
Antes de começar a ler este artigo, segue uma breve e clara justificação e honesta declaração de interesses: tive a sorte de conhecer a Catarina Melo, a artista, há muitos anos; os nossos caminhos, muito por acaso, cruzaram-se e desencontraram-se depois.
Por mero golpe de sorte, já com outra maturidade e noutro tempo, redescobri, nestes dias, a “velha amiga” Catarina na sua arte exposta nas redes sociais, que apreciei como sendo genuinamente diferente de tudo aquilo a que estamos, nestas terras marginalizadas e ocas de significado, de substância, habituados.
Vejo nesta jovem artista uma pessoa, na sua serenidade, capaz de se superar sem nunca menosprezar o que pode vir a ser ainda; e, por isso, mais inclinada à superação de si mesma do que à dos outros, necessariamente. A corrida mais importante é aquela que fazemos contra nós próprios e, nem por acaso, vejo a brilhante pessoa que conheci (ainda) na sua arte e na sua juventude – com a sua natureza (a sua, a nossa, a que está à nossa volta) espelhada num imaginário poético-visual, mais poético do que métrico, mais visual do que poético, mas genuíno do que inventado, de diferentes cores, formas, relevos e texturas – apontando-nos ao essencial, como ao coração de cada um de nós também, e dizendo-nos claramente que nada ainda está perdido.
Num mundo sufocado pela pressa angustiante, pelo combate feroz de egos, pela disputa de ambições e pelo domínio da razão sobre a emoção, a Catarina Melo faz totalmente diferente de todos os outros, porque reinventa a velha esperança caducada dos dias e permanece imóvel; reinventa, assim, o caos de tudo, de todos nós cantando uma canção nova, pura, e, nela, parece que tudo (nos) pára para (nos) observar, atentamente, dizendo-nos, todavia, só o essencial de cada um de nós.
Ela pinta com o que sente, mais do que com pincéis, redescobrindo as coisas sobre elas próprias, e sobre o que está à sua volta, monitorizando lentamente cada batimento adoçado, cada soluço de cor ferida, cada silêncio amargurado e cauteloso, cirúrgico, da (nossa) natureza. Mede, com precisão astuta, as cores e as formas das (nossas) cores e as cores das (nossas) formas, deixando-se levemente levar por si mesma e pelo que vê – pelo que sente “no” que vê, inclusive.
Essa arte de refazer o caos é diferente de tudo aquilo que, no materialismo do realismo de hoje, é feito e divulgado nos Açores; e, nessa diferença, refazer o caos não é disputar seja contra o que for e reclamar, com imensa vaidade, nessa demanda, uma vitória qualquer sobre quem seja; mas trata-se, sobretudo, sim, de algo destinado a cruzar-se com o pior lado das coisas (com o nosso pior lado), combatendo-o, reiventando-o, dando-lhe um ressignificado primário que está destinado a sofrer, mas a sofrer muito com as circunstâncias.
Tudo o que podemos – e devemos – fazer é enaltecer, valorizar e partilhar estas tentativas corajosas, absolutamente verdadeiras, de refazer, de reorganizar, de recontar os números caóticos da (nossa) Natureza. E a Catarina refaz o que vê, e o que sente, pela forma única como vê e como sente “as coisas” – a pintora em causa não passa pelas coisas na frieza, na pressa e na indiferença do quotidiano; ela, invariavelmente, fica e permanece indelével, astuta, nelas, como um rasto de cor viva que jamais amargura e desfalece; como um sangue jorrado que não coagula; como uma ferida deixada aberta para toda a eternidade.
Essa arte visível – que é, entenda-se, mesmo arte – não é uma arte qualquer e uma tentativa menor de se mudar o mundo; não se vende nem se compra (só, então), mas olha-se, vê-se, repara-se, enaltece-se, valoriza-se – e, no fim de contas, também nos salva.
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