
Nélio Tavares Miranda: Cada vez temos menos jovens na agricultura e segundo o Instituto Nacional de Estatística, nos últimos 30 anos, na idade compreendida entre os 16 e 34 anos, os Açores perderam 78 por cento dos produtores.
Existem muito menos produtores, há muitos filhos que já não seguem as pisadas dos pais, é uma vida que não é atrativa. O número de horas que se trabalha e tudo aquilo de que abdicamos, torna-se muito complicado. Há 30 anos os nossos pais só conheciam o trabalho, as pessoas que trabalham atualmente neste setor hoje em dia começam a dar mais prevalência à qualidade de vida, querem ver os seus filhos crescer e levá-los à creche. Antigamente havia aquela imagem de que o lavrador estava sempre nas vacas e pouco tempo em casa, hoje em dia isso já não acontece. Hoje há por isso menos produtores. E quando o presidente do Governo regional tenta desdramatizar com a conversa de “poucos mas bons”, não é isso que está a acontecer. Hoje os agricultores estão literalmente a pagar para trabalhar. Os lavradores sentem-se prejudicados com valores da segurança social que têm de pagar, muito elevados, porque é baseado no volume de faturação e há muita despesa.
Não é a vaca, nem a agricultura que é o principal responsável pela poluição. Dentro deste jogo todo, elas são quem tem menos importância, porque vimos isso na altura da covid em que, com os aviões em terra, havia menos gases. E fala-se muito no turismo, mas esse só existe porque os agricultores deixam as pastagens bonitas. Por outro lado, não se consegue arranjar mão de obra e os agricultores estão tão saturados que qualquer coisa serve para desistir. Em tempos era um orgulho ser agricultor ou lavrador, havia o brio. Hoje em dia os pais até desaconselham os filhos a seguir esta vida.
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