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Os Açores Merecem Melhor

André Silveira

Vivemos tempos perigosos para as democracias liberais. O avanço de discursos populistas, muitas vezes ancorados na simplificação demagógica dos problemas e na exploração emocional das massas, é um fenómeno global, mas ganha contornos particularmente graves em comunidades pequenas, insulares e periféricas como a nossa. Nos Açores, esse risco é real, palpável e alimentado, sobretudo, pela falência ética e institucional da política convencional, como pelo fracasso desta Autonomia, com as suas clientelas e desigualdades acentuadas.

Combater o populismo exige, antes de mais, dignidade, competência e transparência. Exige falar a verdade às pessoas, mesmo quando ela é incómoda, e sobretudo aceitar a responsabilidade política pelos atos e pelas decisões. Tudo o que não se faz nos Açores. Nas últimas décadas, acumulam-se os insucessos: ausência generalizada de políticas públicas eficazes, gestão danosa de recursos públicos, oportunidades perdidas em áreas como o turismo, a mobilidade ou a gestão do mar, mas principalmente o fracasso na resolução dos problemas das pessoas. Contudo, não há memória de um único político Açoriano que, perante o falhanço de uma estratégia ou a evidente incompetência de uma execução, tenha assumido responsabilidades e apresentado a demissão. Esta cultura de irresponsabilidade é, por si só, um convite ao populismo.

A narrativa populista cresce quando as pessoas percebem que há uma elite política imune às consequências dos seus erros. Nos Açores, o populismo não se combate apenas com bons programas ou promessas eleitorais; combate-se, essencialmente, criando muros intransponíveis entre a governação e os interesses económicos, religiosos e corporativos que historicamente se habituaram a ter assento privilegiado à mesa do poder. A proximidade, para não dizer promiscuidade, entre estes interesses e o aparelho político-partidário é um fator de instabilidade democrática. Ela fomenta a indignação popular, alimenta teorias conspiratórias e gera terreno fértil para o voto emocional nos que prometem “varrer tudo” e “devolver o poder ao povo”.

É precisamente esta diluição de fronteiras entre os decisores públicos e os interesses privados que corrói os alicerces da democracia regional. A promiscuidade histórica entre negócios, enclaves religiosos e aparelhos partidários constitui, há décadas, a verdadeira marca d’água da política Açoriana, comprometendo a integridade das instituições e a imparcialidade da governação. E cada vez que o cidadão comum se depara com decisões públicas que favorecem sistematicamente os mesmos protagonistas, ou com a nomeação de familiares e amigos para cargos públicos, mais se aproxima o dia em que os populistas terão votos suficientes para pôr em causa as regras do jogo.

O combate ao populismo faz-se também com desapego ao poder. A demissão, quando existe razão objetiva para tal, não é um ato de fraqueza, mas o expoente máximo de dignidade política. Em democracias maduras, é normalíssimo que quem assume um cargo de serviço público abandone funções após falhanços graves ou perda de condições de governabilidade. Nos Açores, esse gesto é visto quase como heresia. Esta incapacidade de reconhecer limites não enobrece quem se agarra ao cargo, pelo contrário, descredibiliza a função e contribui para o descrédito generalizado da política. E cada vez que alguém se agarra ao poder sem condições objetivas para governar, abre-se mais uma brecha por onde o populismo se insinua.

Parte do problema reside no facto de muitos dos nossos políticos não terem qualquer alternativa profissional para além da política. São produtos de um sistema partidário fechado sobre si mesmo, que não premia a competência nem a meritocracia, mas antes a fidelidade e a obediência. A política regional tornou-se, em demasiadas ocasiões, um centro de emprego onde se distribuem cargos e assessorias como prémio de carreira ou compensação por lealdades passadas. Este ciclo vicioso perpetua a mediocridade e impede a renovação do pensamento político, afastando da vida pública os melhores e mais capazes.

Urge, pois, refundar a prática política Açoriana em valores sólidos. Reintroduzir a responsabilidade, a dignidade, a competência e o desapego ao poder como requisitos mínimos para o exercício da função pública. Só assim se resgata a confiança das pessoas e se bloqueia o avanço dos aventureiros do ressentimento. Contudo, tenho muito pouca esperança de que essa refundação venha dos partidos ditos convencionais, demasiado enredados nas suas próprias clientelas e incapazes de fazer a ruptura que se impõe. Creio, antes, que essa responsabilidade acabará por recair sobre a própria sociedade civil, sobre cidadãos e instituições independentes, sobre os que não têm medo de afrontar o status quo e de exigir uma política feita de princípios e não de interesses. Porque a alternativa a isso é conhecida, e a história ensina-nos que, quando a democracia falha repetidamente, os populistas não perdoam. Os Açores merecem mais e melhor.

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