do mundo, vão acabar assim. Na valeta, esquecidos por quem quiseram idolatrar.
E nós, que agora demos mais um passo na direção de Trump, será que vamos ser mais salazaristas que Salazar? A coligação de Melo e Montenegro assumiu-se, finalmente, sem pudor. Foi um grande linguado no coração da assembleia e da democracia, com todo o afeto que se esperava entre bancadas irmãs. Passamos a ser vergonha internacional, ao nível da nacionalidade e do acolhimento. Enterraram os brandos costumes. Agora, que Portugal já não tem tempo para ser meigo, o que é que acontece? Vamos para a rua, ou vão tatuar a xenofobia da coligação na pele? Agora não dá para se ser neutro, caras e caros leitores. Ou vocês são, ou não são. Habituem-se.

Alexandra Manes
Escrevo estas linhas com a expectativa de que as mesmas sejam publicadas durante a semana em que o nosso país celebra o quinquagésimo primeiro aniversário do Dia da Liberdade, a mais importante data refundadora em Portugal. Escrevo-as a penar nas eleições legislativas do próximo mês de maio. A refletir sobre o catastrófico estado da política a nível mundial. E a desejar que este seja um texto que sirva, a eleitores e a eleitoras sociais-democratas, socialistas, ou de outras vertentes não apoiantes de Elon Musk e Javier Milei.
Este é um apelo e uma apreciação do que se pode perspetivar sobre os próximos anos no nosso país. Os Açores são já tubo de ensaio, com a Madeira a servir de exemplo negativo, noutro quadrante. E agora, no próximo mês, vamos aferir resultados e perceber se a escola estará também montada em Lisboa. É que, como nos diz a sabedoria popular, depois de uma porta aberta, tudo pode entrar.
Essa porta ideológica está a ser preparada pelo Partido Social Democrata há algum tempo. Depois dos resultados das últimas eleições legislativas, os poderosos do partido finalmente perceberam a ameaça que lhes espreitava à janela e reconheceram que o eleitorado se esfumava entre as mentiras de Ventura e as falinhas engravatadas dos novos-ricos do neoliberalismo. Quando venceram, por muito pouco, ficaram sem saber se deveriam aceitar uma eventual aliança com aqueles que bem sabiam serem filhos do fascismo. Ao que tudo indica, foi o próprio Luís Montenegro que impôs disciplina, e negou o irmão Ventura. Não creio que o tenha feito por imposição moral, mas antes por desgosto pessoal. Luís e André foram amigos no recreio de Pedro Passos Coelho, e desde então andam a lutar pela sua aprovação. Quem não acreditar, pesquise por um livro chamado “Montenegro” e rapidamente perceber quão antiga é a guerra.
Volvido um ano e um dia, o governo cai. O PSD e o CDS perdem o PPM. O primeiro-ministro parece que perdeu um bocadinho da moral que lhe restava. E uma parte do seu partido perdeu, certamente, o juízo. Ameaçados com a possibilidade de uma derrota, mesmo que relativamente pequena, os sociais-democratas apressam-se a vir à praça pública apelar à unidade com o chega. Não é a primeira vez que o vemos, mas agora parece ser fruto de um esforço concertado. Miguel Relvas, velho amigo do Coelho, do Ventura e dos intrujões todos, tem sido o primeiro a dar a cara, nos seus programas de comentário político, onde vai esgrimir o conhecimento que obteve da sua relevante habilitação académica em ficção, para apelar a uma união nacional entre Luís e André. Também por cá, nos jornais regionais, encontramos artigos, onde se fala da queda de uma coligação para a formação de outra, com incentivo ao começo de uma nova era. O bloco de direita, é como lhe chamam à porta fechada. Colocam-se ao lado daquele partido, sem receio de admitirem que são parecidos com eles, os que contam com mais alegados criminosos por metro quadrado do que a esquadra da polícia no centro de Ponta Delgada.
Para sobreviver e vencer a qualquer custo, as forças vivas do PSD estão dispostas a fazer a derradeira aliança e a dar a mão a Ventura e à sua quadrilha. O eleitorado foi já vítima de uma profunda lavagem de desinformação e ilusão. Já não sabem bem a diferença entre Luís e André. O que lhes interessa é que não sejam socialistas, que esses são os maus da fita, pelo que leram nas redes sociais. Os comentadeiros vão receber os dividendos, seja com um lugar no elenco principal, seja com um negócio futuro, bem posicionado. Depois dos votos serem contabilizados, em maio, há uma forte possibilidade de Montenegro ser obrigado a tomar posse ao lado de Ventura, num novo acordo parlamentar, alicerçado nas boas relações de Bolieiro com Pacheco, e devidamente balizado pelas palavras de Albuquerque, que sempre disse que não tinha linhas vermelhas a ultrapassar.
Há mais de dez anos, o partido Republicano atravessou esse caminho e colocou os seus valores e líderes tradicionais de parte. Deixou de ser um partido de moral conservadora, para dar uma oportunidade a um gatuno, sem ética nem Humanidade. Num país onde só há duas alternativas, como é o caso dos Estados Unidos, a população ficou refém de um partido de centro e um que se dizia de direita, mas vendeu-se ao fascismo. Para ganhar às forças de Clinton, os americanos ofereceram a alma ao maior de todos os demónios. E nasceu um novo movimento, que atravessou o atlântico, devagar, mas conscientemente.
Do fascismo do movimento MAGA até às portas da sede do Chega, foi uma questão de tempo. Ventura é, pelas suas próprias palavras, convicto apoiante de Donald Trump. O esquema que ele perpetuou um Portugal, e que continua a cozinhar, é o mesmo. Vai obrigar o antigo colega a decidir. Ou o PSD ganha as eleições por pouco, ou o Chega vai subir ao poder. A pescadinha está montada. Portugal está entre a espada da corrupção e a parede dos salazaristas.
Não será segredo para quem me lê que eu sou de esquerda. Apelo sempre ao voto nas forças políticas da esquerda, mesmo que nem sempre concorde com tudo o que apregoam. Mas, faço-o porque creio que são os partidos que mais se preocupam com as pessoas, com a sua dignidade e com a emancipação do pensamento e da Humanidade. Compreendo que nem toda a gente queira votar na esquerda. Importa é que saibam que um voto na direita, nas próximas eleições, é um provável voto em André Ventura, de uma maneira, ou de outra. Com uma porta aberta, quase tudo pode entrar. E depois de um parasita entrar na nossa casa, não é nada fácil removê-lo. Os Estados Unidos que o digam.
Cinquenta e um anos depois do 25 de abril, a luta continua a fazer mais sentido do que nunca. A noite escurece, o populismo cresce, os editoriais dos jornais falam bem de Salazar e os comentadores apelam à união de forças para destruir a democracia. Hoje, mais do que nunca, é preciso dizer que fascismo nunca mais! Viva abril! Viva a Liberdade! 25 de Abril, SEMPRE.

Alexandra Manes
Apanhei a frase que serve de título a esta crónica pelas redes sociais a fora, e pareceu-me ser aquela que melhor descreve a atual rota de navegação da nossa, cada vez mais, frágil Humanidade.
Nas últimas semanas, muitas foram as pessoas que assistiram com espanto e choque ao regresso da política diplomática musculada que Trump gosta de promover. Ofenderam-se profundamente com a forma como o líder dos Estados Unidos tratou desumanamente o presidente ucraniano, sentado na Sala Oval – Casa Branca, alegado bastião da liberdade e democracia.
Houve até quem tenha rasgado vestes e batido no peito três vezes, com total estupefação, por não esperarem tal coisa dos ditos americanos, eternos aliados.
Não perderei muito tempo a desmontar a ridícula figura que fizeram essas pessoas, ultrapassada há décadas. Deixo apenas uma referência aos senhores liberais que recentemente traçaram longos elogios a Javier Milei, a Musk e ao seu lacaio Trump. Não vale de nada estarem agora muito indignados com os resultados que apoiaram. Guardem a hipocrisia para vocês. Cá fora, há trabalho real a fazer.
Com os resultados dessa tal política externa obscena, tudo indica que o mundo está em vésperas de uma guerra mundial. Aguardamos, com o coração preso, a utilização de armas de destruição maciça, mas temos já a certeza das novas movimentações militares em solo europeu, acrescendo a forte possibilidade de conflitos diretos no território americano e até na própria Gronelândia.
A Europa reuniu-se para declarar a militarização apressada. Estima-se mais 1.5% do PIB dos países, para a guerra e para o armamento, que será certamente comprado às grandes indústrias bélicas. Ganham-se bilionários. Perdem-se vidas. Proceda-se em conformidade. É o realizar de um antigo sonho da criação de um exército europeu.
A guerra é, neste momento, inevitável. Poderia ter sido minorada ou até mesmo totalmente bloqueada, noutra época, se os Estados Unidos e a União Europeia tivessem avançado com medidas diplomáticas verdadeiras e com outro tipo de políticas internacionais, de proximidade e pressão, junto da Rússia e dos seus satélites. Agora, com um aliado de Putin em Washington, é tarde.
Avança-se com um conjunto de ameaças e tarifas, contra tarifas, que só terão impacto nas carteiras das pessoas. Preparam-se retiradas estratégicas, despedimentos coletivos e reestruturação de pactos de regime. Dizem os bastidores que será provável a extinção do centenário consulado americano nos Açores. Só não nos levam a Base das Lajes porque lhes dá jeito a eles, e a nós só dá problemas, embora haja quem, subservientemente, recuse o corte umbilical com tal infraestrutura.
Cá dentro, a guerra é outra. Luís Montenegro trabalha para conseguir a proeza de ser o pior primeiro-ministro da história da democracia, congregando em si todas as piores caraterísticas de Cavaco, Santana, Sócrates e Coelho. Depois de ter sido descoberto o seu estatuto de trabalhador-estudante, onde durante o dia estudava política e de tarde jogava golfe com os patrões da Solverde, Montenegro deu uma conferência de imprensa para esclarecer o que se passava. Ladeado pelo executivo governamental, como se fosse Kim Jong-un a anunciar um novo corte de cabelo, o primeiro-ministro de Portugal baralhou-se todo, tendo confessado que havia conflito de interesses enquanto negava que havia conflito de interesses. Passou a tal empresa para o nome dos filhos, mas teve de assinar o papel, o que pareceu ser uma confissão para alegadas quebras no regime de exclusividade. Nem valerá a pena imaginar o tráfico de influências que existiu antes de ele ser primeiro-ministro, mas depois de já ser candidato a tal.
Tudo indica que, graças às trapalhadas do menino Luís, lá vamos nós outra vez a eleições. Mais duas este ano e já completamos o cartão de brinde. Para o ano deveria haver eleições de graça. Os partidos colocam-se já em bicos dos pés na casa de partida, mas constatamos que a realidade é bastante tenebrosa, ao nível de possibilidades de escolha. O regime está profundamente enfraquecido, e as pessoas cansadas de votar. Há brechas abertas para a ascensão de Ventura e do seu gangue. Precisamos, mais do que nunca, de fazer campanha contra a abstenção e a favor da democracia e da liberdade. Estas poderão ser as últimas eleições durante uns tempos valentes.
Foram guerras evitáveis. No mundo, como em Portugal. E nem tempo teremos para falar nos Açores. Isto porque o propósito deste texto era o de falar noutra guerra. Na verdadeira guerra de extermínio da Humanidade, e que já perdemos. Todos os observatórios ambientais dignos desse nome e de validade científica voltaram a registar números assustadores para o começo de 2025.
O mundo como o conhecemos está literalmente a acabar, e os nossos regimes estão mais preocupados em armar pessoas, empobrecer sociedades e abrutalhar a política. Esta sim, parece ser a guerra para terminar todas as guerras. Caminharemos para a alteração climática final, afogados em glifosato de marca branca, e entulhados em votos de abstenção e desinformação.
Há que ter esperança e não baixar os braços. Custa muito, mas é preciso continuar a acreditar na ciência. Pressionar os nossos líderes. Exigir mais dos movimentos de sindicância e libertação das massas. Obrigar-nos à massa crítica. Quebrar as grilhetas do patriarcado e do conservadorismo. Não sobreviveremos como antes, mas podemos continuar a viver num mundo novo. Há potencial de crescimento. Não podemos acreditar que acabou. Venham daí e tragam um amigo e uma amiga, também.