
Beatriz Moreira da Silva
Como o sol está para a lua,
em sintonia d’encontros;
Que nunca se perdem,
d’efémeros pontos.
Enriquecedor e terno momento,
quando se ouvem corações em ritmos diferentes;
Assim como o sol está pra’lua;
Sempre presente.
Conduzir em obscuro,
espelhando a força d’existência;
Exigindo resiliência;
Amando em cada sequência.
D’infinito a incondicional,
engolindo a vulnerabilidade exposta;
Tal como o sol está pra’lua,
só fazem sentido os dois para sempre.

Beatriz Moreira da Silva
Eu nasci na freguesia de São José,
na Ilha de São Miguel;
como a maioria d’écada,
ao limite dos anos noventa.
Cobertos d’basalto,
embebidos em sal d’mar alto;
Sou da Costa Norte,
prezo a sorte d’bravura d’gente do mar.
Eu dei trabalho a crescer,
demorei a entender onde pertencia por fim;
Agradeço aos Professores em maioria dos Açores,
por me fazerem acreditar d’que é possível ir além de sonhar .
Eu, como os escritores, atores e encenadores,
somos alvo d’gozo de espectadores d’bancada;
Afinal quem gosta de poesia, de um papel ou de um guião d’entrada?
se calhar não sabeis a vossa estrada.
Nós não pedimos Hollywood,
nem aplausos d’salto alto para continuarmos por aqui;
Agradecemos apreciação d’quem sabe sentir com os pés no chão,
d’gente intensa que nunca nos abraça sem emoção.
Permaneceis sem saber que continuamos sempre a aprender,
a estudar antes de vos vir falar;
Agradecemos o conforto antes da decomposição do nosso corpo;
outrora chegarão em vão com lamúrias do que fizemos com respiração.
Estimamos o silêncio que nos faz pensar,
d’que nunca podemos deixar de entoar;
Nós precisamos de vos ensinar o que vai além da depreciação d’loucura;
seremos sempre humanos intensos, emergentes no amor de criar.
D’repente no hall de entrada,
d’onde a porta tanto se abre como encrava;
Soou-me em subtileza,
enaltecer a certeza d’onde quero e sei estar.

Júlio Tavares Oliveira
Estou a comercializar um novo livro, ‘Quadro de Domingo à Mesa’, um livro que, de si, reproduz um conjunto de poemas que vão beber ao íntimo de cada Família – um pouco ao estilo do poema que lhe dá nome e razão ‘Quadro de Domingo à Mesa’, dedicado, este ‘A todas as famílias’. Na verdade, este poema subjaz uma máxima fundamental: que, entre todas as famílias, ocorre, a dada altura, uma quebra, uma separação, um vínculo de despedida ou de partida que, muitas vezes, sem nos apercebermos anuncia a morte ou o fim de qualquer coisa.
Nas famílias o nosso Lugar à Mesa pode vir a estar sempre ocupado e ser de facto insubstituível: mas quantos de nós já não estamos lá, realmente? Mas quantos de nós desejaríamos voar, partir dali para outro lugar e assentar o nosso voo, quiçá, noutro Domingo, noutra Mesa, noutra Família?
Esses desejos, que nos surgem, são rápidos, vorazes, instantâneos e, muitas vezes, inconscientes. Contudo, podem denunciar algo bastante mais profundo: a nossa necessidade de renovação e de desprendimento. A necessidade de renovar esse vínculo à Família, a nós mesmos, e aos outros.
‘Quadro de Domingo à Mesa’ vai buscar a essa necessidade uma nova premente Luz – a importância da renovação do vínculo familiar, da Família, de nós e da nossa relação com a Família, usando, e dispondo, de um meio em particular: da Mesa e do nosso lugar à Mesa.
A Mesa, essa, cada vez mais desusada, cada vez mais extorquida, cada vez mais violada pelos iphones ou pelos tablets, ou sequer, se for, cada vez mais atormentada pelas discussões, pela violência ou pelo silêncio ensurdecedor. A Mesa, em família, cada vez mais vazia e despovoada – mesmo que cheia de gente. A Mesa, aos Domingos, cada vez menos sentida e menos significante para o seu real significado.
Este livro pretende, entre tantos sentidos, usar e dispor de um sentido real, que é o de dar um novo, e importante, valor à Família, à sua instância, enquanto Lugar de princípio, de valores e de significados: porquanto se perda o seu amor pelo caminho tantas e tantas vezes na bruma das circunstância, e o pão arrefeça nas nossas mãos, ou a comida queime no forno de distração, não percamos a esperança naquilo que é verdadeiramente fundamental. A Família, a nossa Família, a única que temos.
Sendo um livro ‘Quadro de Domingo à Mesa’ com um pendor saudosista, tanto ou quanto com um caminho, longo caminho, ainda, a percorrer, na sua demanda em chegar realmente aos seus leitores, entendo, pessoalmente, que este livro de poesia congrega valores de memória, de paixão, de sentimento, de união, de esperança e de fraternidade que, uma ou outra vez, convocam até o Passado ao Presente -numa saudade, ou nostalgia podemos dizer, do Impossível ou do Perdido.
Aos leitores que queiram adquirir este pequeno e humilde livro de poesia ‘Quadro de Domingo à Mesa’, podem fazê-lo via mensagem privada através de mim, seu autor.

O Dia Mundial da Poesia vai ser assinalado na Biblioteca Municipal Ernesto do Canto, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, no próximo dia 21 de março.
Trata-se de uma iniciativa da Câmara Municipal de Ponta Delgada que pretende “promover junto dos jovens, tanto este estilo literário, como os poetas açorianos”, refere a autarquia em comunicado.
No dia em que se celebra a Poesia vão ser entregues, entre as 10h00 às 18h00, poemas aos utilizadores da biblioteca, com idades compreendidas entre os 10 e os 14 anos. O objetivo passa por recordar “os poetas que fazem parte da sociedade açoriana e que enriquecem a literatura regional”.
Posteriormente, os referidos jovens serão desafiados a elaborar um poema que será sujeito à apreciação e votado pelas colaboradoras da Biblioteca Municipal.
Os autores dos três poemas mais votados recebem um livro oferecido pela autarquia, com vista “a desenvolver hábitos de leitura e despertar o interesse pela escrita”.

Beatriz Moreira da Silva
E se nunca déssemos as mãos,
entrelaçar os dedos no calor;
E se fôssemos só nós,
perdidos nos ponteiros do relógio.
E o tempo que nos passa pela sombra,
não daríamos conta;
Nem saberíamos os arrepios de perto,
que com o toque desaparece.
E se déssemos só uma mão,
ao primeiro embale caíamos no chão;
Um de nós firme embora o impulso,
outro deitado destruído no fundo do poço.
E se déssemos as duas mãos,
devagarinho de mansinho entrelaçadas;
Firmes d’hirtas e inderrubáveis;
seríamos a construção mais bonita e sólida de um simples para sempre.

Beatriz Moreira da Silva
Eu não pertenço aqui,
não reconheço caras ou feições de figurinos anfitriões;
Não conheço a instância da conexão,
alheia de quem sorri na imersão do aceitável.
Sob reflexo d’basalto,
nem reconheço os caminhos;
Talvez nunca tenha concebido direções,
mediante a necessidade constante de não tirar os olhos do chão.
Eu não pertenço ao limite,
do permissível e d’outrora aceitável;
Nem sei onde pertenço,
apenas consinto o que penso.
Eu nunca sei onde vou,
apenas sei como aqui estou;
D’leme ao d’vento,
Sei quem eu sou.

Beatriz Moreira da Silva
A nossa conversa interna, que se produz de dentro para fora. A que nos deixa no
zumbido, relembrando-nos constantemente de que não nos podemos perder de vista.
Ninguém quer se perder de vista!
O corpo pede calma, silêncio, contemplação, enquanto a alma grita por urgências,
objetivos, propósitos. E se nos quisermos perder? E se quisermos ultrapassar as
margens do suposto? Ninguém se ofende pelo apego! Ninguém se reencontra sem se
perder nos seus medos! Ninguém!
E que necessidade temporal é essa de não se falar? É uma descrença e despreocupação
aparentemente compartilhada sob um molde.
O desassossego só termina quando chegar o abraço da oportunidade. Não é a
oportunidade! É o lance que daremos sobre ela, na primeira pessoa do singular.
Ecoarão certezas irrefutáveis que antagonizam o ensurdecedor e a calma.
A autenticidade será sempre recompensada com a leveza que, por si só, desentrelaça
tempestades, furacões ou tornados, e creio que se puxarmos o fio do nó, ofegante de
explicação, de suspiro pendente do desenrolar do que nos entope a alma, faz-se magia.
É urgente ser intenso em tudo o que se toca, em tudo o que se faz. É urgente renovar
a esperança de que o que é para ser teu, assim o será!

Beatriz Moreira da Silva
De todas as verdades que se contam em prosa, há uma realidade paralela, que se cruza nos entre laços daquilo que escolhemos, porque no lado paralelo da vida, há quem nos salve e por vezes seguir em reta é o fim.
Como desde o início em diante seguíssemos sem pontos parágrafos, em estátuas congeladas sem sentido.
Na prosa, surgem emoções de um intrínseco mais ou menos inerente, eloquente, daquilo que nos está na garganta em nó. Como nos sonhos corremos entre forças que nos prendem e nunca há previsão da meta, como caímos de um precipício lentamente sem lesão, sem dor, mas com marca. Continuamos, porque entre viver na prosa e escrever prosa há sempre algo que nos separa, que nos distingue, que nos aflige em limites de caracteres. Como se a tinta acabasse em segundos dos anos que temos por escrever: Não é um dom! É ser humano! É saber as nossas fragilidades enquadradas nas de entre outros. É saber que será lido e revivido ao ritmo de cada um, em compassos diferentes, mas que toca no ponto mais profundo da alma ainda que emersa e desprovida.
Na prosa, somos psicólogos heterónimos. Suscitará sempre algo incomum aos olhos de quem não sabe sentir ou fingir, de quem questiona se imagina ou se sonha, se cala ou consente.
Em prosa, haverá sempre um sexto sentido, um arrepio, um suspiro que nos fará ficar em silêncio entre o texto e os holofotes.
De prosa se fazem pensamentos que temos no silêncio, comuns aos entre nós, porque só se erguem os vivos e quem já foi não volta mais.

Beatriz Moreira da Silva
Um dia destes vou contar-te uma história,
d’onde era fácil encenar a sorrir;
Esboço d’uma fase repulsa de memória,
q’não devia ter durado nem perto de meia hora.
Batucos soarão que não estava sozinha,
chorando gritos sem escrúpulos mascarados de marfim;
Calmaria não confronta, não embala nem demonstra,
sobrepôs-se devaneios por pensar em mim.
Aterramento d’falhar naquela porta,
d’onde ojeriza tudo o que nunca nos fez deixar por um fim;
Não valeu o esforço mascarado de remorsos,
d’que já não importa nem retorno por um triz.
Soçobrar lentamente num vazio,
q’de copo cheio mereceu partir;
D’bocados putrefatos não se mendigam caminhos,
fétidos intoxicam o advir.
Nas cicatrizes diagrama de vitória:
E agora? Onde começa a história?
Já não importa!

Beatriz Moreira da Silva
Cansaço de receitas caseiras,
decorar auto diagnósticos;
Mesinhas de cura,
prescritas de outros tempos.
Trocar os planos c’mundo a desabar,
agarrar mãos antes do dia acabar;
Egoísmo incomodar,
por não se saber acomodar.
Chega de mansinho e pequenino,
difícil ser colo de alguém:
Quem nos preparou?
Ninguém nos contou!
Preocupação constante,
que arde em cada mísero aranhão.
E nós? Caladas na solidão,
lendo cores d’coração.
Correr no sufoco d’saber se respira,
não dormir angustiada,
porque te sentes noite e dia:
Coitada está perdida!
Ingratidão com comparações,
que não equivalem milhões;
De bom senso guarde opinião,
fique com ela na sua tradição.
Ser mãe é não saber estar de folga,
correr a toda a hora mesmo que ninguém te reconheça;
Estás mais bonita após maternidade!
E antes não tinha qualidade?
Maior benção da vida,
não te tira alma nem te coloca ira;
Se te portas fecharem,
agradece o desapego de quem nunca vai entender o que é ser amigo no desespero.
Tomar conta do mundo na eterna e mais vincula responsabilidade,
de amparar, acartar e consolidar;
Embalar d’consolo sob efeito de amar, de enraizar emoções e recordações,
que no futuro serão performance do teu trabalho, mesmo que te digam que falhaste.
Se vos parece um monólogo é assim que nos sentimos quando vos falham os olhos.