
O projeto que envolve o trilho da Janela do Inferno entrou numa fase crucial de avaliação. Num grupo de discussão recente, que decorreu no mês passado, na Universidade dos Açores, parceiros locais e especialistas reuniram-se para analisar o progresso do projeto sob diversas dimensões — governança, economia, ambiente, sociedade e cultura — utilizando uma metodologia partilhada com outros países europeus, como Bélgica e Alemanha.
Segundo Eduardo Marques, responsável pelo Translight Houses, este grupo focal funciona como uma “câmara de ressonância” do que foi alcançado até agora. O objetivo é recolher dados comparáveis que permitam à Comissão Europeia delinear políticas públicas alinhadas com o conceito de Soluções Baseadas na Natureza (SBN). “Estamos aqui para celebrar o nosso compromisso com os territórios e o bem-estar das pessoas, num respeito profundo pela natureza”, afirmou o docente, sublinhando que a Lagoa é um dos “pilotos” cujos resultados servirão de bitola para o futuro da sustentabilidade urbana na Europa.
Um dos pontos altos do encontro foi a intervenção de Roberto Medeiros, que trouxe luz sobre a toponímia local. Ao contrário do que o nome “Janela do Inferno” possa sugerir, a origem está profundamente ligada à engenharia hidráulica micaelense do século XIX. O antigo vereador municipal, Roberto Medeiros, explicou que o termo “Janelas”, utilizado comumente entre os habitantes de Água de Pau, refere-se aos vãos dos imponentes aquedutos que transportavam água para a antiga Fábrica do Álcool da Lagoa e, mais tarde, para o abastecimento público de Ponta Delgada. O “Inferno” seria uma alusão à imponência das ravinas e à força da natureza no local. “A Vila de Água de Pau é a única no país com quatro fontenários a correr 24 horas por dia há mais de cem anos”, destacou Medeiros, reforçando o valor estratégico e histórico deste património hídrico onde ainda se podem observar espécies como os tritões.

Apesar do valor paisagístico, os parceiros do projeto apontam desafios práticos. Ana Rita Matias, investigadora do projeto, mencionou a importância do trabalho de campo e da proximidade com os lavradores mas notou alguma “desconexão entre o que se pretende e o que se faz”. Já Rita Patarra, do Expolab, destacou que o maior ganho são as relações estabelecidas, embora a escassez de tempo e recursos humanos sejam limitações reais.
Pedro Gouveia, da Kairós, trouxe uma reflexão crítica sobre o impacto real na comunidade. O retorno local relativamente ao Lugar dos Remédios, apesar de próximo do trilho muito visitado, ainda beneficia pouco do investimento público realizado; preservação versus uso: o desafio de usar o recurso sem o degradar (notando que o avistamento de tritões tem diminuído) e a necessidade de combater o “défice de contacto com a natureza” das crianças através de aprendizagem in loco.
O consenso do grupo é que o final deste projeto deve ser, na verdade, um ponto de partida. A meta agora é garantir que o sistema de governança facilite a gestão deste trilho que, antes de ser uma “solução baseada na natureza”, já era parte integrante da identidade e da sobrevivência da população da Lagoa.
O projeto “Translight Houses, Para além do verde: Faróis de soluções transformadoras baseadas na natureza para comunidades inclusivas” trata-se de um projeto de investigação à escala europeia e que, nos Açores, é liderado pela Universidade dos Açores em consórcio com outras entidades locais e com um único local a estudar: os Remédios da Lagoa, mais concretamente, tudo o que inclui e envolve o trilho da Janela do Inferno, localizado naquele lugar lagoense, para onde são atraídos, diariamente, centenas de turistas, em época alta.
Em junho de 2025, Eduardo Marques explicava quais os principais objetivos deste projeto pioneiro nos Açores. “A ideia é perceber como é que um ativo, um recurso importante, a «Rota da Água – Janela do Inferno», pode alavancar um processo de uma relação mais positiva com o trilho de forma a que também que a comunidade pudesse ter benefícios dessa relação com o trilho”, justifica. O responsável acrescenta que se pretende “transformar o trilho numa solução baseada na natureza para um turismo sustentável”. Nós podemos inspirar-nos na natureza e no seu funcionamento para resolver problemas sociais complexos”. E dá exemplos: “como é que se resolve problemas de desemprego, como é que nos podemos inspirar, basear na natureza para resolver problemas de emprego versus desemprego, como podemos melhorar a saúde — temos soluções desde os anos 60 implementadas no Japão que são os parques de terapias da natureza que reduzem o stress, reduzem a tensão arterial — portanto, podemos utilizar a natureza para nos curar, para ser integrada nos sistemas de saúde, podemos integrar a natureza como dimensão da arte e cultura”.