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O abastecimento público de água no Concelho de Lagoa

Sandra-Monteiro-opiniao-cronicas-antigamente

As povoações fixaram-se sempre junto a cursos de água ou próximas de nascentes de água potável, vivendo em áreas rurais onde a dependência do mundo natural, dos seus ciclos e dos seus produtos permitiram a produção e reprodução da sua maneira de viver.

O Concelho de Lagoa, entre o monte e o mar, sempre possuiu uma relação direta com a água, quer através das atividades primárias como a agricultura, a pecuária ou a pesca, quer de atividades industriais, comerciais ou de serviços.

A água que abastecia Santa Cruz e o Rosário provinha, inicialmente, apenas das nascentes do Borquilho, com cerca de 4/5 nascentes e da Tufeira com cerca de 7/8 nascentes. Na totalidade chegavam a atingir 700m3 no Inverno e 300m3 no Verão, já que algumas secavam em tempo estival. Para tentar colmatar este problema, a Câmara Municipal solicitava, aos gerentes da fábrica de destilação de álcool de Lagoa, para aumentar o volume da água que concediam das suas nascentes privadas. Mas, nem sempre a Câmara cuidava da captação e canalização das águas pois muitos ricos aproveitavam as nascentes existentes nas suas propriedades, conduzindo-as para as suas dependências agro-pecuárias.

Sendo a água uma propriedade do município, toda a atividade com ela relacionada estava regulamentada nas posturas camarárias. O agueiro, responsável por examinar, limpar, resguardar nascentes, arquinhas e encanamentos, inicialmente, era um empreiteiro que arrematava em hasta pública, por um ano e por uma determinada quantia, a manutenção e conservação do encanamento da água mas, passou a ser um funcionário camarário com salário certo e sem dia de descanso. Cabia ao município toda a despesa de condução, captação e conservação das águas, que através de aquedutos era transportada até aos povoamentos. As arquinhas abriam-se no trajeto ou derivação do curso de água para casa das pessoas, através de uma divisória com anéis designados penas. Umas construídas nos muros, a diferentes alturas, outras no chão sendo sujeitas a contaminação de enxurradas e de dejetos.

As fontes e chafarizes eram considerados obras de grande importância pública pois desempenhava um papel económico e social, possuindo, muitas vezes, um tanque que servia de bebedouro para os animais. Muitas fontes foram sendo construídas por ação camarária, por obra de particulares ou com a inscrição C.P., isto é, “Câmara e Povo”, sendo esse registo testemunha da cooperação entre as municipalidades e os munícipes.

Raras eram as pessoas que, a título particular, possuíam água nas suas propriedades por não ser considerado prático, pensando-se que poderia até estragar a casa. O afluxo à fonte era prática diária e para manter a higiene e a limpeza do local, não eram permitidas lavagens, atividades artesanais ou industriais, no local, para que se mantivesse a água potável e acessível à população.

As águas inicialmente eram conduzidas das nascentes por calhas de madeira, passando as canalizações a ser feitas de barro cozido regional. Os problemas eram a fragilidade e a entrada de raízes que dificultavam a passagem de água chegando a rebentar os próprios canos.

O abastecimento particular de água foi aumentando, com o pedido de penas de água à Câmara Municipal. A pena de água era uma peça de cerâmica com uma amplitude variável para a passagem da água do ramal público, dentro da arquinha, para o abastecimento particular e a tubagem conduzia a água à casa de quem a havia solicitado.

O transporte de água era feito em vasilhame de barro, conservando a frescura da água. Para abastecimento e para colmatar falhas, alguns possuíam reservatórios construídos pelo proprietário e os talhões de barro eram cheios e colocados dentro da residência.

A água poderia ter diferentes utilizações. A nível doméstico era usada para a confeção dos alimentos, da lavagem da casa e das pessoas ou para decoração de jardins. Nas atividades agro-pecuárias, havia bebedouros nos montes onde o gado pastava e tanques nas estufas. A nível industrial, como exemplo, a água era utilizada na produção de álcool, nos fornos de cal, nas moagens e indústria caseira de tecelagem de lã e linho.

Assim, ontem como nos dias de hoje, o Homem continua a ter uma relação de dependência dos recursos naturais, nomeadamente da água como fonte de sobrevivência e manutenção da vida.

Sandra Monteiro 
CHAM – FCSH/NOVA-UAc

Fontenário Canada de Santa Bárbara

Fontenário com arquinha e tanque, Canada de Sta. Bárbara, Rosário  – Sandra Monteiro, 2011

 

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