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O que fazer quando o telemóvel tocar durante uma missa exequial?

Nuno Maiato
Padre

Sem sair do seu lugar, na capela onde celebrávamos a eucaristia, diante dos vivos e do morto, o senhor atendeu, falou e desligou o telemóvel com a maior naturalidade deste e do outro mundo. Creio que se tratou de um ato irrefletido, sem maldade, mas muito pouco adequado ao momento que estávamos a celebrar.

Aparentemente era um senhor reformado, no seu juízo perfeito, e sem assuntos urgentes a tratar, mas as aparências podem enganar. Por isso, mais do que um julgamento, apraz-me refletir sobre a dependência excessiva que este aparelho – de indiscutível utilidade – nos tem vetado a todos.

Com efeito, num tempo em que se valoriza em demasia o momento e se avalia apenas no imediato, incutiram-nos duas coisas: temos de estar sempre disponíveis para atender uma chamada e quando não estivermos, cometemos um pecado grave porque devíamos estar. Perante estas e outras ideias, que certas campanhas publicitárias nos incutem, sem darmos por isso, somos cada vez menos livres de dar ao aparelho o seu devido uso e adequado valor. Além disso, existe um empobrecimento do nosso modo de falar, de estar, numa palavra, de comunicar pela dependência deste e de outros aparelhos semelhantes. Por este caminho, atrevo-me a imaginar que dentro de poucos anos chegaremos ao ponto de quando comprarmos um telemóvel este trazer obrigatoriamente gravado uma mensagem a informar os malefícios que ele tem para a saúde, como numa carteira de tabaco, e ainda vir-se a investir em campanhas de prevenção e desintoxicação contra esse mal, que apareceu para nosso bem.

Neste tempo da quaresma, mais do que discutirmos eternamente o que devemos comer às sextas-feiras ou escrutinarmos a vida e o testemunho dos romeiros, é um tempo favorável para refletirmos naquilo que nos pode estar a escravizar e deste modo a afastar da vontade de Deus e do amor aos outros e a partir da constatação destes vícios e afins mudar para que possamos viver como homens e mulheres livres. Certamente que o uso que damos ao telemóvel não será o nosso maior mal, mas seja qual for só saímos vitoriosos de uma guerra, batalha em batalha, começando pelas mais pequenas, e mais fáceis de vencer. Na guerra contra o mal não é diferente.

Então, o que fazer quando o telemóvel tocar durante uma missa exequial?

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