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Segmentar e qualificar

Rui-Almeida-Opinião

Há muito que os Açores almejavam uma verdadeira abertura ao mundo. Região de acesso quase equidistante da Europa e da América do Norte, os habituais fluxos de passageiros das companhias aéreas priorizavam justamente um universo difuso e cada vez mais heterogéneo, na sua ligação com a terra-mãe, nos seus costumes, na miscigenação com comunidades autóctones: a diáspora.

Finalmente o espaço aéreo do arquipélago foi aberto à iniciativa livre, projetando um campo concorrencial e por isso mais competitivo e mais agressivo. As companhias aéreas de baixo custo mostraram-se interessadas na exploração de um “nicho” apetecível de mercado, aproveitando o descontentamento dos locais com os elevados preços de bilhetes de avião, por um lado, e a curiosidade crescente dos que, na maioria dos casos por razões estritamente económicas, ainda não tinham tido a oportunidade de demandar a região, por outro.

Chegam voos, com taxas de ocupação crescentes e, para alguns dos momentos do “Verão IATA” a rondar os noventa a cem por cento, chegam turistas e curiosos, chegam profissionais das viagens e das descobertas ou simples viajantes de ocasião. E se uns, no arquipélago, fazendo da memória curta um dos seus atributos, se apressam a relembrar “centralismos” micaelenses ou, noutro âmbito, a questionar comportamentos dos novos visitantes, outros aproveitam para esfregar as mãos e tentar aproveitar a vaga, potenciando os produtos e baixando, inclusivamente, os preços ao consumidor final.

Resta perceber se há, ou não, uma estratégia efetivamente concertada para o desenvolvimento sustentado e sustentável da atividade turística como um dos pilares da economia regional, para lá do “show off” (algum de questionável retorno efetivo) dos apoios milionários ao SATA Rallye Açores, ao Red Bull Cliff Diving ou ao SATA Azores Surf Pro. Se há uma ideia de turismo e de turistas, se há concertação entre agentes a montante e a jusante de uma simples visita de um novo passageiro de “low cost” ao arquipélago.

Comecemos pelo princípio: o que podem vender os Açores como atributos? Não podem, certamente, vender o seu clima. É incerto, é imprevisível, é extremamente húmido e não oferece garantias de uma estadia de praia ou de momentos de exuberante exposição solar. Portanto, a “massificação” não é o conceito a seguir, não é elemento primordial a observar na estratégia.

A região pode apostar no turismo de ambiente, na venda da paisagem, da natureza. Pode apostar no turismo cultural e religioso, considerando a tradição diversa de algumas ilhas e a capacidade de atração de turistas que um conjunto de atividades e celebrações nesses âmbitos poderão ter. Pode apostar no turismo de mar, pela ampla paleta de ofertas a esse nível que vários locais do arquipélago possibilitam.

Estas são as áreas de segmentação que devem merecer uma aposta clara, estruturada e válida, e que envolva todos os operadores do setor. Chegados aqui, deparamos com outra imperiosa necessidade da imagem turística açoriana: a qualificação… E este será, porventura, o aspeto em que mais passos terão ainda de ser dados, em que mais ações deverão ser implementadas para conseguir ombrear com destinos turísticos “à priori” mais apetecíveis e, sobretudo, em que o sorriso é palavra de ordem nos agentes desta indústria.

O elemento humano é determinante: o seu conhecimento do mercado, a sua preparação, a sua simpatia, a sua disponibilidade. E nos Açores essa é uma pecha. Uma pecha grave, e que macula (quase) decisivamente a análise global da região como destino privilegiado. A aposta no treino dos profissionais que efetuam a última ligação entre o produto e o cliente final é tão fundamental que, se for descurada, poderá colocar em causa todo o esforço entretanto efetuado, todas as campanhas, todas as esperanças, todo o edifício. Com ou sem “low cost”.

Rui Almeida

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