“Com Carlos Carreiro é uma festa”. Foi esta a fala de Tomaz Borba Vieira quando lhe transmiti que seria o pintor a ter uma exposição inserida na 8.ª edição da Feira do Livro do concelho de Lagoa.
Sorri com o seu dizer. Efetivamente, um dos objetivos da edição da Feira do Livro deste ano, promovida pela Câmara Municipal de Lagoa e com a parceria da Escola Secundária de, é envolver a comunidade num evento que pretende ser (também) festivo. E a obra de Carlos Carreiro tem este lado; o próprio refere que exerce “a profissão com uma paixão obsessiva e com um misto de humor e alegria”, o que se reflete nas suas telas. Para ajudar à festa, o pintor celebra 70 anos e assinala com a exposição que traz à ilha a sua 70º exposição individual.
Falar da sua obra, é falar da cor, algumas electrizantes que nos remetem para o mundo do imaginário: das lendas, dos mitos, das histórias que se enredam e que nos trazem a ilha de outros tempos. É também falar da técnica apurada numa materialização muito própria das suas referências culturais. Creio que, se por um lado, o pintor nos traz a mística da ilha, nos aguça a curiosidade para desvendar a narrativa e os símbolos presentes nas suas telas, também nos leva a adotar uma postura reflexiva da atualidade. Se temos a ilha em Carlos Carreiro, também temos a globalização. E não há como não refletir na sociedade dos dias de hoje, quando olhamos para algumas das suas obras, não há como não pensar no consumismo, no ruído, na artificialidade. Aliás, Egídio Álvaro, aquando da exposição do pintor, em 1977 em Paris, escreveu que “era uma pintura de excessos e das contradições da nossa época”. Volvidos mais de 30 anos, Carlos Carreiro continua a mergulhar e a fazer-nos mergulhar nos excessos. Segundo o pintor, tempos houve em que almejou desfazer-se dos figurantes, mas estes persistiram em voltar. É como se fizessem parte do BI do artista, serve-se deles, nesta exposição, para contar a lenda dos Sete Bispos ou para mostrar como o saber parece submerso na contemporaneidade.
O pintor, que diz viver rodeado de livros, recorre ao provérbio “livro fechado, não faz letrado”, para intitular uma das suas obras. Curiosamente (ou talvez não), esta exposição é promovida pelo município de Lagoa, através de uma biblioteca que procura assumir-se como uma força viva para a educação e para a cultura, procurando desenvolver um trabalho de promoção da leitura e que o saber seja assimilado, partilhado.
O impacto visual da obra de Carlos Carreiro poderá, à priori, transmitir a ideia de uma pintura feliz; desenganemo-nos. É uma festa, mas uma festa séria, que nos confronta com o aparato e artificialidade dos dias de hoje. Para ver, no Convento dos Franciscanos, onde se encontra instalada aquela que é, aos meus olhos, a biblioteca mais bonita da ilha, a partir do dia 9 de abril.
Texto: Teresa Viveiros
Crónica na edição impressa de abril de 2016.
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