
A campanha nacional de recolha de alimentos promovida pelo Banco Alimentar entre hoje, sexta-feira, e domingo, está a decorrer nos Açores, nas ilhas de São Miguel e da Terceira, numa altura em que ambos os Bancos Alimentares se deparam com um crescimento significativo do número de pedidos de cabazes. Entre 2025 e 2026, em São Miguel a subida foi de cerca de 12% e na Terceira cerca de 10%. Os números são avançados pelas direções do Banco Alimentar que estão preocupadas sobretudo com as crianças.
“De 2025 para 2016 houve um aumento de pedidos e famílias apoiadas: passámos de 866 famílias (2463 pessoas) para 1020 famílias (2742 pessoas) sendo que distribuímos, já este ano, cabazes de emergência a 50 agregados, abrangendo 140 pessoas, das quais 42 eram crianças menores de 10 anos”, avançou ao Sítio Igreja Açores Luís Águeda, responsável pelo Banco Alimentar da ilha Terceira, desde março deste ano.
Em São Miguel, atualmente são 700 as famílias apoiadas mensalmente pelos cabazes do Banco Alimentar de São Miguel e o que se verifica, segundo Luísa César, é que as dificuldades são sobretudo reveladas por famílias que trabalham.
“Os pedidos chegam todos os dias: chegam das associações e do Instituto de Segurança Social, com situações de comprovada carência, de baixos rendimentos, de pessoas empregadas que não têm condições para pagar todos os encargos mensais e garantirem uma alimentação digna do agregado familiar” avança a responsável que, desde o início da criação do Banco Alimentar, está na sua direção.
“Nós procuramos entregar cabazes com qualidade e quantidade que ajudem as famílias. A parte da alimentação tem de ser uma preocupação real pois tem havido um aumento dos preços dos produtos e o que estamos a verificar é que a qualidade da alimentação é muito deficitária em termos de fruta e proteínas; há muitos alimentos que são necessários a uma alimentação saudável que não estão acessíveis a quem tem parcos rendimentos e isso gera doenças que depois tornam os encargos da família e do estado muito maiores”, refere deixando um apelo.
“Todos devemos tentar ajudar na medida das nossas possibilidades para que estas famílias sejam aliviadas e possam também ter uma alimentação digna e tanto quanto possível saudável”, refere a dirigente num apelo a que se possa ultrapassar a fasquia das 21 toneladas de alimentos que é o mínimo necessário para fazer face a todos os pedidos na maior ilha do arquipélago.
A campanha de rua, que é feita duas vezes no ano – na primavera e no Natal –, conta com a colaboração de cerca de 1300 voluntários nas duas ilhas. Estão a ajudar nas lojas mas também nos armazéns onde fazem a separação dos alimentos.
“Sem esta força não nos seria possível levar por diante esta campanha” refere Luís Águeda que juntamente com a nova equipa estuda formas de recrutamento de voluntários, envolvendo escolas e centros de convívio.
Para Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, “as campanhas de recolha de alimentos são muito importantes para angariar produtos básicos e para mobilizar toda a sociedade. Em particular, numa altura em que a situação continua muito difícil para muitas famílias, em resultado do impacto da instabilidade internacional que provocou um aumento do preço dos produtos alimentares e da energia e que tem gerado muita apreensão sobretudo junto das famílias mais vulneráveis”, refere uma nota da organização partilhada na página online do Banco Alimentar.
“A ajuda alimentar prestada nos lares, no apoio domiciliário, creches, jardins infantis e ainda nos cabazes entregues a famílias acompanhadas é determinante e integra também a certeza de que não estão sós. Muitas são as famílias que graças a esta ajuda conseguem ultrapassar situações pontuais de aperto e dar a volta à vida, sem que falte o mínimo para dar de comer aos filhos” refere ainda a dirigente.
No ano passado, os 21 Bancos Alimentares ajudaram cerca de 370 mil pessoas com carências alimentares comprovadas em parceria com mais de 2.400 instituições sociais, refere ainda a organização.
Atualmente, existem 21 Bancos Alimentares em funcionamento em Portugal, incluindo na Madeira, contando com equipas permanentes reduzidas e uma vasta rede de voluntários que asseguram grande parte das campanhas e ações de apoio.
Para participar nesta campanha, basta aceitar um saco do Banco Alimentar e colocar nele bens alimentares, de preferência não perecíveis (como leite, conservas, massa, arroz, azeite, açúcar, farinha, entre outros), entregando-o aos voluntários à saída. Os produtos serão depois encaminhados para os armazéns do Banco Alimentar de cada região, onde são pesados, separados e acondicionados para serem entregues às entidades beneficiárias. A distribuição começa de imediato, garantindo que tudo chega à mesa de quem mais precisa.
O Banco Alimentar foi criado em Portugal em 1991 com a missão de lutar contra o desperdício e prestar apoio a quem mais precisa de se alimentar, em parceria com instituições de solidariedade e com base no trabalho voluntário. Existem atualmente 21 Bancos Alimentares (nas zonas de Abrantes, Algarve, Aveiro, Beja, Braga, Castelo Branco, Coimbra, Cova da Beira, Évora, Leiria-Fátima, Lisboa, Madeira, Oeste, Portalegre, Porto, S. Miguel, Santarém, Setúbal, Terceira, Viana do Castelo e Viseu). A Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares representa e congrega a rede dos Bancos Alimentares a nível nacional e internacional.

O Banco Alimentar Contra a Fome – São Miguel está a promover entre esta sexta-feira, 29 de maio e o próximo domingo, dia 31, mais uma campanha de recolha de alimentos em toda a ilha de São Miguel.
Esta iniciativa tem como principal objetivo reforçar os stocks de bens alimentares e garantir a continuidade do apoio a centenas de famílias que enfrentam situações de maior vulnerabilidade.
Ao longo destes três dias, os micaelenses são convidados a doar produtos alimentares de primeira necessidade nas quarenta e três lojas da ilha e com a participação de mais de oitocentos voluntários.
Em 2026, o Banco Alimentar assinala trinta anos de intervenção solidária junto da população. Três décadas depois, o percurso é marcado por um forte sentido de missão e de impacto social: mais de dez milhões de quilos de alimentos distribuídos, resultado da união entre voluntários, instituições parceiras, empresas, entidades públicas e todos os que, ao longo dos anos, nunca deixaram de contribuir.
Recorde-se que em 2025 foram apoiadas 2.340 pessoas, através da distribuição de cerca de 225.400 quilos de alimentos. Este apoio tem-se revelado cada vez mais essencial, num momento em que os pedidos de ajuda aumentaram cerca de 12%, refletindo as dificuldades económicas sentidas por muitas famílias na ilha.
Atualmente, o Banco Alimentar distribui, em média, cerca de setecentos cabazes alimentares por mês, sendo necessária a disponibilização regular de cerca de vinte e uma toneladas de alimentos mensais para responder às necessidades existentes.
Os alimentos mais necessários são os de maior validade: leite, arroz, massas, atum e outras conservas, azeite, óleo, farinha, cereais, bolachas, açúcar e leguminosas.

“Olá. Sou esteticista e vou tratar de si para se sentir ainda mais bonita. O que precisa? Vamos fazer sobrancelhas? É oferta do hospital, vamos.” É assim o primeiro contacto de Eleni Kouris, 57 anos, com as utentes da Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), onde faz voluntariado há cerca de nove anos. Mas é um trabalho mais profundo do que parece, que não se resume a unhas, buços, sobrancelhas, maquilhagem ou depilação – no qual “recebe-se muito mais do que se dá”, destaca em conversa com o Diário da Lagoa.
Eleni Kouris, de nacionalidades grega e australiana, vive em São Miguel há 23 anos. Foi por convite de uma enfermeira-chefe que começou a prestar serviços de estética, de forma voluntária, a pacientes internadas. Há quase uma década, percorre os corredores hospitalares com a sua mala de maquilhagem, pincéis, vernizes e ceras. O destino é sempre o mesmo: a ala de cuidados paliativos; e o objetivo também – devolver um pouco de normalidade e autoestima a doentes em fim de vida. “Só entrar, rir e arranjá-las, fazer com que se sintam bonitas, faz uma grande diferença”, diz.
Para a voluntária, também fundadora das empresas Glam Azores e CK Events, a beleza pode ser terapêutica e, neste caso, não é uma questão de vaidade. E sublinha: “a beleza exterior sem a interior não é suficiente, mas juntas são poderosas. Fazer alguém sentir-se bonita ajuda o psicológico.” Aliás, o trabalho voluntário vai além de pintar unhas ou arranjar sobrancelhas, sendo muitas vezes pretexto para conversas sobre a vida.
Por essas mesmas conversas, Eleni Kouris considera que recebe mais das utentes do que lhes dá. “Para elas, era só uma esteticista. Não fazia nada especial, só lhes dei alguma alegria. Ir lá pintar as unhas e tirar os buços das senhoras? Isso não é nada”, afirma Eleni Kouris. A verdadeira aprendizagem está nos diálogos em que reconhece “os sacrifícios destas mulheres”, acrescenta, uma vez que, segundo a voluntária, “quando chegam os últimos dias as pessoas ficam muito lúcidas e consigo ver e aprender através delas. Não há ego e o espírito fala.”
A ligação criada com as mulheres nos cuidados paliativos é “muito forte” e Eleni Kouris acredita que as vê, no sentido em que reconhece e agradece as vidas e os sacrifícios das doentes nos seus últimos dias. E diz-lhes sempre: “Eu vejo-te. Obrigada por tudo o que fizeste, como mulher, para a tua família e para as famílias de todos. Eu reconheço. Vejo-te como mulher, como mãe, como filha. E entendo o sacrifício que tu fizeste. Percebo, sinto. Não sei se alguém te viu na tua vida toda, mas eu vejo tudo. E obrigada pelo teu sacrifício.”
Ao longo dos últimos nove anos, um dos episódios que mais marcou a voluntária aconteceu com uma paciente nos seus últimos dias de vida. Ao escolher a cor para as unhas, hesitou entre vermelho e nude, optando pelo tom mais discreto. Quando questionada, admitiu que a escolha se deveu ao receio do que os outros iriam dizer. Eleni Kouris insistiu no vermelho e disse-lhe: “Se alguém perguntar, diga que uma grega louca entrou no quarto e pintou-lhe as unhas.”
“É um apoio de mulher para mulher. Hoje em dia têm muito em cima delas”, refere enquanto confessa uma das lições que tirou das partilhas com as utentes: “Ajudou-me a perceber que, como mulheres damos muito, mas também precisamos de tomar conta de nós.” Também aprendeu que “não podemos dar água a ninguém se o nosso copo estiver vazio. Sacrificar-se não é equivalente a amor. Dizer não, muitas vezes, é amor próprio”, acrescenta.
Por fim, Eleni Kouris deixa o apelo: “Vamos lutar e fazer o que precisamos para ser felizes, para podermos mostrar aos nossos filhos e às outras mulheres que estamos espetacularmente poderosas e conseguimos fazer tudo o que nós queremos.” E continua com a importância de não deixar “nenhum homem nos diminuir”, nem que “o sistema patriarcal diga o que podemos e não podemos fazer ou qual é o nosso lugar”.
Carla Róias, 34 anos, é psicóloga e integra a Equipa de Apoio Psicossocial do HDES. Realça que, muitas vezes, doentes em cuidados paliativos sofrem alterações a nível de imagem corporal e, por isso, de autoconfiança, pelo que se torna “fulcral”, diz ao DL, serviços como o de Eleni Kouris em que a estética é levada às utentes e ajudam a “resgatar a sua autoestima”. Aliás, as suas necessidades “não são só físicas – como o controlo da dor – mas também emocionais, relacionais e espirituais”, acrescenta.
Além de um bem-estar emocional, a estética nos cuidados paliativos pode ser uma forma de as pacientes se sentirem “acarinhadas, confortadas e compreendidas”, acrescenta a psicóloga. “Não é só o doente que está em fim de vida, é a pessoa em si, olhar para a pessoa como um todo, um ser integral”, explica. Como noutras vertentes desta unidade hospitalar, o cuidado nos paliativos visa “dar conforto e qualidade de vida” aos utentes, à semelhança do voluntariado de Eleni Kouris.
A parte da estética também importa na terceira idade, sobre a qual “ainda existem muitos mitos e preconceitos”, salienta Carla Róias. Com o envelhecimento, o indivíduo “descredibiliza os padrões de beleza, aqueles que nos são incutidos pelos media e pela sociedade”, mas não deixa de ser fundamental dar-lhes esta atenção que “promove o bem-estar emocional integral”, segundo a psicóloga. Também em casos de ansiedade e depressão os cuidados de beleza têm um impacto positivo.