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Ansiedade: até que ponto é natural conviver com ela?

Maria João Pereira
Farmacêutica

Nos dias que correm, a ansiedade é um termo amplamente utilizado, mas ainda pouco compreendido. Todos nós temos ansiedade – é uma resposta natural do nosso organismo ao medo, perigo e ao stress. Quem nunca sentiu algum nervosismo antes de uma apresentação ao público ou antes de um teste? Nestas situações, é ativado no nosso organismo o sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de “lutar ou fugir”. No fundo, a ansiedade existe como mecanismo de proteção que prepara o nosso corpo para reagir em caso de necessidade, aumentando a frequência cardíaca, a nossa atenção e tensão muscular.
A ansiedade torna-se um problema quando começa a causar alterações no nosso quotidiano, manifestando-se de modo excessivo, desproporcional e persistente, gerando um sofrimento intenso – aqui estamos perante uma perturbação de ansiedade.

As perturbações de ansiedade podem-se manifestar de várias formas e intensidades, sendo as mais comuns:

  • Perturbação de ansiedade generalizada: medo e preocupação excessiva e persistente relativamente a um ou vários aspetos do dia-a-dia (mesmo sem uma ameaça real iminente), acompanhada de sintomas físicos como tensão muscular, alterações gastro-intestinais, inquietação, fadiga física e mental, insónia, dificuldades de concentração, palpitações, sudação, tonturas;
  • Fobias: medos intensos e irracionais de situações, seres ou objetos levando o indivíduo a evitá-los (por exemplo: fobia de andar de avião, de animais ou insetos, das alturas, de lugares fechados);
  • Ansiedade social: caracteriza-se pelo medo intenso da exposição a outras pessoas. É acompanhada pelo medo da humilhação e rejeição, fazendo com que o indivíduo evite locais com muita gente;
  • Perturbação de pânico: são crises repentinas e intensas de medo, conhecidas como ataques de pânico, em que o indivíduo pode experienciar sensação de falta de ar, taquicardia e dor no peito, tontura e desmaio, sensação de perda de controlo total.

As causas da perturbação da ansiedade podem ser variáveis, incluindo fatores biológicos (predisposição genética e desequilíbrio nos neurotransmissores), fatores psicológicos (acontecimentos traumáticos, padrões de pensamentos negativos), fatores ambientais e estilo de vida (consumo de substâncias químicas, problemas de saúde mental ou físicos, sedentarismo, excesso de stress). As redes sociais, tão úteis nos dias de hoje, podem ser grandes impulsionadoras da ansiedade, fazendo-nos acreditar que tudo é perfeito na vida dos outros e que nós não somos suficientes.

Felizmente, a ansiedade tem sido extensamente debatida e são conhecidas várias estratégias para preveni-la ou controlá-la quando ela aparece: a prática de mindfulness (atenção plena ao momento presente), técnicas de respiração, exercício físico regular, alimentação equilibrada e uma rotina de sono adequada.

No entanto, em muitos casos, as mudanças para um estilo de vida mais equilibrado não são suficientes para o controlo da ansiedade. Procurar ajuda diferenciada, como um psicólogo e/ou psiquiatra, pode ser fundamental. É importante relembrar que um amigo não é um psicólogo.

Sentir ansiedade é normal. O que não é normal é ela controlar a nossa vida. É necessário falar sobre ela, identificá-la e pedir ajuda. Sem medos, sem preconceitos.

Viver com ansiedade é como viver com alguém sempre a falar na nossa cabeça, a colocar-nos medo e inseguranças. Já não tem de ser mais assim. Garanto-vos: ninguém está sozinho nessa caminhada.

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