Como tenho tentado explicar, não creio que esteja nos tradicionais exercícios orçamentais nacionais a chave para as reformas que penso tanto a economia europeia e muito em particular a portuguesa estão necessitados. Creio no entanto que uma das principais doenças nacionais nas três décadas de cavaquismo e de integração europeia que atravessámos foi o mito do “bom aluno”, e esse mito, honra seja feita a António Costa, penso ter levado uma machadada fatal.
A figura do “bom aluno” que foi inventada e martelada incessantemente na cabeça dos portugueses era uma personagem de opereta. O aluno não era bom, era “manteigueiro” – figura que toda a gente que passou pelo ensino conhece – e que quer trocar a sua falta de capacidade e ou de empenho pela adulação do professor.
No caso português a manteiga aliou-se à cabulice. Quanto mais loas se apregoavam à fé europeia, quanto mais servilismo se mostrava por quem tinha poder, quanto mais se jurava o cumprimento das regras, mais se inventavam estratagemas, engenharias financeiras, contabilidades criativas e mais tudo era feito ao contrário do que era suposto acontecer.
Em numerosos casos, o zelo do aluno excedeu as lições do professor, e assim se inventaram diretivas europeias que proibiriam colheres de pau e se promoveram legislações extremistas que terminaram com lagares de azeite ou queijarias tradicionais ou galheteiros, enquanto a “pipa de massa” europeia se traduziu num desenvolvimento estrutural que – apesar do muito de positivo que teve – tem uma avaliação de eficácia global francamente medíocre.
Com a evolução das instituições europeias de uma construção federal para uma construção imperial germânica, a figura do “bom aluno” tornou-se particularmente hedionda, com os nossos dirigentes transformados em marionetes capazes de dizer as maiores barbaridades desde que isso parecesse estar de acordo com a voz do dono.
Esse estado de coisas levou à queda livre do nível intelectual dos nossos dirigentes e teve o seu nadir no anterior primeiro-ministro que tem excelente colocação de voz e boa figura e é capaz de dizer que sim ao que quer que seja sem ter sequer a menor consciência do que está a dizer.
Ora aquilo que António Costa fez foi exatamente o de mandar às malvas essa figura de estilo do “bom aluno”, respondendo de forma extremamente pertinente e ágil que não iria maçar a senhora chanceler da Alemanha com as questões orçamentais portuguesas, ela que tem tanto com que se preocupar no plano orçamental alemão.
E, provavelmente agora que estás prestes a chegar a hora de vermos o Deutsche Bank seguir os passos dos mais que bons – excelentes alunos – que tivemos na banca portuguesa, talvez seja o momento de pensar em como passarmos a pensar em mudanças de fundo que ponham na rua os bons alunos que nos arruinaram.
Paphos, 2016.02.08
Paulo Casaca
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