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A doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós

Júlio Tavares Oliveira
Formado em Português/Inglês

Há amores – muitos amores, muitas vezes os primeiros amores – que não têm direito a cartas de amor trocadas, que não vivem, direito, as suas cartas de amor, ou uma correspondência feliz; há amores que só se sabem – e se ouvem – pela dor constante que provocam, pelo ardume grave, e interno, que propagam, pela inflamação que os conduz e que os consome por dentro.

O amor sem cartas de amor é aquele amor inflamado, capaz, infundado, que não se ouve falar em lado nenhum pelos melhores motivos: é agressivo, violento, imparável, mas quieto, sisudo, miúdo, minúsculo; esse amor é o amor dos heróis e dos anti-heróis, dos eternos românticos apaixonados, dos nobres cavalheiros, de flor na lapela, que não cortejam, nem fazem flirt, mas que desejam tão intensa quando inconsequentemente, incondicionalmente, um amor qualquer que os destrói lenta e lentamente.

Mas não é desse amor sem cartas de amor que nascem os amores mais duradouros – distinga-se paixão de amor e traremos, nesse tratamento, nessa degustação, um amor pacífico, um amor estável, um amor que se baseia na correspondência.

Os amores incondicionais são extremamente agressivos e brutalmente corrosivos – são obsessivos, são obcecados, não têm, nem conhecem, limites.

São, de forma mais ou menos constante, uma ultrapassagem perigosa, um encontro marcado, mas magoado, em contramão, uma curva apertada a alta velocidade; um despiste incontrolável de sentimentos e emoções. Os amores, que são violentas paixões do coração, quando não são correspondidos por quem se ama desta forma, não trazem sossego, mas muita revolta e incompreensão.

E a revolta, na grande parte das vezes, traz a potência do crime, do litígio, do perigo – para quem se apaixona e para quem foge dessa paixão.

Os avisos são muitos e estão suspensos à nossa volta: mensagens constantes, chamadas constantes, perseguição, e tanto mais – por quem ama, incondicionalmente, a quem não ama, de todo, esse “incondicionalmente”, mas que o detesta.

É, diria eu, uma doença incapacitante, uma cegueira, que litiga, de forma abismal, contra quem daria a sua própria vida pela vida da pessoa que ama, mas que o detesta – e esta é a doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós. É, diria eu, uma necessidade, também, de se procurar ajuda especializada.

É aí que entra a necessidade, primeiro, de se reconhecer a si mesmo; e de se procurar ajuda – e há muita gente que nos pode, de facto, ajudar.

Posso dizer que já estive do lado que se apaixona, se calhar mais do que uma vez, incondicionalmente por alguém, numa vã inglória da vida – numa paixão que não se controla, nem se aprende a dominar, nem conhece as suas limitações ou os seus limites à sua superação constante, na tentativa de agradar, de todas as formas, a pessoa amada – invariavelmente, toda a paixão incondicional sem correspondência provoca repugnação, nojo, ou medo em quem se sente impotente, e incapaz, de parar tal proeza.

Aprender a largar não é fácil; aprender a aceitar o que nos magoa é difícil. Sobretudo para quem, como eu, ama de uma forma difícil de entender no mundo de hoje – de uma forma, por vezes, que se deixa ficar em último para que quem amamos fique em primeiro. A doença – se será? – de se amar de uma forma que nos prejudica tanto, e que só nos traz coisas negativas, lágrimas e prantos, importa, da parte de todos nós, que não se apontem dedos desnecessários, importa que não se julgue o incondicional por ser isto que é: incondicional.

Quando a fileira cresce, mas o produtor perde

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA

Os números mais recentes do setor leiteiro açoriano merecem mais do que uma leitura superficial.

Segundo dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores, no primeiro trimestre de 2026 a recolha direta de leite aumentou 1,1%, atingindo 153,28 milhões de litros, mais 1,7 milhões de litros face ao período homólogo.

À primeira vista, o dado parece positivo.

Mas quem conhece a fileira leiteira sabe que os mercados raramente se explicam por uma única variável.

No mesmo período, a produção de queijo nos Açores caiu 12,6%, passando de 8.633 para 7.541 toneladas.

E este dado muda completamente a leitura.

Porque o leite mede volume. Mas o queijo mede valor.

Nem todo litro de leite gera o mesmo retorno económico. Um litro destinado a leite UHT ou a produtos de menor diferenciação não cria o mesmo valor que um litro transformado em queijo, sobretudo quando falamos de produtos com identidade, marca, maturação e posicionamento premium.

Por isso, a verdadeira pergunta não é apenas se estamos a produzir mais.

A pergunta é: estamos a criar mais valor ou apenas mais volume?

E este ponto é decisivo.

Os Açores não ganharão uma competição assente apenas na quantidade. Somos uma região ultraperiférica, com custos logísticos elevados, forte dependência de fatores externos e limitações de escala.

A nossa competitividade só pode estar na diferenciação, na transformação e na capacidade de fazer com que cada litro de leite valha mais.

É por isso que a quebra do queijo merece atenção.

Pode haver explicações técnicas legítimas: ajustamento industrial, gestão de stocks, pressão comercial, necessidade de liquidez ou desvio para produtos com menor tempo de imobilização financeira.

Tudo isso faz parte da lógica dos mercados.

Mas há um dado adicional que não pode ser ignorado.

No início deste ano, produtores de algumas ilhas viram o preço pago ao leite diminuir cerca de 3 cêntimos por litro.

E aqui a leitura torna-se mais exigente.

Porque passamos a ter três sinais simultâneos: mais leite; menos queijo; menos preço pago ao produtor.

Ou seja: mais esforço produtivo, sem garantia de melhor remuneração.

Quem trabalha no setor sabe o que representam três cêntimos por litro.

Numa exploração com 500 mil litros anuais, falamos de menos 15 mil euros por ano.

Numa exploração com um milhão de litros, menos 30 mil euros.

Não estamos a falar de um detalhe estatístico.

Estamos a falar de rendimento, tesouraria, investimento, previsibilidade e, muitas vezes, da diferença entre continuar ou desistir.

Há ainda um paradoxo que quem conhece a produção leiteira compreende bem.

Quando o preço pago ao produtor desce, a reação económica imediata raramente é produzir menos.

Pelo contrário.

Numa exploração leiteira, os custos fixos mantêm-se: salários, energia, maquinaria, financiamentos, manutenção, rendas.

A estrutura continua lá.

E quando o litro vale menos, a reação de sobrevivência tende a ser simples: produzir mais para tentar compensar o que se perdeu.

Mas é precisamente aqui que reside um dos maiores riscos do setor.

Aquilo que faz sentido à escala individual de uma exploração pode, quando replicado em larga escala, agravar o problema: mais oferta, maior pressão sobre o mercado, novo aperto no preço.

Perante esta realidade, uma das respostas que o Governo tem vindo a assumir passa pela reconversão de explorações leiteiras para produção de carne.

A medida pode fazer sentido em determinados contextos e em determinadas ilhas.

Mas levanta uma questão essencial: qual é afinal a visão para a fileira do leite e dos lacticínios nos Açores?

Porque há uma diferença entre gerir ajustamentos conjunturais e aceitar, como resposta estrutural, a redução da própria capacidade produtiva.

Se perante a pressão sobre o preço a solução passa por reduzir produção, corremos o risco de responder a uma dificuldade de mercado com retração produtiva, em vez de enfrentar a verdadeira questão: a criação e distribuição de valor ao longo da cadeia.

E é precisamente aqui que entra a política.

Não para contrariar artificialmente o mercado.

Mas para garantir visão estratégica sobre a forma como a fileira se organiza, valoriza e distribui riqueza.

Porque se a fileira cresce em volume, mas quem produz perde rendimento, então há uma pergunta inevitável: quem está, afinal, a ficar com o valor gerado ao longo da cadeia?

Os Açores não podem resignar-se a um modelo em que a resposta às oscilações do mercado passa por produzir mais, transformar menos em valor acrescentado e ajustar o equilíbrio financeiro sempre à custa do elo mais vulnerável.

Porque no fim, os números sobem e descem.

A fileira ajusta-se. A indústria reorganiza-se. O mercado oscila. A distribuição protege as suas margens. Mas quem absorve a pancada continua a ser quem acorda às cinco da manhã para fazer a ordenha.

Isto não é sustentável.

Porque sem produtores não há leite.

Sem leite não há indústria.

Sem indústria não há fileira.

Mas há uma verdade mais profunda do que qualquer indicador económico: nenhuma fileira resiste quando quem trabalha todos os dias deixa de sentir que o esforço compensa.

Quando a esperança se vai tornando mais curta do que os dias de trabalho.

Quando acordar às cinco da manhã deixa de ser sinal de compromisso e passa a ser apenas resistência.

E quando se perde um produtor, não se perde apenas produção.

Perde-se conhecimento.

Perde-se território.

Perde-se economia local.

Perde-se identidade.

Perde-se futuro.

De volta à base

Sara Sousa Oliveira
Diretora do Diário da Lagoa

Liderei o Diário da Lagoa durante 18 quentes meses de pandemia. Foram meses duros, difíceis e inigualáveis, como todos nós nos recordamos, e sublinho que escrevi três adjetivos similares seguidos, propositadamente. Anos depois, volto agora a assumir as funções de diretora deste jornal num contexto global bem diferente mas com o mesmo sentido de missão e responsabilidade. Não é uma missão fácil, liderar um jornal, já o afirmei no passado. Mas também é bom voltar a sentir de perto o pulso do papel. E, nesta nova fase, seguimos renovados: o lema “Notícias que contam” ganha mais destaque, porque de facto, é de notícias que contam que se faz o Diário da Lagoa.

Numa redação pequena, todas as ajudas contam: a contribuição consciente dos leitores que decidem ajudar, assinando o jornal e pedindo para o receber em casa, a escrita dos cronistas que decidem abraçar a causa, e a vontade de nos ler dos nossos leitores que, mês após mês, procuram a nova edição do Diário da Lagoa nos lugares por onde o deixamos, na Lagoa e fora dela. É desta matéria que somos feitos: de pluralidade, resiliência e ação. Não nos deixamos levar pelo imediatismo do acontecimento mas antes pela sua profundidade e proximidade com o açoriano comum. Levar “histórias que contam” às pessoas, a quem efetivamente pára para nos ler, contando-as, mostrando-as e na melhor das hipóteses, podendo ter o privilégio de tornar as suas vidas melhores, se isso for possível. 

A Lagoa está no centro da ilha, mas o centro da ilha não é a Lagoa. Por isso, histórias de cá e de lá são bem-vindas. Todos queremos saber quem é, o que se passa e o que traz quem nos é próximo, mas até a proximidade é relativa, no mundo global em que vivemos. Não temos todos de mostrar o mesmo, nem todos de ir atrás do mesmo. Gostamos de fazer diferente. E é isso que vamos continuar a fazer. Darei, por isso, o meu melhor para que continuemos a despertar a vontade de ler em quem nos procura.

Desligar é cuidar do cérebro

Ana Rita Arruda
Especialista em Psicologia Clínica com formação em Neuropsicologia
Hospital CUF Açores

Na nossa sociedade, estar sempre ocupado passou a ser entendido como “viver bem”. Saltamos de mensagem em mensagem, de tarefa em tarefa, de ecrã em ecrã, muitas vezes sem uma verdadeira pausa. A sensação de ter a mente sempre ligada tornou-se familiar para muitos de nós: mesmo quando o corpo para, o pensamento continua a correr. E ainda que o cérebro humano seja extraordinariamente adaptável, isso não significa que possa, de alguma forma, beneficiar deste funcionamento em esforço contínuo.

Estar permanentemente em modo de resposta não é saudável para o cérebro. O excesso de estímulos, a pressão para sermos produtivos e a ocupação constante dificultam a atenção, aumentam o cansaço mental e reduzem a capacidade de organizar a informação que recebemos ao longo do dia. Quando tudo parece urgente, torna-se mais difícil distinguir o essencial do acessório. E isso tem consequências não apenas no rendimento, mas também na memória, no humor e na forma como lidamos com o stress.

O cérebro não funciona num único registo. Há momentos em que está orientado para o foco, para a resolução de problemas, para a tomada de decisões e para a resposta às exigências do quotidiano, mas também há momentos em que precisa de abrandar. Durante períodos de repouso mental, continua ativo, mas de outra forma: organiza informação, consolida memórias, integra experiências e recupera recursos importantes para voltar a concentrar-se. As pausas não são, por isso, uma perda de tempo. São parte de um funcionamento cerebral saudável.

Cada vez mais pessoas descrevem a dificuldade de não conseguir desligar, ou de estarem sempre a pensar em tudo ao mesmo tempo. Muitas vezes, não se trata de falta de capacidade, mas de um cérebro sobrecarregado, com pouco espaço para respirar. Sem pausas, a atenção torna-se mais frágil, a memória mais dispersa e a gestão emocional mais difícil. Ficamos mais reativos e irritáveis e com menos tolerância ao cansaço e à frustração.

Felizmente, o cérebro mantém ao longo da vida uma notável capacidade de adaptação. Os nossos hábitos diários moldam, pouco a pouco, a forma como ele funciona. Dormir com regularidade, fazer pausas, aprender coisas novas, mexer o corpo, cultivar relações e reduzir a sobrecarga mental são medidas que podem proteger a saúde cerebral e contribuir para uma longevidade com mais qualidade de vida.

Viver mais não basta. Importa viver melhor. E cuidar do cérebro não exige mudanças radicais. Às vezes, começa com decisões pequenas: fazer uma pausa curta sem telemóvel, caminhar alguns minutos, respeitar o descanso, fazer uma tarefa de cada vez, criar momentos de silêncio. Num mundo que glorifica a pressa, talvez parar seja, afinal, uma das formas mais inteligentes de cuidar da mente.

Os engenheiros que ainda assentam tijolo

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

Quando se constrói uma casa, ninguém espera ver o engenheiro civil em cima do andaime a assentar tijolos. O engenheiro projeta, calcula, escolhe materiais, supervisiona; o assentamento do tijolo é feito pelo pedreiro. Ninguém em sã consciência diria que o engenheiro é menos engenheiro por não pegar na colher. A divisão é tão antiga quanto a própria engenharia: há quem conceba e há quem execute, e ambas as funções têm valor próprio.

Por alguma razão, na engenharia informática esta separação nunca foi clara. Durante décadas, o programador foi simultaneamente arquiteto, engenheiro e pedreiro: pensava o sistema, desenhava a solução e depois escrevia, linha a linha, cada tijolo de código que sustenta a aplicação. A competência era frequentemente medida pela velocidade e elegância com que se conseguia produzir esse código manualmente, ao ponto de muitos confundirem o ato de escrever código com a engenharia em si.

Com a chegada da inteligência artificial generativa, esta confusão tornou-se evidente. Segundo o Stack Overflow Developer Survey 2025, 84% dos programadores já utilizam ou planeiam utilizar IA, contra 76% no ano anterior, e 51% dos profissionais usam estas ferramentas diariamente. Estudos da GitHub com a Accenture mostram tarefas concluídas até 55% mais depressa, e o Copilot já gera, em média, 46% do código escrito pelos seus utilizadores. Ao mesmo tempo, apenas 29% dos programadores confiam na precisão dos resultados, contra 40% no ano anterior, e 45% consideram que depurar código gerado por IA demora mais do que escrevê-lo de raiz. Estes números, lidos em conjunto, dizem-nos exatamente o que devem dizer: a IA é hoje incontornável na produção, mas insuficiente sem alguém que a saiba conduzir. Ou seja, a IA não substitui o engenheiro, exige-o.

Nada disto, convém dizer, é novo na profissão. Nenhuma engenharia está tão sujeita à mudança como a informática. Aquilo que aprendi na universidade há quinze anos praticamente já não tem expressão no mercado, e boa parte do que aprendi há cinco já é obsoleto. Linguagens, frameworks e paradigmas inteiros foram substituídos várias vezes ao longo de uma única carreira. Um engenheiro civil que se formou em 1995 continua, no essencial, a aplicar os mesmos princípios estruturais que aprendeu; um engenheiro informático da mesma geração teve, ao longo da carreira, de se reinventar três ou quatro vezes. A IA é apenas a expressão mais recente, mais visível e mais comentada dessa mudança permanente, com a particularidade de transformar não apenas as tecnologias, mas a própria forma de trabalhar. Quem se queixa da IA hoje seria, há quinze anos, o mesmo a queixar-se dos IDEs com autocompletar, e há trinta dos compiladores de alto nível. A engenharia informática é, por natureza, uma profissão de reinvenção contínua, e quem entra nela sem essa disposição entra na profissão errada.

Há, contudo, uma dimensão desta transformação que merece destaque próprio: a IA permite hoje que praticamente qualquer pessoa, sem formação técnica, produza uma aplicação funcional. Basta descrever em linguagem corrente o que se quer, e a máquina entrega código que, na maior parte dos casos, funciona. À primeira vista, isto parece o fim da engenharia informática. Na realidade, é a sua melhor demonstração. Há um velho ditado entre engenheiros segundo o qual qualquer pessoa consegue construir uma ponte que se aguenta em pé, mas é preciso um engenheiro para construir uma ponte que mal se aguenta em pé, ou seja, com o mínimo de material, o mínimo de custo e a máxima eficiência. O mesmo se aplica ao software. Qualquer pessoa consegue hoje pedir à IA uma aplicação que funcione; mas fazer uma aplicação que escale, que seja segura, que se mantenha ao longo do tempo, que não desperdice recursos e que sobreviva ao primeiro contacto com o mundo real continua a exigir um engenheiro. A IA não acabou com a engenharia; pelo contrário, tornou finalmente evidente onde ela sempre esteve.

O que está em causa, e merece discussão séria, não é se devemos ou não usar IA na programação, porque essa discussão já foi ultrapassada pelos factos. O que importa discutir é como se forma a próxima geração de engenheiros num contexto em que a parte mecânica do ofício deixou de ser o caminho natural de aprendizagem. Continuamos a ensinar nas universidades, durante anos, técnicas que a IA executa em segundos, e ao mesmo tempo subestimamos as competências verdadeiramente diferenciadoras, que são as de arquitetura, análise de sistemas e pensamento crítico sobre o que a máquina produz. O risco não é a IA substituir os programadores; o risco é formarmos uma geração que nunca aprendeu a ser engenheira, porque continuámos a treiná-la para ser pedreira numa altura em que os pedreiros já não são precisos.

A engenharia informática tem agora a oportunidade rara de fazer aquilo que outras engenharias fizeram há muito: separar a conceção da execução, e devolver à profissão o lugar que sempre lhe coube. Resta saber se temos a maturidade coletiva, dentro e fora da indústria, para aceitar que um engenheiro informático não é menos engenheiro por não escrever cada linha de código, da mesma forma que um engenheiro civil não é menos engenheiro por não assentar cada tijolo.

Cultura: um direito, não um privilégio

Rúben Cabral
Deputado pelo PSD na ALRAA

A cultura é um dos pilares fundamentais de qualquer sociedade desenvolvida. Não é um luxo nem um capricho. É um direito. É através dela que fortalecemos a identidade, o espírito crítico, a coesão social e o sentido de comunidade. Uma sociedade que investe na cultura investe na sua própria maturidade democrática.

Num concelho como o nosso, a promoção cultural deve ser instrumento de inclusão. A cultura aproxima gerações, cria oportunidades e combate desigualdades. Não pode ser encarada como um produto comercial acessível apenas a quem pode pagar.

Defendo — e afirmei-o em reunião de Câmara — que a cultura deve ser tendencialmente gratuita, sobretudo quando é organizada pela própria autarquia. A Câmara Municipal não é uma empresa. Não deve ter como missão gerar receita através da cultura, mas sim garantir que todos os lagoenses tenham acesso às iniciativas promovidas com o seu dinheiro.

Importa, contudo, ser claro: nada é verdadeiramente gratuito quando é financiado pelos contribuintes. Quando falamos de gratuitidade, falamos de acesso sem pagamento direto no momento de entrada, porque o financiamento já foi assegurado pelos impostos pagos pelos cidadãos. E se o esforço é coletivo, então deve, antes de mais, servir quem cá vive, trabalha e paga impostos: os lagoenses.

A Câmara não foi criada para concorrer com agentes económicos privados. Há famílias que dependem da viabilidade dos seus negócios para colocar comida na mesa, incluindo na área da exibição de filmes. Sempre que o poder público entra num mercado onde existem operadores privados, deve fazê-lo com extrema ponderação.

Não sou contra a exibição de cinema. A cultura cinematográfica é importante. Mas se a Câmara decide promover sessões de cinema, então essas sessões devem manter-se gratuitas. Não faz sentido que a autarquia entre numa área que não é a sua vocação natural e, simultaneamente, passe a cobrar bilhetes como se fosse um operador comercial.

Foi recentemente introduzida a possibilidade de pré-reserva por email para as sessões no Cineteatro Lagoense Francisco d’Amaral Almeida. Tal como está, esta solução desprotege os lagoenses. Se qualquer pessoa, independentemente do concelho onde reside, pode garantir lugar antecipadamente, os residentes da Lagoa deixam de ter prioridade numa iniciativa financiada pelos seus impostos.

Defendo que deve existir um mecanismo simples e eficaz que assegure prioridade aos residentes do concelho — seja através de um período inicial exclusivo de levantamento de bilhetes para lagoenses ou outro modelo que garanta essa proteção. Não se trata de excluir ninguém. Trata-se de garantir justiça territorial e respeito por quem financia diretamente o orçamento municipal.

Foi por estes motivos que votei contra o regulamento apresentado. A política exige coerência. E continuarei a defender uma cultura acessível, inclusiva e prioritariamente ao serviço dos lagoenses.

“A cavalo é que vamos bem…”

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA

Há momentos na política em que uma imagem diz tudo.

Um secretário regional, de fato e gravata, em cima de um cavalo, num cenário cuidadosamente preparado, perante uma plateia atenta. É uma imagem forte. Evoca tradição, identidade, ligação ao mundo rural.

Mas também expõe um contraste difícil de ignorar.

A coligação garante que a agricultura nunca esteve tão bem. Mostram gráficos. Dizem que “é só seguir a barra”. Uma posição confortável para quem defende o Governo e o seu partido, mas não defende o setor.

Porque enquanto a política se mostra montada, literal e simbolicamente, a agricultura vai ficando para trás, a suportar o peso de decisões que não chegam, de respostas que não aparecem e de custos que não param de subir, a cavalo é que vamos bem.

O gasóleo agrícola sobe de 1,27€ para 1,63€. Mais 36 cêntimos por litro. Um aumento abrupto, brutal, que atinge os agricultores no pior momento possível, quando estão no terreno, em plena época de sementeiras.

A Federação Agrícola dos Açores não teve dúvidas: é uma “subida escandalosa”.

E não está sozinha. Também a Associação de Jovens Agricultores Micaelenses veio a público alertar para o impacto devastador desta subida, sobretudo para quem está a começar.

Para muitos, isto não é apenas mais um aumento. É o ponto de rutura.

E tudo isto acontece num contexto já pressionado: fertilizantes caros, mercados instáveis, preço do leite ao produtor a descer.

E perante esta realidade, o que temos do Governo?

Justificações. Explicações. Transferência de responsabilidades. Bruxelas. A PAC. As regras europeias.

Mas nada disto é novo. É, aliás, o guião a que este Governo já nos habituou: quando os problemas apertam, este Governo não age, justifica-se.

E assim se vai governando à distância da realidade, e a cavalo é que vamos bem.

Durante os últimos anos, sempre que o preço do combustível subia, o PSD apressava-se a defender o Governo com dois argumentos: que, apesar de tudo, o gasóleo agrícola nos Açores continuava mais barato do que no continente (como se isso servisse de consolo quando a fatura chega) e que tinha sido eliminado o plafon, permitindo aos agricultores consumir sem limite.

Mas hoje, nenhuma destas “bandeiras” resiste à realidade.

O gasóleo agrícola é, pela primeira vez, mais caro do que no continente.

E o fim do plafon? De pouco serve quando o problema não é a quantidade que se pode usar, mas o preço que se tem de pagar.

E quando os argumentos desaparecem, mas os problemas ficam, a cavalo é que vamos bem.

Do lado da República, a resposta também não chega.

Devem aos agricultores dos Açores cerca de 23 milhões de euros de apoios que estavam previstos no âmbito da crise provocada pela guerra na Ucrânia, apoios que faziam falta ontem e fazem ainda mais falta hoje.

Diz o Ministro da Agricultura que esse apoio já veio. Que já foi pago.

Mas o que sabemos é que esse dinheiro não chegou aos agricultores como devia.

Ficou pelo caminho. Serviu para o Governo Regional tapar buracos, o mesmo Governo que desviou 14 milhões de euros da agricultura para outros setores da governação.

E, ao mesmo tempo, acumulam-se os problemas dentro de portas.

Atrasos no pagamento dos apoios regionais.

Prazos que não são cumpridos.

Milhões de euros por aprovar e executar no PEPAC.

Dinheiro que existe no papel e nos discursos, mas não chega aos agricultores.

Mas a cavalo é que vamos bem.

Entretanto, a inflação enche os cofres públicos.

Mais 25 a 30 milhões de euros em receita fiscal adicional.

E a pergunta impõe-se: vai o Governo continuar a arrecadar à custa da crise ou vai devolver esse esforço a quem produz?

Há dinheiro da inflação, mas não há decisão. Há discurso, mas não há resposta. Há presença, mas não há ação.

E voltamos ao início.

O cavalo. O fato. O cenário.

Sem dizer uma palavra, a imagem explica tudo: é o retrato de um momento.

Um setor em crise.

E quem governa… a cavalo.

Trump está a arrastar o mundo para o abismo económico

Álvaro Borges

A guerra no Médio Oriente está a representar um choque histórico nos mercados derivados de matérias-primas. Em março de 2026, registou-se a maior perda na oferta de petróleo alguma vez registada, em cerca de 10 milhões de barris por dia. E parece que não ficará por aqui.

O encerramento do Estreito de Ormuz, combinado com o bloqueio naval pelos EUA, representa uma grande via marítima para a passagem dos navios petroleiros e de gás natural liquefeito, entre 35% e 20%, respetivamente, do comércio global.

O fracasso nas negociações, o risco do rompimento do cessar-fogo entre os EUA e o Irão, a manutenção da paralisação do Estreito de Ormuz, a escassez de matérias-primas e a dependência dos combustíveis fósseis lançam-nos a todos para uma incerteza nunca antes vista.

A recuperar da pandemia, a somar a isto a guerra na Ucrânia, ainda em curso, e o conflito no Médio Oriente levam-nos ao contágio da subida dos índices de preços dos fertilizantes, dos produtos alimentares, metais e minerais, gás natural, metais preciosos e matérias-primas agrícolas.

Este conflito turbulento, iniciado por Donald Trump e por Israel contra o Irão, teve duas consequências e factos indesmentíveis: primeiro, antes o líder supremo do Irão era Khamenei, agora está outro Khamenei; segundo, antes o Estreito de Ormuz estava aberto, agora está encerrado. Vislumbram-se aqui grandes vitórias para os EUA e para o seu aliado Israel, se não lançassem o mundo para um pântano de instabilidade, de choques dinâmicos nos mercados de matérias-primas que afetam as economias globais.

A inflação da Zona Euro, situada nos 3%, e a decisão do Banco Central Europeu de manter as taxas de juro inalteradas em 2% serão difíceis de sustentar na próxima reunião de governadores, caso se mantenha o atual choque geopolítico.

Se tal conflito não for sanado, nem houver estabilidade na região, os preços vão continuar a aumentar.

Como vão as famílias conseguir suportar todos estes custos? O aumento do cabaz alimentar, os preços dos combustíveis em flecha, o aumento do gás natural e as prestações bancárias, se se confirmar o aumento das taxas de juro do BCE na próxima reunião, levam o mundo a uma incerteza sem precedentes, causada por um punho de homens instalado em Telavive e Washington, que mergulhou o mundo num completo abismo sem fim, sem clareza, restando aos países lançar mão de políticas de intervenção na economia, desregulando a concorrência, ou proteger as famílias mais pobres.

Curioso é saber que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro pretende elevar o salário mínimo nacional para 1000€ até 2027. Não nos surpreende, pois, ao ritmo da situação atual, o custo do cabaz alimentar, o esforço económico e o poder de compra das famílias atingem níveis absurdos, em grande parte devido à política circense e irresponsável de Donald Trump.

* O texto teve por base o relatório “Commodity Markets Outlook”, de abril de 2026, da autoria do Banco Mundial

Quando o piloto automático não tem piloto

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

Na semana passada, uma empresa norte-americana chamada PocketOS, que gere reservas e pagamentos para empresas de aluguer de viaturas, perdeu a sua base de dados de produção e todos os backups. Não foi um ataque informático, não foi uma falha de hardware, não foi um erro humano no sentido tradicional. Foi um agente de inteligência artificial, o Cursor a correr o modelo Claude Opus 4.6 da Anthropic, que durante uma tarefa rotineira no ambiente de testes encontrou uma incompatibilidade de credenciais e decidiu, por iniciativa própria, resolver o problema apagando o volume de dados na Railway, o fornecedor de infraestrutura. O processo demorou nove segundos. Quando confrontado com o que tinha feito, o agente respondeu, num tom quase de manual de boas práticas, que tinha violado todos os princípios que lhe tinham sido dados, que tinha adivinhado em vez de verificar, que tinha executado uma ação destrutiva sem ser pedida e que não tinha lido a documentação antes de correr o comando.

A história até tem final feliz, porque a Railway conseguiu recuperar uma cópia mais recente dos dados, mas o fundador da PocketOS, Jer Crane, esteve dois dias sem dormir a tentar reconstruir meses de informação a partir de um backup com três meses e de extratos de transações. E a frase que ficou foi a comparação que ele próprio fez: se pagamos por airbags no carro e eles não disparam porque afinal não existem, a culpa do acidente é nossa? A pergunta é incómoda porque toda a indústria de IA tem vendido salvaguardas, regras de segurança, configurações de proteção, modelos topo de gama com guardrails, e a verdade é que, no momento em que isto interessou, nada disso impediu que nove segundos de autonomia destruíssem o trabalho de meses.

O caso da PocketOS não é isolado, e não é sequer o mais ilustrativo da fragilidade destes sistemas. Em 2023, um utilizador conseguiu manipular o chatbot de um concessionário da Chevrolet. Bastou-lhe dizer ao sistema para aceitar qualquer proposta como legalmente vinculativa, e em seguida fazer uma oferta de um dólar por um carro. O chatbot aceitou e declarou a oferta vinculativa. Não há registo de o negócio se ter concretizado, mas isso é irrelevante. O episódio expõe um problema de fundo: estes sistemas não sabem quando estão a ser enganados. Um agente autónomo não tem instinto de desconfiança, tem apenas instruções, e não distingue entre ajudar e ser explorado. Interpreta indicações, não intenções, segue objetivos, mas não compreende o contexto. E isso torna-o vulnerável a qualquer pessoa que saiba falar a sua linguagem, no que podemos chamar uma nova categoria de burlões algorítmicos, que exploram não as fragilidades das pessoas mas as fragilidades dos próprios sistemas.

No ano passado, uma falha na AWS terá sido causada por uma ferramenta de programação assistida por IA que decidiu apagar e recriar o ambiente do zero. Houve o caso do agente OpenClaw que apagou a caixa de correio do diretor de segurança de IA da Meta. Há relatórios que indicam que menos de 30% dos projetos de infraestrutura de IA acabam por compensar o investimento. O denominador comum não é a tecnologia em si, é a forma como está a ser implementada: agentes autónomos com permissões alargadas, sem confirmação humana para operações destrutivas ou para decisões com consequências reais, integrados em sistemas de produção como se fossem programadores experientes em vez de estagiários muito rápidos.

Aqui chegamos ao que me parece ser o ponto central. As medidas existem. Os modelos têm instruções para não executar ações destrutivas sem confirmação. As plataformas oferecem tokens de API com permissões limitáveis. Existe documentação sobre como separar ambientes de teste e produção. Existem boas práticas de backup que recomendam armazenamento separado da fonte de dados. Existem normas, recomendações, frameworks e regulamentação europeia sobre IA que apontam exatamente para a necessidade de supervisão humana em decisões de alto risco. O problema não é a falta de medidas, é a sua aplicação. No caso da PocketOS, o agente teve acesso a uma chave de API com permissões globais que incluíam operações destrutivas em toda a infraestrutura, quando devia ter tido apenas acesso ao ambiente de testes. Os backups estavam guardados no mesmo sítio que os dados originais, contrariando uma regra básica que se aprende no primeiro dia em qualquer formação de sistemas. E não havia um humano no circuito para confirmar a operação antes de ser executada.

A pressa em substituir o humano pela máquina, ou em retirar o humano do circuito de decisão para ganhar eficiência, é o erro estrutural desta fase da adoção da IA. A própria Amazon admitiu recentemente que precisa de mais supervisão humana sobre o código gerado por IA, mas no mesmo fôlego sugeriu que essa supervisão fosse feita com menos pessoas, o que é mais ou menos como dizer que se quer mais segurança nas estradas com menos polícia. Um chatbot que vende um carro por um dólar é uma anedota tecnológica, mas um algoritmo que recusa um crédito ou exclui um candidato a emprego com base em padrões opacos é uma coisa diferente, e a IA generativa não é só ferramenta de programação ou de atendimento ao cliente, está rapidamente a entrar em processos de decisão que afetam vidas. Quando confundimos processamento de dados com compreensão da realidade, e delegamos a sistemas que ignoram o contexto humano decisões que exigem precisamente esse contexto, a ausência de supervisão deixa de ser uma escolha técnica e passa a ser um risco sistémico. Os burlões algorítmicos não são o problema maior, apenas expõem a nossa preguiça moral, a escolha consciente de confiar o tecido das nossas sociedades a máquinas que, por definição, são incapazes de se importar com as consequências do que decidem.

A regulamentação europeia, com o AI Act, já classifica como sistemas de alto risco aqueles que tomam decisões com impacto material sobre pessoas e organizações, e exige supervisão humana significativa. O problema, como em quase tudo, não vai ser ter a lei escrita, vai ser fiscalizar a sua aplicação. Diz o ditado popular que “quem os seus olhos dá, um dia chega a cego”, e é exatamente isso que está em causa: ter um humano envolvido não é um obstáculo à inovação, é a única coisa que separa uma ferramenta poderosa de uma máquina capaz de apagar uma empresa em nove segundos, ou de aceitar vender um carro por um dólar, enquanto pede desculpa em tom educado. Não podemos dar os nossos olhos à inteligência artificial, por muito tentador que seja deixar que ela veja por nós.

Muito obrigado

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Por opção própria, ponderada e pensada, vou sair da Lagoa, minha terra, para ir trabalhar e viver noutra zona do país, já a partir de agosto, o que implicará, suponho, um afastamento inevitável.

A decisão de não ficar, de ir, de procurar outros horizontes, de alargar horizontes profissionais e geográficos, surge bem no meio de um contexto de particular relevância – o mundo está a mudar de forma perigosa, sem dúvida, e novos desafios são exigidos a cada ser humano e, no fundo, a cada profissional.

Dediquei, posso dizê-lo, grande parte da minha vida até hoje a divulgar, a partilhar as gentes, os contextos e a história desta terra, que agora me vê partir, sempre num espírito de profunda humildade e de superação constante – exemplos são os meus livros e contributos para a historiografia local. O meu mais recente contributo, para além da já publicada Trilogia «Filhos e Servos», e de um mapeamento de lagoenses notáveis, é o Livro de Ouro do Poder Local Democrático.

Foi na Lagoa que me fiz poesia – e que, na poesia, me tornei poeta.

Foi ainda na Lagoa que ganhei a minha primeira namorada; foi na Lagoa que aprendi a jogar à bola e a andar de bicicleta, a esfolar os joelhos no chão, bem me lembro, entre a Rua Augusto Manuel de Freitas e a Rua Eduardo Gago Machado de Faria e Maia, sempre com o incentivo e o «puxão» do meu Avô António.

Foi na Lagoa, entre memórias boas e más, que me formei, primeiro como cidadão, depois como estudante de mérito na Secundária: na Escola Básica Integrada de Lagoa, sou do tempo da educadora do pré-escolar «São», a primeira professora que tive, aquela que se pronuncia apenas com uma sílaba – «São» – chegando-se, depois, ao primeiro ano, entre medos e ansiedades e ataques de pânico diversos, onde tive a gentil professora Rosa, depois a competente professora Marisa e, por fim, a humana e empática professora Ana Margarida Rocha. Não me posso esquecer do Professor de Educação Física na EBI de Lagoa – o notável professor Gilberto.

Na primária, embora sejam ténues e vagas as memórias, ganhei os meus primeiros melhores amigos: o Rodrigo Correia foi um deles, entre outros; e, no fundo, foi na Primária que convivi com os meus três sempre presentes amigos imaginários até ao seu desaparecimento súbito.

A gratidão é a memória do coração.

Do ensino preparatório, lembro-me, na Escola do Fischer, a saudosa e mulher de rigor e de princípios, a competente e muito humana professora de Matemática, e minha antiga vizinha e Diretora de Turma, Leopoldina Trindade.

Lembro-me de outros tantos docentes que muito prezo: entre o professor Silveira, ao ilustre professor Vítor Simas, de Educação Física, na Escola Secundária, à professora Beatriz, de Português, na Secundária também, lembro ainda a professora Lúcia Ventura – de Matemática Aplicada às Ciências Sociais.

Tive imensos bons professores, competentes professores e educadores, e sou-lhes grato pela pessoa que sou, pelo ser humano, formado, que sou – eu, hoje, também sou professor, educador, ou gostaria, nesse sentido, de ser um – um como vós todos.

Na Universidade dos Açores, durante a Licenciatura, cruzei-me com mentes absolutamente excêntricas e extraordinárias: o Doutor Eduardo Jorge Moreira da Silva, de Introdução ao Estudo da Cultura, entre outros tantos, foi um dos que, para o bem e para o mal, mais me marcou – citando, neste caso, docentes como Maria do Céu Fraga ou Leonor Sampaio Silva, entre outros.

Da Lagoa, levo também amizades, entre outros amores e desamores.

Levo o meu grande amigo João Vítor Ponte, lagoense, organizador de eventos por excelência, e competente e formado comunicador; levo, no coração, a minha amiga Cátia, bem como outros tantos amigos – levo, sem dúvida alguma, o Clife Botelho, ex-diretor do jornal local, e o Diário da Lagoa, jornal local; levo o Norberto Silveira e, mais do que isso, levo a paciência que tantos e tão poucos tiveram para comigo: ao senhor José Carlos Almeida, que sempre que me vê cumprimenta, ao senhor Lauriano Teixeira, ao senhor Fernando Jorge, aos amigos e amigas, aos jovens e jovens com quem me cruzei; às associações locais que fundei e dirigi, e onde conheci imensas pessoas. O meu muito obrigado a todos eles e a todas elas por tanto.

Foi também na Lagoa que aprendi a conduzir e onde tirei a carta de condução – e, a isso, devo muito às lições de condução do Senhor Jaime.

Levo as marchas de Santo António, em particular os «Amigos do Rosário», e, no fundo, levo as pessoas que me salvaram de um poço bem fundo – como é exemplo o Padre Nuno Maiato, que, numa altura de absoluta escuridão, fez-se Luz em mim e no meu Caminho.

Com uma saudade imensa, mesmo ainda que não tenha partido, levo pessoas, gentes, levo olhares, levo corações. Levo, acima de tudo, memórias boas e boas memórias. De coração cheio, e com a gratidão a saltitar cá dentro, digo, a todos, a quem muito devo, muito obrigado.