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O tempo deu-nos razão

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

Lembro-me bem da noite de 4 de fevereiro de 2024. Enquanto muitos festejavam resultados, distribuíam lugares e faziam contas ao poder, deixei um aviso que na altura poucos quiseram ouvir.

Disse que a estabilidade dos Açores não podia ficar dependente apenas da soma de deputados. Disse que havia diferenças profundas entre os parceiros daquela solução governativa. E disse que mais cedo ou mais tarde essas divergências acabariam por vir ao de cima.

Na altura, houve quem desvalorizasse o alerta. Houve quem dissesse que o CHEGA estava apenas a fazer oposição. Houve quem acreditasse que bastava assinar acordos e distribuir cargos para garantir quatro anos de estabilidade.

Passaram mais de dois anos. E hoje, infelizmente para os Açores, toda a gente consegue ver aquilo que nós víamos nessa noite. O tempo deu-nos razão.

A crise não está no CHEGA ou na oposição. Nunca esteve.

A crise está dentro do Governo Regional. A crise está dentro da própria coligação. E quanto mais tentam escondê-la, mais evidente ela se torna.

Os açorianos assistem a declarações contraditórias, a sinais de desconfiança entre parceiros, a posicionamentos públicos incompatíveis com uma maioria coesa e a uma crescente sensação de que alguns dirigentes políticos estão mais preocupados com o seu futuro do que com o futuro da Região.

Mas existe um aspeto ainda mais grave.

Ao longo dos últimos anos, os Açores fizeram um esforço para ultrapassar velhos bairrismos e rivalidades artificiais entre ilhas. Com dificuldades, é certo.

Mas sempre com a consciência de que o futuro da Região depende da união das nove ilhas e não da divisão entre elas.

Infelizmente, o Vice-Presidente do Governo decidiu ressuscitar alguns dos piores fantasmas da política açoriana. Os fantasmas do bairrismo. Os fantasmas das ilhas contra ilhas. Os fantasmas daqueles que sempre viveram politicamente da divisão, da intriga e do conflito territorial.

E rapidamente apareceram os suspeitos do costume. Os mesmos que durante décadas alimentaram rivalidades artificiais.

Os mesmos que transformaram a política regional numa permanente disputa entre ilhas. Os mesmos que parecem acreditar que para uma ilha ganhar, outra tem de perder.

Essa nunca foi a nossa visão. Nem nunca será.

Os Açores não avançam divididos. Os Açores não crescem quando se alimentam ressentimentos. Os Açores não resolvem os seus problemas colocando açorianos contra açorianos.

Aquilo a que assistimos não é uma estratégia para os Açores. É uma estratégia de sobrevivência política. Uma estratégia que parece preocupar-se mais com a defesa de interesses localizados do que com os interesses da Região.

Mas quem exerce funções governativas não representa apenas uma ilha. Representa nove ilhas. Representa todos os açorianos. E tem a obrigação de governar para todos.

É precisamente por isso que esta situação não pode continuar a ser ignorada. Porque os Açores têm desafios demasiado importantes pela frente.

Temos a SATA. Temos o futuro do Hospital do Divino Espírito Santo.

Temos a preparação e execução dos próximos quadros comunitários europeus. Temos problemas graves na habitação. Temos dificuldades persistentes na saúde. Temos jovens que continuam a abandonar a Região por falta de oportunidades. Temos uma economia que precisa de mais crescimento, mais investimento e mais competitividade.

Nada disto se resolve com guerras internas. Nada disto se resolve com recados políticos. Nada disto se resolve com um Governo dividido. E é exatamente isso que temos hoje.

Uma paz podre. Uma paz podre onde todos fingem que está tudo bem. Uma paz podre onde ninguém quer assumir aquilo que já é evidente. Uma paz podre onde se tenta ganhar tempo enquanto a confiança desaparece e a instabilidade aumenta.

Quero deixar uma coisa muito clara. O CHEGA não quer eleições antecipadas. E aquilo que sentimos todos os dias na rua é que os açorianos também não as querem.

As pessoas estão cansadas de jogos políticos. As pessoas querem estabilidade. Mas estabilidade verdadeira.

Não estabilidade para proteger lugares. Não estabilidade para manter cargos. Não estabilidade para preservar interesses partidários.

Os açorianos querem estabilidade para governar. Querem estabilidade para decidir. Querem estabilidade para enfrentar os desafios que temos pela frente.

Foi precisamente por isso que o CHEGA foi o primeiro partido a exigir uma clarificação política. Foi o CHEGA o primeiro a dizer que os açorianos tinham direito a saber se esta maioria continua ou não unida. Foi o CHEGA o primeiro a defender uma Moção de Confiança.

Enquanto outros faziam cálculos eleitorais. Enquanto outros avaliavam sondagens. Enquanto outros se preocupavam em não perder os seus lugares dourados.

O CHEGA preocupou-se com aquilo que realmente interessa: a estabilidade da Região.

Porque quem acredita na sua maioria não tem medo de a confirmar. Quem acredita no seu Governo não tem medo da transparência. Quem acredita no seu projeto político não foge aos esclarecimentos.

Ao longo desta legislatura, o CHEGA demonstrou que sabe ser firme quando é necessário e responsável quando os interesses dos Açores estão em causa.

Fomos decisivos na defesa dos pensionistas mais pobres da Região. Fomos persistentes na denúncia dos problemas da saúde, dos transportes e da gestão pública. Fomos exigentes quando foi preciso.

E fomos responsáveis quando a estabilidade da Região esteve em causa. Continuaremos a sê-lo.

Porque aquilo que está em causa não é o futuro de um partido. É o futuro dos Açores.

E os Açores merecem mais do que uma coligação preocupada em sobreviver.

Merecem um Governo preocupado em governar. Merecem transparência. Merecem estabilidade. Merecem verdade.

Na noite de 4 de fevereiro de 2024 avisámos que os maiores riscos para a estabilidade da Região estavam dentro da própria solução governativa.

Dois anos depois, os factos falam por si. O tempo deu-nos razão.

Mas não retiramos qualquer satisfação disso.

Porque quando uma previsão política se confirma à custa da instabilidade governativa, quem perde não são os partidos. Quem perde são os Açores.

E os Açores já perderam demasiado tempo em pequenas guerras e lutas de egos inchados.

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