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Embaixadora ucraniana: “Portugal é um povo muito solidário”

Em visita oficial aos Açores para reforçar laços institucionais e apoiar a comunidade local, a embaixadora da Ucrânia em Portugal partilhou o orgulho na resiliência do seu povo. Maryna Mykhailenko elogia a solidariedade e o “coração grande” dos portugueses, destacando o desejo dos ucranianos residentes no arquipélago em promover a sua cultura enquanto enfrentam as incertezas de um futuro em tempo de guerra

Maryna Mykhailenko recebeu o nosso jornal nas instalações da AIPA em Ponta Delgada © NOTÍCIAS QUE CONTAM

Recebeu-nos nas instalações da AIPA – Associação de Imigrantes dos Açores, em Ponta Delgada. Foi aqui que esteve reunida com quase duas dezenas de ucranianos que vivem na região, no passado dia 13 de maio, dia em que Maryna Mykhailenko conversou, em privado, com o Diário da Lagoa (DL).

DL: Por que veio aos Açores?
Nós realmente apreciamos o apoio português. Os portugueses, tanto ao nível do governo como dos cidadãos comuns, são muito solidários; são pessoas com um coração grande, e isso é extremamente importante neste momento desafiante. Esta visita tem três grandes objetivos. O primeiro é conhecer o vosso governo — o presidente dos Açores, o representante da República e o presidente da câmara da capital — para discutir a cooperação inter-regional. Sou uma grande entusiasta deste modelo e temos várias regiões ucranianas interessadas em estabelecer contacto com os Açores. O presidente do governo regional mostrou-se muito aberto a esta cooperação, que faremos também através do governo de Portugal.
O segundo objetivo é falar com a nossa comunidade. Portugal ofereceu o estatuto de proteção temporária e acolheu muitos ucranianos. Há cerca de 60 mil no total, sendo que 30 mil chegaram após o início da guerra em 2022. Somos a quarta maior comunidade estrangeira em Portugal, segundo a AIMA. Tentamos estar em contacto próximo com as nossas pessoas para entender os seus problemas, mas, em geral, estão muito bem integradas. O governo dos Açores indicou-nos que existem cerca de 70 ucranianos nas ilhas, mas a comunidade local estima que possam ser cerca de 200, uma vez que muitos chegaram antes e já adquiriram a cidadania portuguesa.
O terceiro foco é estabelecer e manter o contacto entre jovens. No ano passado, em parceria com a representação da Comissão Europeia, implementámos o projeto “Enlargement Camp”, que levou 20 jovens portugueses a Lviv — que era então a Capital Europeia da Juventude — para passarem quatro dias com 20 jovens ucranianos. Dois jovens dos Açores participaram e, inclusive, organizaram recentemente uma conferência sobre o tema na universidade local.

DL: Os Açores receberam vários refugiados ucranianos. Como olha para eles? Tivemos uma reunião muito dinâmica. O principal tema que levantaram foi sobre como apresentar mais a nossa cultura e organizar eventos dedicados à Ucrânia para os amigos portugueses. Discutimos projetos culturais porque há muitos músicos e artistas integrados aqui. Eles são muito ativos, querem fazer mais e pediram o apoio da Embaixada. Estamos totalmente prontos para ajudar, seja na promoção da cultura ou na organização de mostras de cinema.

DL: Como olha para a guerra no seu país?
Não foi uma escolha nossa. Somos uma nação pacífica, a Ucrânia nunca quis esta guerra, mas agora não temos outra opção senão lutar e defender a nossa soberania e a nossa escolha europeia. Esta guerra não é por territórios, não é pelo Donbass ou pela Crimeia; é sobre o nosso direito de pertencer à família europeia e ser um país democrático. Desde 2014, quando assinámos o acordo de associação com a União Europeia, iniciámos reformas profundas que continuamos a implementar, mesmo durante a guerra. Estamos prontos para negociações pacíficas e queremos uma paz sustentável e de longa duração, mas, infelizmente, não vemos até agora qualquer prontidão do lado russo para negociar seriamente.

DL: Como vê a relação entre os Estados Unidos e a Ucrânia?
Para nós, é extremamente importante ter os Estados Unidos a bordo por serem parceiros vitais. Atualmente, somos muito autónomos no desenvolvimento de drones e tecnologia semelhante, mas precisamos do apoio norte-americano no que toca a sistemas de defesa aérea. Continuamos a dialogar com eles e a demonstrar que a Ucrânia não é um obstáculo para a paz, mantendo os EUA firmes na mesa de negociações.

DL: Donald Trump acredita que a paz é iminente na Ucrânia. Acha que o presidente dos Estados Unidos é muito otimista?
Acho que a guerra pode ser travada imediatamente se o lado russo tomar essa decisão e estiver genuinamente pronto para negociar. Para ser honesta, acredito que o presidente dos Estados Unidos quer realmente esta paz e tenta fazer o seu melhor, mas, infelizmente, ainda não vemos uma preparação séria do lado russo para conversar connosco.

DL: Qual é o principal desafio de ser embaixadora em Portugal?
Em Portugal não há desafios desse género, estou muito feliz por estar colocada aqui porque os portugueses facilitam o meu trabalho pela sua enorme solidariedade. O verdadeiro desafio é ser embaixadora em tempo de guerra. Falamos de uma diplomacia que não é clássica; precisamos de dominar assuntos que vão desde o armamento até à crise energética para podermos pedir o apoio adequado aos nossos parceiros. O desafio é manter a Ucrânia no foco internacional após anos de guerra total. Portugal tem sido exemplar tanto na condenação da agressão russa como no apoio crucial à nossa integração europeia.

DL: Que preocupações os seus conterrâneos nos Açores lhe transmitiram?
Várias. Muitas pessoas estão bem integradas, mas planeiam regressar à Ucrânia assim que a guerra acabar — e nós queremos que regressem, porque as pessoas são o maior ativo de um Estado. Outras querem o apoio da embaixada para promover a nossa língua e cultura localmente. Há também a preocupação legítima sobre o que acontecerá após 2027, quando terminar o estatuto de proteção temporária. De um modo geral, estão muito satisfeitas e comovidas com o apoio, abertura e solidariedade dos cidadãos açorianos.

DL: O que espera para o futuro do seu país?
Acredito profundamente no meu país e estou muito otimista sobre o futuro da Ucrânia. O nosso povo é incrivelmente forte e resiliente. Sinto um orgulho imenso nos nossos jovens. A grande diferença entre a Ucrânia e a Rússia é a nossa estrutura social baseada na entreajuda horizontal. Vencemos a batalha de Kiev e de muitas outras cidades no início da guerra devido à consolidação da sociedade civil. Não foram apenas os militares, foi toda a população que se uniu. Continuamos unidos e prontos para lutar pelo futuro do nosso país.

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