1
Certo velhinho andava
Com um cajado na mão
À procura de quem o dava
Um pouco de roupa e pão.
2
Sua história me contou
E pediu-me para a escrever
Num rosto triste desatou
Com suas lágrimas a correr.
3
Eu já perdi os meus brilhos
Diz o velhinho amargurado
Com amor criei meus filhos
E fui por eles desprezado.
4
Eu sempre fui educado
Como eduquei os filhos meus
Agora sou maltratado
Só me resta o amor de Deus.
5
Com carinho amor e empenho
Tudo os dava a sorrir
Hoje quer comer e não tenho
Nem cama para dormir.
6
A mulher que Deus me deu
Muito nova foi pro além
Com 30 anos faleceu
Fiquei eu como pai e mãe.
7
Até que meus filhos se casaram
Tal como eu me casei outrora
Na minha casa ficaram
E pusera-me de lá para fora.
8
Para o nome deles tudo passei
Minha casa terra e dinheiro
Mas no mal nunca pensei
Por ser um pai verdadeiro
Agora que velho fiquei
A dormir num velho celeiro.
9
Sinto tanto esta mágoa
Que me rebenta o coração
Quando tenho sede bebo água
Mas falta me um pouco de pão.
10
Tudo na vida se transforma
Quando um velho doente cai
Gastam a minha reforma
E não se lembram do pai.
11
Vejo minhas mãos a tremer
Minhas pernas já cansadas
Eu já mal posso ver
Já sinto as vistas pesadas.
12
Sei que não é nenhum castigo
O que passo neste momento
Peso a Deus que é bom amigo
Que me tire deste sofrimento.
13
Sei que um dia chegará ao fim
Estes dolorosos passos
Quando Deus se lembrar de mim
E me receber nos seus braços.
14
Os que sofrem serão bem -aventurados
Como na Bíblia está escrito
Tal como serão consolados
O doente, o triste e o aflito.
15
Ainda assim eu os perdoe
Como pai sinto amor sem fim
E que Deus os abençoe
Mas não se esqueça de mim.
16
Depois de a história me contar
Ainda estava chorando
Quis tanto me abraçar
Depois continuou caminhando.
17
Pobre velho abandonado
Me pareceu bom companheiro
Mais tarde foi encontrado
Morto no velho celeiro.
18
Quem nesta miséria cai
Por filhos de mau coração
Porque quem faz isso a um pai
Não merece ter perdão
19
O que vos escrevi aqui
Foi por João Silvério Sousa
Tantos filhos que estão para aí
Que hoje fazem a mesma coisa.
Autor: João Silvério Sousa
(Poema na edição impressa de maio de 2015)
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