
A infância tem um tempo próprio, feito de rituais simples, de cheiros a açúcar acabado de pesar e de passos miúdos a ecoar em escadas de madeira. É desse tempo que guardo a memória da minha irmãzinha Lina — a nossa Lina Manuela — levada cedo demais, aos 38 anos, há já 26. Mas há infâncias que não morrem. Ficam suspensas, intactas, como se ainda descessem as escadas aos saltinhos.
Tínhamos um cãozinho chamado Tim, nome roubado às aventuras de Enid Blyton, cujos livros eu lia e colecionava com devoção. Depois passava-os ao Duarte e à Lina, mais pequenos, para que também viajassem por aqueles mundos de mistério e coragem. Assim crescíamos: entre páginas folheadas com cuidado e latidos felizes no quintal.
As nossas brincadeiras começavam — e quase sempre acabavam — na mercearia do nosso pai, a lendária “A Cova da Onça”. Ali aprendemos a ser gente. Eu fazia de caixeiro de balcão; o Duarte enchia saquinhos de meio quilo e de quilo de açúcar com uma concentração de homem feito; e a Lina era a cliente, entrando e saindo com a seriedade divertida de quem representa um papel importante.
Antes de irmos para a rua — fosse para os quintais dos amigos, fosse para o nosso — passávamos sempre pela mercearia para tomar a bênção ao nosso pai. Era um gesto antigo, aprendido desde que começámos a falar, desde que percebemos que éramos gente deste mundo. De manhã e à noite. Todos os dias. Sem falhar.

A vida girava em torno daquela porta aberta para a rua, naquela vila que não tem comparação: Água de Pau. Ali conheci o mundo rural, o povo e as suas histórias, as vozes que se cruzavam ao balcão, as mãos calejadas do trabalho, os silêncios cheios de significado e de resignação antiga. É dessa seiva viva que nascem os meus livros, Antes Que A Memória Se Apague – Crónicas de Água de Pau, volumes I e II, e o III que verá a luz neste ano de 2026. Porque há terras onde, se as pessoas não querem — ou não sabem — contar a sua história, a própria terra a conta por elas. Basta caminhar pelas suas ruas e as perguntas e as respostas caem em catadupa. Em cada rua há um fontanário que ora une duas artérias, ora as divide ao meio; em cada porta há um artesão ou uma tecedeira, um mestre de alguma — ou de toda — a obra: da carpintaria, da pedra, da pintura; um antigo caiador de cal branca nas fachadas, um sapateiro de sola gasta, um moleiro de farinha no ar, um padeiro de madrugada acesa.

E as alcunhas — essas metáforas vivas da identidade popular, esses vocábulos que são património oral — Urbano Escorrega, Zé Vira-o-Bolo, Mané Arranca-Tocas, Zé-Bela-Areia, Serafim Gaiafo, António Pim-de-Leite, Laracha, Virgínio Arrepiado, Guilherme Cadela, Zé Borges Carranca, Zé Elias Pinguinha, Zé dos Pulinhos… nomes que são já narrativas inteiras, pequenas crónicas ditas de boca em boca, onde a palavra levanta reputações ou as derruba, emociona corações ou fere suscetibilidades. Porque numa terra assim, a palavra é património: pesa, constrói, eterniza. E, ainda assim, há uma diferença essencial quando essa palavra nasce da inocência.

Foi ali, num desses dias iguais a tantos outros, que a magia da palavra se revelou. A Lina teria sete ou oito anos. Desce as escadas aos saltinhos, agarrada ao corrimão de madeira que ligava a casa à “Cova da Onça”. Vai direita ao nosso pai para lhe pedir a bênção. Ele conversava com um antigo amigo do Liceu de Ponta Delgada. Aproxima-se, beija-lhe a mão e a face — como mandava o ritual — e, depois de observar atentamente o senhor que o acompanhava, dispara com a frontalidade luminosa da infância:
– O senhor tem um nariz tão comprido, não tem?
O meu pai ficou visivelmente incomodado. O amigo, porém, manteve a serenidade:
– Não… isso então é que não tenho!
A Lina, intrigada, insiste:
– Ah, não tem?
– Não, querida. Estás a confundir tudo. Eu não tenho o nariz comprido. O que eu tenho é a cara recuada!
– Ãhn!!
E ficou por ali. Não percebeu, mas também não se demorou. Virou costas e foi a correr para o quintal, onde o Tim a esperava para mais uma aventura.
E é aqui que o título ganha corpo e verdade. A palavra pode ferir quando nasce do orgulho, pode derrubar quando nasce da malícia, pode emocionar quando nasce do amor — mas, na boca de uma criança, ela não pesa, não calcula, não mede consequências. Ela é pura. É espelho. É verdade sem intenção de magoar.
A Lina não quis ferir. Apenas viu e disse. E nessa simplicidade reside a magia. A inocência não conhece diplomacias; conhece apenas o mundo tal como o enxerga.
Hoje, ao recordar a sua partida em março de 2000, e a do nosso pai em março de 1982, percebo que as palavras permanecem. São elas que levantam a memória, que impedem que o tempo derrube o que fomos.
E enquanto houver palavra — e memória — a Lina continuará a descer as escadas aos saltinhos, agarrada ao corrimão, pronta a dizer ao mundo, sem filtros e sem medo, aquilo que vê.
Porque, sim:
A palavra levanta ou derruba, emociona ou fere — mas da boca duma criança, tem magia.

A Vila de Água de Pau reafirma-se como o coração do artesanato concelhio com a inauguração, no Auditório Ferreira da Silva, de dois projetos que homenageiam a identidade material e imaterial da Lagoa. A exposição “Fibras Vegetais” e o documentário “Memórias da Água” surgem como ferramentas de preservação de um legado que moldou o território e a vida das populações locais ao longo de gerações.
A mostra “Fibras Vegetais” é o resultado de uma residência artística de Sofia de Medeiros, que mergulhou nas oficinas dos artesãos Alcídio Andrade e Lurdes Couto para criar seis peças inéditas. O projeto destaca a vitalidade da arte cesteira, do trabalho em folha de milho e da espadana, matérias-primas que outrora nasceram da necessidade e que hoje ganham uma nova dimensão estética. Segundo uma nota enviada pela autarquia lagoense à redação, esta iniciativa valoriza não apenas o resultado final, mas todo o processo criativo assente em práticas que respeitam os ritmos da natureza.

Presente na inauguração, o presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, destacou o significado cultural da simbiose entre artistas e artesãos. “Esta mostra valoriza um património que está vivo, que une gerações e que respeita os ritmos da natureza”, afirmou o autarca, citado no comunicado da autarquia. Frederico Sousa enalteceu ainda o trabalho de Alcídio Andrade e Lurdes Couto, apelidando-os de “guardiões de alguns dos saberes tradicionais da nossa terra”.

A par desta valorização manual, o documentário “Memórias da Água” oferece uma viagem visual ao passado da comunidade. Construído a partir do espólio fotográfico de Roberto Medeiros, o filme resgata vivências coletivas e histórias de um tempo em que a água era o motor central do trabalho e da organização social na Lagoa. Sobre esta obra, o presidente da edilidade salientou que se trata de “um testemunho essencial da nossa identidade coletiva”, garantindo que as novas gerações compreendam a riqueza do seu passado.
Ao elevar os artesãos locais ao estatuto de protagonistas, estes projetos asseguram que as técnicas ancestrais continuam a ter lugar no futuro da região, transformando a tradição numa semente para novas experimentações artísticas e reforçando a coesão social da vila.

O Auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau, inaugura na próxima sexta-feira, 6 de março, pelas 18h00, a exposição «Fibras Vegetais», da artista Sofia de Medeiros, e apresenta o documentário «Água de Pau: Memórias da Água», com base no espólio fotográfico de Roberto Medeiros.
O anúncio foi feito pela Câmara Municipal da Lagoa e revela que a exposição resulta de uma residência artística em colaboração com os artesãos lagoenses Alcídio Andrade e Lurdes Couto, focada na exploração e valorização das fibras vegetais, matéria-prima inserida no projeto municipal «Entrelaçar Fibras Vegetais».
De acordo com a autarquia lagoense, o projeto foi criado com o objetivo de garantir a sustentabilidade e preservação da arte do entrelaçado com fibras vegetais, valorizando os saberes tradicionais transmitidos de geração em geração e o conhecimento das plantas e dos seus ciclos. Assentando em matérias-primas de maior expressão no concelho da Lagoa, como o vime, a espadana e a folha de milho, o projeto visa assegurar a transmissão destas técnicas e incentivar o surgimento de novos artesãos, face à redução do seu número atualmente.
O projeto estrutura-se em dois eixos: um dirigido à comunidade em geral e outro à comunidade escolar do concelho de Lagoa. No eixo escolar, a arte de entrançar fibras vegetais integra a disciplina de Educação Tecnológica do segundo e terceiro ciclo, sensibilizando os alunos para a sua importância e promovendo competências técnicas e criativas.

O documentário «Água de Pau: Memórias da Água» é um registo audiovisual que recupera histórias, vivências e identidades locais através das imagens da coleção fotográfica de Roberto Medeiros. Este trabalho constitui um importante testemunho visual da comunidade pauense e da sua evolução ao longo do tempo, propondo uma reflexão sobre a fotografia enquanto instrumento de memória e identidade coletiva.
O documentário abordará numa primeira parte o colecionismo e o papel do colecionador na construção da memória social. Numa segunda parte, através da coleção fotográfica, destaca a importância do elemento água na história da vila, explorando dimensões como vida, espiritualidade e património, e reforçando o sentimento de pertença da comunidade à sua terra.
Este momento cultural pretende afirmar-se como um espaço de encontro entre arte contemporânea, património e memória coletiva, reforçando a criação artística enquanto instrumento de preservação e valorização da identidade local. A entrada no Auditório Ferreira da Silva será livre.

A história recente do concelho da Lagoa constrói-se tanto no seu território como além-Atlântico, através da sua diáspora organizada nos Estados Unidos da América. Os lagoenses emigrados na Nova Inglaterra têm desempenhado, ao longo de décadas, um papel determinante na preservação da identidade cultural, na promoção do concelho e no fortalecimento das relações institucionais entre a Lagoa e as comunidades norte-americanas.
Um dos momentos fundadores desta relação ocorreu a 11 de abril de 1990, quando Halsey Herroshof, administrador do concelho de Bristol, Rhode Island, se deslocou à Lagoa para assinar o protocolo de geminação com o Presidente da Câmara Municipal, Eng.º Luís Alberto Martins Mota. Durante essa visita oficial, Halsey Herroshof e o seu assistente ficaram hospedados na Caloura, na Vila de Água de Pau, em casa do Vice-Presidente da Câmara, Roberto Medeiros, num gesto simbólico de hospitalidade e proximidade institucional.
No âmbito desta geminação realizaram-se diversas visitas e iniciativas culturais no concelho da Lagoa, nomeadamente à Cerâmica Vieira e aos museus da Tanoaria, do Alambique, da Tenda do Ferreiro-Ferrador, da Cestaria e da Tecelagem. O administrador de Bristol participou ainda, juntamente com os autarcas lagoenses, na Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, e em atividades culturais com o Grupo de Teatro e de Folclore Jovem Pauense.
Em julho de 1990, o Presidente e o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Eng.º Luís Martins Mota e Roberto Medeiros, deslocaram-se aos EUA para participar, na vila irmã de Bristol, na histórica Parada do 4th of July, comemoração maior da Independência dos Estados Unidos. Estas deslocações e receções oficiais motivaram os imigrantes lagoenses radicados na Nova Inglaterra a organizarem-se, sentindo a necessidade de criar uma estrutura representativa que dignificasse o concelho e a comunidade emigrante no país que os acolheu. Esse objetivo viria a concretizar-se em 1996, com a criação da Associação dos Amigos da Lagoa da Nova Inglaterra, também conhecida como “União do Concelho da Lagoa”.
Presidida inicialmente por José Francisco Pires, natural do Rosário, e mais tarde por Maria Tomásia, da Ribeira Chã, a associação assumiu-se como uma verdadeira ligação entre o Município da Lagoa e a sua diáspora, acolhendo autarcas, empresários, filarmónicas, ranchos folclóricos, grupos corais, artesãos e promovendo intercâmbios culturais e escolares. Destacou-se igualmente a valorização de tradições identitárias, como a arte do presépio lagoense, cuja produção remonta a 1862.
Um dos símbolos mais marcantes desta cooperação foi a inauguração, a 10 de junho de 1997, do “Mosaico Park”, em Bristol, uma praça em pedra basalto, executada em calçada portuguesa, desenhada pelo artista imigrante José Manuel Soares, antigo funcionário da Cerâmica Vieira. Para a sua concretização, a Câmara Municipal de Lagoa enviou o calceteiro João Luís Cabral, que executou exemplarmente o trabalho no cruzamento da Frank com a Wood Street, num projecto coordenado por Roberto Medeiros, pela Lagoa, e Frederico Pacheco, pela Bristol Town Hall.
Ao longo dos anos realizaram-se vários convívios dos Amigos da Lagoa, com a presença de autarcas e empresários do concelho. O último teve lugar em 2009, quando, a propósito de um pedido de apoio para o novo carrilhão de sinos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Roberto Medeiros mobilizou a comunidade emigrante, resultando na oferta de 16 000 euros pelo empresário James de Melo, de New Bedford, cujo nome ficou perpetuado na torre da igreja.
Após esse período, a atividade da associação entrou em pausa. Contudo, a 17 de janeiro de 2026, surgiu um novo impulso para a sua retoma, com uma nova direção e uma visão estratégica renovada. José António Pires foi indicado como novo presidente, reunindo já mais de uma dúzia de imigrantes lagoenses e outros a serem mobilizados.
José António Pires, David Loureiro, Maria Tomasia, John Ferreira, José Amaral (Amaral Buses), Fernando Benevides (Portugalia Marketplace) e outros lagoenses e amigos comunitários, continuaram desde 2010 até a atualidade a dar apoio a Roberto Medeiros, que após a sua atividade autárquica assinou protocolos de colaboração, no dia 5 de novembro de 2009, no Salão Nobre da New Bedford City Hall, com 54 instituições luso e americanas, continuando assim a realizar por iniciativa própria intercâmbios culturais e escolares entre escolas, professores e grupos de cantares que o acompanharam dos Açores e da Lagoa aos EUA.
Dito isto, o objetivo desta nova fase é claro: unir de forma estruturada o Município da Lagoa, a diáspora organizada nos EUA e as sete cidades irmãs — Bristol, Dartmouth, New Bedford, Fall River, Rehoboth, Taunton e Fairhaven — promovendo cooperação institucional, cultural e comunitária. Pretende-se, nesse âmbito, convidar uma delegação oficial da Câmara Municipal de Lagoa, liderada pelo seu Presidente, Frederico Sousa, para o próximo Convívio dos Amigos da Lagoa e para um novo ciclo de iniciativas conjuntas.
Com esta retoma, os Amigos da Lagoa reafirmam-se como uma ponte viva entre continentes, honrando o passado, reforçando o presente e projetando o futuro do concelho no espaço internacional.
Importa ainda recordar que Roberto Medeiros, graças ao patrocínio da família de Fernando Benevides, mantém desde 2014 uma ação cultural contínua e de elevado valor identitário nos Estados Unidos, promovendo a arte bonecreira e a tradição secular dos Presépios da Lagoa. Esta iniciativa concretiza-se através das exposições anuais “Vilas Presépios”, realizadas no estabelecimento Portugalia Marketplace, na cidade de Fall River, reunindo centenas de figuras em barro moldadas por bonecreiros lagoenses, com especial destaque para António Morais, de quem foi adquirida a maior coleção de bonecos por si criados. Estes eventos tornaram-se uma referência cultural junto das comunidades lagoenses e luso-americanas, afirmando a Lagoa como território de património artístico vivo. Neste percurso, os lagoenses José António Pires, Teresa Baganha e David Loureiro têm sido verdadeiros baluartes no apoio logístico e comunitário, contribuindo de forma decisiva para a concretização dos projetos coordenados por Roberto Medeiros e para a contínua valorização da identidade lagoense além-fronteiras.

DL: Como é que correu a exposição do Diário da Lagoa nos EUA?
A exposição correu de forma extremamente positiva e com grande impacto junto da comunidade luso-americana. A exposição “Diário da Lagoa – 11 anos de Jornalismo e Desafios” teve o seu momento mais marcante no dia 5 de dezembro, pelas 18h00, na Portugalia Marketplace, em Fall River, coincidindo com a inauguração do Presépio da Lagoa.
Este espaço emblemático, reconhecido como verdadeiro ponto de encontro da comunidade portuguesa, recebeu importantes dignitários, entre os quais o presidente da Casa dos Açores em Fall River, o cônsul de Portugal em New Bedford e representantes das sete cidades irmãs de Lagoa nos EUA: Fall River, New Bedford, Rehoboth, Fairhaven, Dartmouth, Taunton (Massachusetts) e Bristol (Rhode Island).
Marcaram também presença muitos lagoenses, emigrantes, amigos e clientes da Portugalia, bem como o artesão-bonecreiro do Museu da Lagoa, cuja deslocação foi assegurada pela SATA Air Açores. A Câmara Municipal de Lagoa esteve representada não só por este artesão, João Arruda, como ainda por uma exposição complementar constituída por seis painéis, integrando figuras moldadas pelo próprio, numa mostra sobre a História da Arte inspirada em artistas internacionais.
DL: Que feedback teve das pessoas que visitaram a exposição?
El feedback foi profundamente emotivo e muito gratificante. A exposição despertou especial interesse entre aqueles que se reconheceram nas crónicas expostas, muitas delas dedicadas a familiares já falecidos, mas ainda muito presentes na memória dos imigrantes.
Houve reencontros inesperados de primos, amigos e vizinhos que não se viam há décadas. Muitos visitantes fotografavam-se diante da exposição, alguns visivelmente emocionados, com lágrimas nos olhos.
Importa ainda destacar que a exposição esteve igualmente patente na Biblioteca da Casa da Saudade, em New Bedford, em simultâneo com o Presépio da Lagoa. Nesse espaço, continua a atrair sobretudo os imigrantes mais antigos, que frequentam também o Centro de Assistência ao Imigrante, instalado no mesmo edifício.
DL: Que histórias pode partilhar sobre esta sua última viagem aos EUA?
Cada deslocação aos Estados Unidos é sempre marcada por reencontros com emigrantes que não via há décadas, alguns há mais de 50 anos. Abordam-me com orgulho, dizendo que são da Lagoa ou da vila e freguesias do concelho.
Tiram fotografias junto aos presépios e às exposições, e muitos fazem questão de levar os seus patrões americanos para mostrar o que se produz culturalmente na sua terra de origem. Alguns, de forma carinhosa, passaram mesmo a chamar-me “Roberto, o senhor dos presépios da Lagoa”.
DL: Tem ideia de quantas pessoas já visitaram os seus presépios e a própria exposição?
É impossível apresentar um número exato, mas desde a inauguração até ao meu regresso a São Miguel, no dia 13, alguns milhares de pessoas já tinham visitado os presépios e a exposição do Diário da Lagoa, registando momentos em fotografias com familiares e amigos.
DL: Quantos presépios seus estão expostos nos EUA?
Atualmente existem duas grandes exposições de presépios nos Estados Unidos: Uma, na Portugalia Marketplace, em Fall River, com cerca de 500 figuras de barro; outra, na Biblioteca Casa da Saudade, em New Bedford, com cerca de 700 figuras.
DL: Porque é que continua a expor nos EUA?
Porque é um compromisso profundo e duradouro com a comunidade luso-americana, assumido desde 1999, inicialmente enquanto vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lagoa até 2009.
A partir de 2010 até 2025, esta missão prosseguiu por minha iniciativa própria, a pedido da própria comunidade, formalizada através de um protocolo de colaboração cultural, assinado por 54 instituições luso-americanas, garantindo a continuidade da realização dos Presépios da Lagoa nos EUA.
DL: Vai continuar a expor os seus presépios nos EUA?
Sem dúvida. Desde 2014, o Presépio da Lagoa está patente na Portugalia Marketplace, em Fall River, onde ganhou uma dimensão muito significativa, atraindo milhares de visitantes todos os anos.
A família Fernando Benevides detém hoje a “Embaixada do Presépio da Lagoa nos EUA”, tornando a Portugalia um verdadeiro espaço de representação cultural lagoense.
Porque, onde houver um Presépio da Lagoa na América, haverá sempre um pedaço da Lagoa, da sua memória, da sua cultura e da alma lagoense.

Havia um tempo em que o mar não era apenas horizonte: era vizinho, confidente, mestre silencioso. Nas nossas ilhas, cada onda contava uma história, cada rocha guardava memórias de mãos que sabiam tocar o mundo sem o quebrar. Antes que os dias corressem apressados como correm hoje, havia homens e mulheres que acordavam com o sussurro do Atlântico e adormeciam com o sal impregnado na pele. Para as famílias dos pescadores do porto da Caloura, o mar não era paisagem; era vida, ofício, poesia.
Entre essas atividades, uma cintilava pela delicadeza do gesto: a apanha do musgo, ou das algas marinhas que o Atlântico deixava agarradas às pedras, como se fossem cartas do tempo. Era um trabalho de paciência e precisão, feito ao compasso das marés, com conhecimento transmitido de geração em geração. Quem o praticava sabia decifrar o mar como quem lê um livro antigo: as correntes, as marés, o cheiro do vento, cada detalhe era lição.
Em São Miguel, os mergulhadores-de-polvos e os pescadores mais velhos — aqueles que já não navegavam para o largo nos barcos de boca aberta da Caloura, de Água de Pau ou do Porto dos Carneiros, no Rosário da Lagoa — encontravam no musgo uma ligação silenciosa ao oceano e, ao mesmo tempo, um sustento para as famílias. O musgo era colhido com cuidado, levado para terra e estendido ao sol, formando mantas ou tapetes que secavam lentamente, absorvendo a luz e a memória do mar.
Havia uma empresa que comprava todo o musgo ou algas marinhas apanhadas nos Açores durante o período de colheita. Como o «musgo» era muito rico em nutrientes, tinha vários destinos, sendo o principal o fabrico de medicamentos. A empresa Pereira e Pereira, pertencente ao Grupo Bensaúde — atualmente dono do Centro Comercial Parque Atlântico e do Hiper Continente, em Ponta Delgada — recolhia todo o musgo apanhado na ilha de São Miguel pelos mergulhadores e pescadores mais idosos. Depois, exportava-o para a produção de medicamentos, perfumes e até complementos alimentares. No Continente, por contraste, o musgo era usado para fertilizar os campos agrícolas, prática que nunca se implementou nos Açores. No arquipélago, durante mais de 400 anos, os agricultores utilizavam tremoceiros, faveiras e molheiros para fertilizar as suas terras, até à chegada dos fertilizantes químicos.
Nos anos 60, 70 e 80, este ritual era visível nas ruas de Água de Pau: moto-triciclos carregados de sacas desciam e subiam ruas como a Portela, o Cerco, a Galera e os Ferreiros, espalhando tapetes de musgo sobre calçadas e passeios. Homens como o o Ti António Xonina, o Ti Manuel Madeira, o Morreira, o Zé “vira-o-bolo”, o Subica ou o Zé da Glória Giganta trabalhavam com mãos calejadas, mas delicadas, espalhando vida e história. Para muitos aposentados e famílias numerosas, esta atividade era um complemento económico modesto, mas vital — cada tapete estendido era um poema silencioso de sobrevivência e engenho, cada saco transportado, uma ponte entre o homem e o oceano.
Na Caloura, quando ia aos banhos com familiares e amigos, dizia-se que o mar tinha preferência por Ti António Xonina. Talvez porque ele falava pouco, talvez porque sabia ouvir. Ajoelhava-se, colhia o musgo como quem recolhe memórias líquidas, e enchia o saco de serapilheira sem pressas, como se cada fio esverdeado escuro guardasse um segredo. Quando o vento soprava, parecia que as algas chamavam por ele, sussurrando histórias de marés antigas.
A costa sul transformava-se em cenário vivo: sombras inclinadas, o brilho molhado das pedras, o marulhar ritmado das ondas. Era quase uma coreografia, uma dança antiga entre o mar e aqueles que dele dependiam. Depois vinha a tarde, e o musgo estendia-se ao sol como roupa lavada, libertando um cheiro de sal, vento e esperança.
Hoje, tudo isso pertence à memória. O mar continua imenso, igual a si mesmo, mas a apanha do musgo desapareceu. Já não há mãos a decifrar as marés, nem rostos a contemplar o reflexo da vida no musgo. Restam apenas fotografias antigas, onde o sol, o mar e as pessoas parecem conspirar para eternizar um mundo perdido. Recordar é um ato de ternura e respeito: é lembrar que fomos capazes de viver em harmonia com o oceano, e que essa harmonia é um património que não se pode esquecer.
O que antes era paciência e cuidado transformou-se numa invasão. As praias açorianas, incluindo a Caloura em Água de Pau, são hoje invadidas por toneladas de algas Sargassum. O mar devolve-nos esta massa vegetal, densa e implacável, como se quisesse dizer que a natureza se cansa da exploração. O acesso à água é dificultado, o prazer de estar à beira-mar é roubado, e os municípios enfrentam encargos enormes para retirar o excesso.
Estas algas provêm do Mar dos Sargaços, vasto Atlântico central, mas não são apenas mensageiras do mar: são sinal de desequilíbrio. Nutrientes excessivos provenientes de fertilizantes industriais, produção intensiva de gado, desflorestação e erosão do solo transformam o oceano numa máquina que gera vida e caos em simultâneo. Onde antes se lia o mar com olhos atentos, hoje o mar lê-nos e responde com invasão.
O contraste é brutal: antigamente, mãos humanas recolhiam o musgo com reverência; hoje, o mar devolve-nos invasões que ninguém pediu. A riqueza que antes era partilhada entre comunidades agora é explorada por interesses distantes, e a natureza paga o preço da ganância. O oceano, que outrora ensinava, alerta-nos agora: o seu silêncio já não esconde a degradação e o desequilíbrio.
Recordar não é nostalgia: é aprender. O musgo colhido com paciência, as mãos calejadas e delicadas, os rostos iluminados pelo sol e pelo mar são património vivo da nossa identidade. Se quisermos proteger o futuro, precisamos de ouvir o oceano, respeitar o equilíbrio e recordar o que ele nos deu. Antigamente, o homem lia o mar; hoje, o mar lê o homem e mostra-lhe as consequências da sua cegueira.
E talvez, se aprendermos a olhar de novo, possamos ainda transformar a invasão em aviso, a memória em sabedoria, e o oceano em parceiro, como foi sempre.



Roberto Medeiros
Na década de 1960, Água de Pau viveu uma ferida aberta — uma perda lenta, mas profunda, que marcou para sempre a história da vila. Famílias inteiras partiram em direção ao desconhecido. Eram mais de mil pessoas. Só da rua dos Ferreiros — a antiga artéria de pedra gasta pelas gerações — saíram mais de 300. A velha pedreira, antes cheia de vozes e vidas, ficou em silêncio. Casa sim, casa não, ficou vazia. As janelas cerraram-se, os cortinados deixaram de esvoaçar com o vento do Sul, e os passos nas calçadas tornaram-se mais raros.
Os que saíram procuravam mais do que uma nova vida: procuravam futuro para os filhos. Deixaram para trás os campos férteis do Valongo, da Amoreirinha, da Terra-de-Reis e da Caloura — terras que, durante séculos, sustentaram a vila. Braços que regavam, cavavam, ceifavam e colhiam, partiram. E com eles, partiu também o coração da comunidade.

Era a necessidade que os empurrava. A escassez de trabalho, os salários miseráveis, e a certeza de que, ficando, os filhos teriam um destino igual ou pior. Partiam com fé no peito e saudade nos olhos. Deixavam pais e mães, irmãos, vizinhos, as festas de Nossa Senhora dos Anjos e do Espírito Santo e o toque do sino da igreja matriz que ecoava pela vila toda até às terras da Eira na Amoreirinha.
Curiosamente, a emigração não foi aleatória. Os da rua dos Ferreiros criaram raízes em New Bedford, nos EUA, e em Montreal, no Canadá. Como se quisessem reconstruir, tijolo a tijolo, a sua rua noutro lugar do mundo. Já os das ruas da Arrochela, da Travessa da Natividade e do Valverde de Cima, encontraram em Bristol, Rhode Island, um novo lar. Levavam a fé consigo — e isso vê-se nas festas religiosas organizadas pela diáspora, onde trajes tradicionais, danças, folclore e imagens santas ainda hoje são reverenciados como se estivessem na própria vila.
Na fotografia acima, uma família posa em trajes de romaria e devoção. As crianças sorriem, mas os olhos dos adultos trazem o peso da memória. A mulher mais velha segura uma imagem sagrada — talvez de Nossa Senhora dos Anjos ou do Senhor Santo Cristo dos Milagres. É o retrato vivo da ponte entre a terra que se deixou e a fé que se levou. A emigração não foi apenas um movimento de pessoas — foi uma travessia cultural, emocional e espiritual.
Água de Pau perdeu muito com a emigração. Perdeu braços que lavravam a terra e rostos que davam vida às festas e às ruas. Mas ganhou também uma diáspora orgulhosa, que nunca se esqueceu de onde veio. Que transmitiu aos filhos o sotaque dos Açores, as receitas da avó, o respeito pelo trabalho e a fé enraizada. Que fez questão de continuar a celebrar os impérios, as filarmónicas, os cortejos e a língua — mesmo do outro lado do oceano.
Hoje, os filhos desses emigrantes já são americanos ou canadianos de nascimento. Mas dentro deles vive Água de Pau. Vive nos nomes que ainda sabem pronunciar, nas músicas que ainda sabem cantar, nos sonhos dos pais e dos avós que um dia cruzaram o Atlântico para que eles pudessem ter mais do que aquilo que a terra lhes permitia.
Foi a coragem de partir que garantiu a continuidade da memória.

Há histórias que resistem ao tempo. E há regressos que não precisam de mapa, porque o coração conhece cada beco, cada ribeira, cada pedra onde se brincou em criança. Assim foi o regresso de Victor e João Porto à sua terra natal — Água de Pau, vila ainda de alma rural, de caminhos terrosos e memórias que permanecem intactas, mesmo passados 49 anos de ausência.
Foi no Beco do Saco, junto à rua do Cura, que estes dois irmãos nasceram. Em 1966, partiram com os pais e a irmã rumo à América, como tantos outros açorianos da sua geração. Victor tinha 10 anos. João, apenas 8. A infância ficou-lhes gravada na memória, como uma fotografia antiga guardada numa gaveta da alma.
Durante quase meio século, nunca mais regressaram aos Açores. Até que, em outubro de 2014, integrados numa comitiva de emigrantes de Dartmouth, a ilha chamou por eles — e eles responderam com um regresso carregado de emoção.
Ao entrarem em Água de Pau, mal passaram pela Praça da República (ou como se diz por brincadeira, “a nossa Times Square”), pediram logo para virar depressa na rua da Carreira. Queriam ver a casa onde nasceram, tocar nas paredes que guardaram os primeiros anos da sua vida. Levei-os até lá — mesmo em contramão — e vi-os emocionarem-se ao tocar nas pedras da velha casa.
Foi um reencontro com o tempo e com a verdade das raízes.
Depois, caminhámos juntos pelas ruas que a memória não deixou apagar. No Largo de Santiago, agora sem a ribeira aberta nem lavadeiras, evocaram as festas de 15 de agosto, os bailaricos e os piqueniques, os dias de melancia e risos. Perguntaram-me pelo velho “Crockett”, lembraram-se dos marrecos na água e das brincadeiras com os amigos de infância.
Fomos ao Pico do Monte Santo, onde se vê toda a vila de uma vez só. E ali ficaram por instantes, em silêncio, a contemplar aquilo que nunca verdadeiramente deixaram: a sua terra.
Na Caloura, o João lembrou-se de, em pequeno, ter ido de barco com o pai até ao Ilhéu da Vila, durante a festa da Senhora das Dores. Memórias que voltaram à tona como se tivessem sido vividas ontem.
Ao cruzarem-se com algumas pessoas mais idosas, o espanto e o reconhecimento foram mútuos: todos se lembravam dos pais. E esse pequeno gesto de memória partilhada, esse fio que liga gerações, deu-lhes uma alegria difícil de descrever.
“Parece que nunca saímos daqui”, disseram-me. E eu percebi: realmente, nunca saíram.
A tarde foi passando e, com ela, o sentimento claro de que esta visita não seria a última. “Temos de voltar com a família toda. Eles precisam de conhecer isto, de sentir isto.”
E antes de regressarem à comitiva, visitámos ainda uma plantação de ananases e o Convento do Senhor Santo Cristo, símbolos maiores da ilha que continua a fazer ponte entre o passado e o presente.
Despedi-me deles com um abraço, sabendo que levavam Água de Pau no peito como bandeira. Vão regressar à América, sim, mas transformados em verdadeiros embaixadores da terra que os viu nascer.
Porque há lugares que nunca se esquecem.
Porque há raízes que, mesmo à distância, continuam a crescer.
E porque, como bem disseram no final do dia, entre sorrisos cheios de saudade:
“Água de Pau desbanca!”

Roberto Medeiros
Não sei quantas mais histórias irei ainda contar sobre as gentes da minha terra. Mas uma certeza me assiste: “Antes Que A Minha Memória Se Apague”, deixarei o que vivi, ouvi e vi inscrito nas páginas dos meus quatro livros — dois dos quais já viram a luz do prelo. Nesta crónica, trago ao papel mais uma memória viva, costurada de saudade, terra e gratidão. Uma memória que fala de dois rostos — um presente, outro já ausente — que carregam consigo a alma laboriosa de Água de Pau.

Foi ao revisitar esta antiga fotografia de agricultores da nossa vila — homens e mulheres da lavoura, sacho na mão, suor no rosto — que se reacendeu em mim a lembrança. Naquela imagem, captada na chamada “Terra de Reis”, lugar de entrada pelo Boqueirão e ladeado pelos históricos Jardim das Murtas, Lourinhos e Junqueiras, via-se o esforço de gerações inteiras. Ali, entre rostos jovens e experientes, saltou-me à memória um nome. O pai daquele jovem, que viria a ser o maior agricultor-camponês que esta vila conheceu.
Mas para chegar a ele, preciso recuar aos anos 80.
Naquele tempo, eu e a minha esposa Maria saíamos de casa, no Cinzeiro, ainda antes da aurora. O céu ainda não se desenhava em cores, quando cruzámos caminho com um homem e uma criança. Ambos levavam o sacho ao ombro e barrete na cabeça. A curiosidade levou-nos a perguntar para onde iam tão cedo. A resposta do pai foi simples e cheia de sentido: “Antes de ir para a escola, o meu filho vai-me ajudar a sachar um pedaço de vinha.”
Era um pequeno terreno, por trás da nossa casa, na subida para o Cinzeiro de Cima. A imagem daquele menino, determinado, orgulhoso do seu papel na tarefa familiar, ficou-me marcada na alma. Havia ali mais do que obediência: havia consciência, missão e pertença.
Passaram-se os anos. O pai — homem de respeito, conhecido como mourinho do trabalho e bom-sacho, título honroso da nossa vila — partiu cedo, deixando filhos pequenos, mas já moldados para a vida. Quanto ao menino do Cinzeiro? Fez-se homem. E não apenas homem, mas o maior agricultor da nossa vila, e um dos mais produtivos da ilha de São Miguel.
É, hoje, agricultor de profissão e de paixão. Sabe da terra como poucos: semeia com ciência, colhe com arte, enfrenta pragas, lê os ventos e as chuvas. Alimenta cooperativas, sustenta famílias, honra o campo. Explora dezenas de moios de terra — e um moio, não esqueçamos, representa sessenta alqueires de terra lavrável. O seu sucesso é espelho da nossa fertilidade e da riqueza das terras de Água de Pau, comparável apenas às planícies de Santana, na Ribeira Grande.
Pediu-me, no entanto, que não escrevesse o seu nome. E respeito-o. Porque nesta terra, infelizmente, ainda há quem castigue o mérito com inveja. Mas a grandeza de um homem vê-se pelo que planta — e pelo que deixa depois de colher.
E se dele falo em silêncio, dela falo em voz alta. Isabel Sachola. Nome de mulher, mas símbolo de força bruta e coragem meiga. Era da antiga Rua das Escaninhas — hoje Rua do Foral Novo — e dizia-se dela que cavava como nenhum homem conseguia acompanhar.
Num certo dia, quando contratara alguns rapazes da Praça da República para cavar um terreno junto aos secadouros de tabaco da Fábrica Estrela, os homens não aguentaram o seu ritmo. Um dos genros foi, então, pedir ao meu pai que lhe deixasse ir falar aos homens que estavam com a sogra na terra. “A sogra não os pode tratar como escravos”, dissera-lhe um dos homens. Mas a verdade é que a Ti Isabel apenas exigia uma coisa: que a acompanhassem… se pudessem.
Usava calças de homem, empunhava o sacho com firmeza, impunha-se no campo como igual — ou superior — aos homens da vila. Era temida no trabalho, mas adorada em casa. Mulher de fibra e de ternura, símbolo de uma geração que viveu da terra e com ela se fez respeitar.
A Vila de Água de Pau foi feita de gente assim: trabalhadores, valentes, resistentes. Gente que não cede à preguiça nem à maledicência. Gente que honra a terra como quem honra os seus. Estes dois nomes — o de hoje e o de ontem — representam o que de melhor temos: dignidade no trabalho, orgulho nas origens e amor pelo que se faz.
É por eles — e por todos os que neles se revêm — que escrevo.
Antes que a minha memória se apague.
E que as memórias da nossa terra se percam no esquecimento dos que não souberem olhar para trás para seguir em frente.

Ao revisitar a história desta vila, deixo-me entrar no túnel do tempo, embarcando numa caravela que, na segunda metade do século XV, partiu de Portugal rumo à costa sul da ilha de São Miguel. À medida que nos aproximamos, a embarcação desliza ao longo das escarpas e falésias de lava, revelando grutas e cavernas ocultas pelo tempo. Ao longe, diviso a silhueta de um penedo que lembra a quilha de uma galera, enquanto formações rochosas se erguem como um anfiteatro natural.
À medida que nos aventuramos mais, a falésia torna-se imponente, adornada por carrancas esculpidas pela lava. Então, diante de nós, desdobra-se uma baía serena, onde duas praias se encontram. Numa pequena enseada, uma gruta esconde-se à espera da maré cheia, quando as águas a preenchem e permitem a entrada de pequenas embarcações, tornando-a ainda mais mágica.
Ao nos aproximarmos da segunda praia, protegida pelo abraço da baía, avistamos uma cascata cristalina que se desprende da rocha, criando uma calheta que rasga a areia. O fio de água doce corre suavemente até se fundir com o mar, num espetáculo de beleza e harmonia que o tempo jamais apagará.
A bordo da caravela, viajavam distintos morgados, como Manuel Afonso Pavão e João Jorge, acompanhados de famílias de renome — Oliveiras, Araújos, Sousas —, todos em busca de um lugar onde pudessem erguer uma nova vila. A fertilidade dos solos e a abundância de recursos hídricos seriam determinantes na escolha do local.
Por fim, aportaram. Desembarcaram com a solenidade própria da época e, diante da imponência da natureza, tomaram posse daquela terra promissora. Naquela manhã luminosa, desenhava-se o início de uma nova história — a história de um povo que, entre campos férteis e águas cristalinas, faria daquele recanto o seu lar. Da Ponta da Galera à imponente serra, que para sempre se gravaria na memória como a Serra de Água de Pau.
Foi ali, nas proximidades, que Manuel Afonso Pavão se estabeleceu com a sua família, munido de uma carta régia que lhe concedia o direito de ocupar as terras que desejasse. Ao lugar que escolheu foi dado o nome de “Porto Manuel Afonso Pavão” e, mais tarde, passou a ser chamado de “Jubileu”, talvez em referência ao meio século de paz e segurança que a imponente rocha proporcionou ao povoado, protegendo-o dos ataques piratas. Hoje, passados 510 anos, como Vila, aquele recanto é conhecido como Baixa da Areia.
Com o tempo, Água de Pau começou a atrair novos colonos vindos de Portugal. Nas caravelas que atracavam na ilha de São Miguel, chegavam também, com frequência, escravizados de origem mourisca, trazidos para ajudar a desbravar a terra. Em outros casos, o reino enviava diretamente prisioneiros de má índole, numa tentativa de povoar e explorar aquelas paragens.
Foi por isso que Manuel Afonso Pavão ordenou a construção de uma armação no topo da rocha mais alta junto ao porto, onde se ergueriam um laço e uma forca, para que qualquer visitante de má-fé soubesse, à primeira vista, que ali imperava a lei. Até hoje, esse lugar é conhecido como Terra-da-Forca.
Com o passar do tempo, a comunidade cresceu, e o povoado expandiu-se. Os recém-chegados começaram por abrir atalhos e veredas, que mais tarde se transformariam em ruas. Seguindo as diretrizes do reino, um padre e um encarregado da administração local tomaram para si a tarefa de planear a disposição das ruas e a construção das primeiras habitações da vila nascente.
Após o Jubileu, o povo subiu a encosta, desbravando caminho pelos “Barrancos”, onde outrora corria uma ribeira de forte caudal. Foi ali que se estabeleceram os ferreiros, dando origem à rua que, naturalmente, passou a ser conhecida como a “Rua dos Ferreiros”.
Num largo que mais tarde se tornaria a Praça, o padre e o representante do reino, seguindo a margem direita da ribeira e escolhendo um ponto elevado, decidiram erguer a igreja dedicada à Senhora dos Anjos. A sua posição dominante permitia que o repicar do sino ecoasse por toda a vila e que a silhueta da igreja fosse avistada de qualquer ponto. A rua que ligava a igreja à Praça viria a chamar-se Rua da Trindade, nome inspirado na pequena ermida ali erguida, fruto da devoção de um dos habitantes.
A partir da Praça, as demais ruas foram tomando forma, desenhando os contornos da vila que, desde o século XV, passou a ser conhecida como Freguesia de Água de Pau (1505). Mais tarde, em 1515, por alvará do rei D. Manuel I, foi elevada a vila e tornou-se sede de concelho. A razão para tal distinção residia na extraordinária fertilidade das suas terras e na abundância dos seus recursos hídricos. Assim se fez jus ao seu nome – Água de Pau –, uma terra abençoada, rica em águas e abraçada por uma serra generosa em madeira
Os primeiros habitantes de Água de Pau, figuras influentes e próximas da corte, fixaram-se nesta terra e, entre eles, destacavam-se alguns dos mais ilustres pauenses, que foram armados cavaleiros e partiram para defender o reino e as praças conquistadas no Norte de África. Ao regressarem, trouxeram consigo o brasão de mérito, uma distinção que foi concedida à Igreja da Senhora dos Anjos e que ainda hoje pode ser admirada no altar principal.
O historiador Carreiro da Costa, ao abordar a criação do concelho de Água de Pau, sublinha que “a proximidade de Água de Pau em relação a Vila Franca do Campo – então capital da ilha –, o prestígio e a influência das suas personalidades mais proeminentes e o consequente progresso social e económico da localidade terão sido fatores determinantes para que Água de Pau fosse a primeira a conquistar o estatuto de vila, precedendo a Lagoa. Assim, a 28 de julho de 1515, cerca de sete anos antes da Lagoa, Água de Pau foi elevada a vila e tornou-se sede de um concelho com meia légua de raio”. [Cf. Carreiro da Costa, Memorial da Vila da Lagoa e do seu Concelho, Ponta Delgada, 1974, p. 13].
A extinção do concelho de Água de Pau, em 1853, pode ser compreendida à luz do seu notável desenvolvimento industrial nos séculos XVIII e XIX. Como argumenta Fátima Sequeira Dias, foi precisamente esse crescimento que garantiu a permanência do concelho até meados do século XIX, apesar da sua reduzida extensão geográfica. Com 30 moinhos de água e 12 fábricas de peles, a vila destacava-se como um importante polo económico da região. [Cf. Fátima Sequeira Dias].
Hoje, convido-vos a dar um novo salto no tempo e a redescobrir a Vila de Água de Pau com um olhar renovado. Percorrer as suas ruas e trilhos é embarcar numa viagem em que a natureza abraça a história, oferecendo cenários que acalmam a alma e revigoram o espírito. Um refúgio de serenidade infinita, onde cada recanto conta uma história e cada paisagem convida à contemplação.
Não perca a oportunidade de explorar o Caminho da Vila, passear pelas Murtas e pelo Jardim, conhecer Lourinhos, Junqueiras e a misteriosa Janela do Inferno. Encante-se com as nascentes da Ribeira das Cales, de Lourinhos, do Espigão e da Ribeira do Lance, onde a natureza exibe a sua pureza.
Deixe-se envolver pela beleza singular do Portinho da Caloura, do Castelo, do Cinzeiro, da Galera, do Cerco, do Jubileu e da Baixa D’Areia. Converse com os habitantes acolhedores e descubra os antigos topónimos que ecoam as pegadas dos nossos antepassados.
E, claro, não se esqueça de provar a frescura da água pura dos nossos quatro fontanários públicos: o do Pataco (no Largo de S. Pedro), o da Praça, o da Senhora dos Anjos e o da Canadinha-do-Porto. Há mais de um século, a água fresca da Serra corre 24 horas por dia, um presente da natureza que nos une ao passado.
Venha sentir a alma de Água de Pau.
A Vila de Água de Pau é um dos segredos mais bem guardados do concelho da Lagoa e da ilha de São Miguel, um verdadeiro tesouro de beleza natural. Quem a visita, leva consigo uma experiência inesquecível. É aqui que se encontra a Caloura, um autêntico paraíso único nos Açores, onde a pobreza não tem lugar.
Que privilégio é ter nascido na minha querida Vila de Água de Pau!
Guardas encantos sem igual.
Teu povo orgulha-se de ti,
Pois os séculos por ti passaram
E marcas profundas deixaram.
Quando, lá do mar, te avistaram,
Sem saber aonde chegavam,
Entre si se questionavam:
“Será isto Água ou será Pau?”
E, juntos, concordaram:
Seria, para sempre, ÁGUA DE PAU.
[In Livro, “Antes Que A Memória Se Acabe – Crónicas de Água de Pau vol II – de RoberTo MedeirOs, publicado em 30 de maio de 2025]