
Num final de tarde de quarta-feira, o Diário da Lagoa (DL) dirigiu-se à freguesia do Livramento, em Ponta Delgada, onde foi recebido por Telma XXX, Marco YYY e o filho de sete anos, Xavi, num espaço onde o cantar dos pássaros se fazia ecoar por entre as árvores. Conhecemos, assim, a Mata do Pópulo. A ideia do projeto surge com o nascimento do filho do casal. “Percebemos que a infância das crianças de hoje estava muito diferente da que nós tivemos e queríamos dar ao Xavi uma infância como a nossa”, explica Telma. Inspirados na abordagem Forest School, oriunda dos países nórdicos e que defende que o contacto com a natureza estimula a aprendizagem, Telma e Marco criaram, em setembro de 2023, este espaço.
A Mata do Pópulo, com 2000 metros quadrados, é um local onde a brincadeira espontânea vem ao de cima. O casal defende a importância de deixar a imaginação das crianças fluir, dando-lhes alguma independência. Na mata, os mais novos têm a liberdade para criar a partir da natureza: “Num espaço fechado com brinquedos comprados pelos adultos, um carro sempre será um carro. Aqui, um pau pode ser o que eles quiserem”, afirma Telma.
A falta de autonomia que as crianças apresentam atualmente preocupa profundamente o casal, que refere que muitos pais já não permitem que os filhos explorem sozinhos: “Os pais não deixam as crianças sujarem-se ou molharem-se, mas dão-lhes um telemóvel onde está o mundo todo”, sublinham. É neste sentido que a Mata do Pópulo procura dar mais independência aos mais pequenos, não só por não controlarem a “brincadeira”, mas também pela atribuição de tarefas, como forma de contribuir para uma maior autonomia na infância, estimulando as crianças a ser mais participativas em casa.

A criação da Mata do Pópulo surge, em grande parte, como resposta ao uso excessivo dos dispositivos móveis por parte das crianças, muitas vezes incentivado pelos próprios pais: “Se não se der o telemóvel a uma criança, elas fazem muitas outras coisas”, diz Telma, que também explica que a “libertação de dopamina” destes aparelhos cria o mesmo vício que “outras drogas”.
O casal alerta para a necessidade de encarar esta problemática como um perigo real e afirma que o “uso excessivo dos ecrãs pelas crianças” tem contribuído para o fim da “brincadeira livre e não estruturada”. A fase de desenvolvimento em que, outrora, se aprendia através do erro, dá hoje lugar ao elevado número de horas passadas em frente aos telemóveis. “Para uma criança aprender a andar, tem de cair e levantar-se sozinha. Se ela passa o tempo sentada em frente a um ecrã, não tem essa possibilidade”, explicam.
A Mata do Pópulo responde a estes problemas através de um conjunto de atividades assentes no contacto com a natureza, num ambiente “seguro e estimulante”. Os playgroups são um dos principais programas da mata e, organizados em sessões temáticas de cerca de duas horas, incluem um exercício de “conexão com os pássaros e com as árvores”, jogos tradicionais, mexer na terra, subir às árvores, construir e criar através da imaginação, assim como um momento de histórias e um “lanche saudável” na “zona do teatro”. O objetivo é que, apesar de acompanhados pelos pais, os mais novos consigam “fazê-lo sozinhos”.
Enquanto corta autonomamente um melão para o lanche da tarde, Xavi participa da entrevista e resume a Mata do Pópulo à sua maneira: “Gosto de fazer cabanas, brincar com as pedras e de me sujar”, diz ao DL.
Telma e Marco referem que a mata acolhe também festas de aniversário e visitas escolares, mas que é durante as férias, quando as crianças lá ficam “oito horas por dia”, que notam as principais diferenças: “Recebemos feedback dos pais que nos dizem que o filho dormiu uma noite inteira pela primeira vez, ou que a relação com os irmãos mudou do dia para a noite”, contam ao DL. A “desintoxicação dos ecrãs” nas crianças é possível, explica o casal, e levá-las à Mata do Pópulo é um ponto de partida para uma “mudança” que também deve ser incentivada em casa pelas famílias.

A cozinha de lama é um dos pontos principais da Mata do Pópulo e combina objetos de cozinha com aquilo que a natureza fornece. O que se pretende é que as crianças imitem as “atividades culinárias” através da “mistura de ingredientes naturais, como folhas ou terra”, estimulando a criatividade e a “exploração sensorial”.
Com o seu potencial educativo, a iniciativa expandiu-se para além dos muros da mata. Marco destaca que muitos recreios escolares se resumem atualmente a “cimento”, sem equipamentos ou espaços para jogos e explica que levar a cozinha de lama às escolas, é uma forma de contrariar esta realidade, além de “aumentar a imunidade e diminuir as doenças”. “É importante que as escolas não olhem para as cozinhas de lama como um baloiço ou um escorrega, mas sim como uma aula, onde as crianças vão todas as semanas e aprendem”, acrescenta. São cerca de 20 as escolas que já aderiram a esta iniciativa e os pedidos continuam a surgir.
A verdade é que o reconhecimento à Mata do Pópulo tem vindo a aumentar e são cada vez mais as famílias e as instituições que percebem os seus benefícios. O casal sente-se realizado com o que já conseguiu conquistar e, o facto de muitas vezes, serem reconhecidos pelas crianças na rua, fá-los ter a certeza de que estão a seguir o caminho certo: “As crianças saem daqui com vontade de voltar e é isso que nos interessa”, contam ao DL. Mas confessam que têm mais um objetivo a concretizar: o de poder levar mais escolas à mata. Chegar a todas as crianças ainda é um desafio e ambos consideram que existem muitas delas com necessidades específicas e contextos familiares mais fragilizados que “precisam de ir para a rua com muita frequência”. Um caminho que reconhecem passar pelas autarquias e outras entidades: “Não depende só de nós”, esclarecem.
No final da entrevista, os criadores da Mata do Pópulo partilham duas mensagens com os pais. Através da expressão nórdica “Não existe mau tempo, apenas roupa inadequada”, o casal apela a que se incentive as crianças a sair e a “sujarem-se” e pedem aos pais que “brinquem com os seus filhos”, sublinhando que, apesar do “cansaço” do dia a dia, “o tempo passa a correr e eles um dia seguirão as suas vidas”.
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