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A Europa renascida nas ruas de Paris

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“A crise emergente na Europa” é o subtítulo do livro que George Friedman lançou há dias e que comprei no aeroporto de O’Hara em Chicago dia 26 de Janeiro.

Interessante na sua parte autobiográfica, tipicamente americano nas sínteses históricas e prognósticos simplistas, o livro é muito revelador da consciência crescente no mundo do estado lamentável da Europa.

Em total contradição com o Fareed Zakaria que numa popular obra de 2003 previa que a tecnocracia europeia iria ser capaz de substituir a democracia americana que tinha deixado de funcionar, este livro de aeroporto evidencia o que agora todos sentem: a Europa está em profunda crise.

Quando vi ignorada pelo eleitorado a proposta de reforma europeia de que fui o principal motor em 2014 conclui que a convulsão europeia era inevitável, faltando apenas saber a modalidade em que ela se iria desenrolar.

A profunda crise grega começou pelo desaparecimento do mapa político dos socialistas, incapazes de protagonizar o reformismo social-democrata que fez da segunda internacional (a internacional socialista) o principal motor de progresso humano e social na Europa do século XX e diluindo-se na amálgama da ideologia monetarista europeia. Ela teve agora a sua sequência natural, a vitória eleitoral de uma coligação esquerda-direita unida pela rejeição da construção europeia; uma espécie de partido europeu do arco governativo virado do avesso.

A Grécia é apenas o precursor do que se irá passar em todo o Sul da Europa. Em Portugal, o processo político contra o anterior líder socialista e Primeiro-ministro e o início de um breve interlúdio eleitoral da política de austeridade poderá levar a que o cenário grego leve um pouco mais de tempo a vir ao de cima, mas inevitavelmente isso acontecerá.

A distração com a crise grega – como se ela fosse recente – retirou temporariamente a atenção do Reino Unido, onde o euroceticismo se tornou esmagador e que o atual Presidente da Comissão Europeia convidou a deixar a Europa numa das mais impressionantes manifestações de falta de senso e de modos a que eu assisti nos últimos tempos.

O possível cheque mate, a implosão da Europa construída nas últimas sete décadas, virá no entanto necessariamente apenas da França, se a cavalgada da Frente Nacional FN e o seu cada vez mais ostensivo namoro à extrema-esquerda chauvinista forem vitoriosos.

Com ou sem implosão, a convulsão é garantida. O BCE e a Comissão Europeia tentam combater a crise europeia sem questionar o quadro legal mas enfrentando a total oposição da ortodoxia “ordoliberal” alemã (ironicamente apoiada pelas atuais autoridades portuguesas que dão sistematicamente a ideia de não saber o que fazem). Na frente externa, a Europa soçobra perante a guerra de atrição promovida pela Rússia.

E, no entanto, a luz vem por vezes de onde menos se espera. O múltiplo atentado do fanatismo islamista contra caricaturistas, judeus e forças da ordem, deixou os apologistas do fanatismo – como a Dra. Ana Gomes – a falar sozinhos e permitiu pela primeira vez em muito tempo vislumbrar o renascer de uma Europa fundada em valores, com o apoio na rua de milhões de cidadãos de várias extrações sociais, pensamento político, origem étnica e confissão religiosa.

E talvez no fim desta convulsão que se anuncia sombria possamos ter uma razão de maior peso do que as outras para agradecer aos heróis da banda desenhada francesa que fizeram o Charlie Hebdo e que tiveram a coragem de enfrentar a censura fanática.

Austin, Texas, 2015-01-28
(Paulo Casaca)

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