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“A poesia não tem grades”

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O projecto “A Poesia não tem grades” nasceu em 2004 com o objectivo de incentivar a criação de hábitos de leitura nos Estabelecimentos Prisionais portugueses e tem sido desenvolvido em parceria com a Direcção Regional da Reinserção e dos Serviços Prisionais. Se a ideia inicial era “apenas” a promoção da leitura, conscientes da abertura de horizontes que ela proporciona e da influência positiva na vida de qualquer indivíduo, a experiência acumulada e o conhecimento de uma realidade muito específica transformaram este trabalho numa ferramenta complementar ao que é desenvolvido pelos técnicos, dentro e fora das prisões. Ainda que pequena, é a nossa contribuição.

As sessões decorrem com a utilização do texto poético como catalisador para a abordagem de temas importantes nas vidas das de quem cumpre uma privação de liberdade como pena pelos crimes cometidos. Amor, solidão, morte, dependências são alguns dos tópicos abordados sem paternalismos nem lições de moral. De resto, a aceitação desta abordagem ao longo dos anos prende-se precisamente com o facto de não se pretender nenhuma doutrinação mas sim estimular a auto-questionação e levar a que cada um percorra o seu próprio caminho. O apoio dado com a nossa intervenção pode ser mais eficaz e evidente em alguns casos mas o posicionamento é constante: o que importa é o que aqueles homens e mulheres poderão fazer com as suas vidas depois de cumprirem a sua dívida à sociedade. Isso e a percepção de que cada um de nós pode (com muito mais facilidade que imagina) ver a sua vida alterada de forma radical de um instante para o outro e ver-se na contingência de também ter uma pena a cumprir.

“O recluso de hoje é o nosso vizinho de amanhã” é uma frase que repito frequentemente para reforçar o entendimento que tenho da missão transversal que é a reinserção. A pena de prisão deve ser utilizada de forma correcta e devemos partir do princípio que assim acontece. Da mesma forma, cumprida essa pena devemos encontrar as condições para incluir quem já fez a sua parte do processo e isso passa por uma consciencialização da sociedade e que pode começar por coisas simples. Se depois de sermos tratados como “doente” num hospital não esperamos que alguém nos trate na rua como “ex-doente” porque achamos natural estigmatizar com a categorização de “ex-recluso” quem já cumpriu a sua parte? Sendo certo que nada nesta discussão é a preto e branco e que há muitas nuances a ter em conta, a verdade é que é fundamental a discussão, o debate e a quebra de mitos contraproducentes. Ajudar a envolver a sociedade neste processo é também um dos nossos objectivos e numa região com as idiossincrasias que os Açores apresentam esse papel ganha preponderância, pelo que o apoio da Direcção Regional da Cultura e de outras instituições como o Município da Lagoa ao nosso trabalho é um forte incentivo e a demonstração da consciência da sua utilidade.

Episódios recentes trouxeram à discussão, em termos muito alargados, os conceitos de cooperação e solidariedade e talvez tenham posto a nu alguns preconceitos baseados em medo e desconhecimento. No nosso projecto acreditamos que cada pequeno contributo faz a diferença e que se num grupo de vinte indivíduos conseguirmos obter resultados com um que seja isso já é uma grande vitória. Aquele a quem porventura tivermos ajudado a modificar positivamente a sua vida acabará por ter influência no resto do grupo e certamente estará mais capacitado para fazer melhor quando estiver fora dos muros da cadeia. E cada um de nós, estaremos disponíveis para mudar, para fazer mais e melhor, para ser solidário com outro ser humano independentemente de ele ter mais ou menos em comum connosco? Ou vamos ficar à espera do dia em que somos nós a precisar?

Filipe Lopes

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