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O “nosso” tão necessário Luto

Júlio Tavares Oliveira

Escrevo estas palavras como se fossem minhas; mas já não o são. Essa mania, detalhada, de deter, de forçar as coisas com o nosso sangue – uns exemplares, um nome na capa, um título, um bilhete de identidade, simplérrimo, um nome a papel selado, um número de contribuinte na fatura – e temos tudo? Não… Falta-nos sempre algo! Essas palavras, que me saem da ponta dos dedos, agora mesmo, estas palavrinhas solenes e medrosas de qualquer reação, não me pertencem mais a mim – são já património de todos; o mesmo acontece comigo (eu sou património de alguém… que, como eu, me nega constantemente), ou, melhor dizendo, eu estou lutando contra a minha mente – todos os dias – para crescer à custa disso (e ficar, acredito, ainda mais forte).

Escasso seria dizer que pertenço só a mim mesmo; mas não, seria mentira – se também há um processo por detrás. Isso, só isso, já seria demasiado. Mas não chega! Eu pertenço – até – a quem não me quer para mais nada – a quem me diz que eu não tenho valor algum – somos todos, de todos, um pouco em toda a parte, e de toda a parte – e de ninguém.

Respeito quem não me quer ver, nem ouvir, nem sequer tocar; mas não podem ignorar que eu estou presente sem ‘estar’ ali, ao seu lado – essa mania estranha de pertencermos onde não somos, de facto, sequer chamados, onde somos até muito apedrejados, é uma cola pesada, mão pesadíssima na consciência, nas emoções, uma tabuleta de perigo num coração vazio de anúncios e de um simples gesto de ‘amor’.

Escasso seria anunciar que não pretendo estar de saída donde não sou bem-vindo neste Mundo – e estou mesmo convicto de que isto não constitua perseguição: esse lugar onde estou não o herdei de ninguém (somenos foi-me dado de bandeja) – foi conquistado. Levaram-no de mim, é certo, mas não me levarão do meu ‘lugar’ de conquista – eu que sou, e serei, um cidadão do Mundo, de todos os lugares, mas em especial, dos lugares onde não sou bem-vindo, para todo o sempre.

O problemas das gerações de hoje em dia, sobretudo das mais novas e das mais velhas, é que não querem lembrar um passado, seu, que não lhes convença a sério: preferem esquecê-lo, varrê-lo para debaixo do seu tapete, ou omiti-lo contando versões diferentes. Fingir que nunca aconteceu é só adiar um problema criando um problema (ainda) maior. Se queres resolver realmente um problema, não finjas que ele não está lá.

O problema dos jovens, e até de alguns mais velhos, é que não valorizam as suas conquistas – algumas bem árduas –, têm-nas de cabeça leve e, também de cabeça leve, deixam-nas ir embora, e depois ficam arrependidos. Tens direito ao arrependimento, sim, mas nada te dá uma garantia, sólida, de que serás perdoado por isso – porque, muitas vezes, o arrependimento não é suficiente.

Não! Nós temos de lembrar a História, por mais penosa que nos seja, por mais dolorosa e inglória que nos seja, por mais desfavorável que nos seja, tal e qual. É a História, tal e qual – sem rodeios, nem mentiras, nem inverdades -, e nem por acaso a História tem de ser frontal com os factos (inclusive, com os nossos mais penosos factos…) – sem os confrontar com mentiras nem deturpações nem alienações. Reconhecer isto é parte da Cura, porque é enfrentar-se; como é enfrentar, também, parte do problema – ou o problema inteiro. É reconhecer que há um problema. É fazer o “nosso” Luto.

Recuso-me a dizer que já ‘esqueci’. Porque não se esquece a ‘História’, a nossa história pessoal e emocional sobretudo, que também se mede e é mensurável, mas aprende-se a viver com ela – e a partir dela também; a partir de um determinado momento, aprende-se a suportá-la, noutra hora, convivemos com ela, lado a lado, como irmãs de sangue, e, talvez num fim, haja aceitação e uma breve reconciliação – e aprendizagem, se houver… Este é o caminho mais sereno, mais justo, mais equilibrado dos factos históricos pessoais.

Assim, a verdade mais não seja do que a firmeza, e a coragem, de acedermos ao nosso coração e de proclamarmos, com absoluta convicção, de que não somos parte de um rebanho de cobardes a seguir um guião que dão a todos os que – como a esses – têm medo de enfrentar-se a si mesmos.

Nada de extraordinário no mundo foi feito de forma simples e mediana; nada de absolutamente diferente veio da mesma fórmula de sucesso. E, será mesmo?, tão extraordinário enfrentarmos a nossa própria História e reconhecermos, dentro de nós, onde pertencemos, onde somos bem-vindos, onde podemos e não podemos entrar, quais são os nossos lugares, e onde estão as nossas fronteiras, afinal?

Será, de facto, tão difícil assim fazermos o “nosso” tão necessário Luto?

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