O mundo está a mudar. Ao puxarmos atrás a memória de um ano atípico e convulso, a consciência coletiva sobressai, as populações ganham uma súbita energia que se propaga por osmose, e demonstram que, afinal, a democracia e as suas diversas vertentes de aplicação prática movem montanhas, ultrapassam dificuldades, tomam a forma que as multidões pretendem.
No Egito, na Tunísia, na Líbia e na Argélia, porque os sistemas ditatoriais se sobrepunham, o grito de revolta de milhões de cidadãos anónimos transformou-se em revolução e obrigou os donos de um poder enquilosado e decrépito a depor as armas. Pelo meio, porque as tendências religiosas e algum fanatismo na ação configuravam pretextos de violência, ficaram corpos inertes e um cheiro a pólvora que alertou o mundo.
Nas cimeiras do G8, do G20 ou nos encontros mundiais sobre o planeta, o seu ambiente e o seu clima, ouve-se e vê-se o sentimento coletivo de uma franja significativa de jovens, ambientalistas, ecologistas, defensores de uma forma de democracia interventiva e denunciadora. São centenas de milhares, talvez milhões os que convergem para as cidades-sede dos encontros dos senhores do poder, prenunciando que os contra-poderes sociais ali estão, preparados para mostrar que a força do dinheiro e dos interesses políticos tem, na rua, um opositor organizado, impressivo e disposto ao sacrifício de alguma liberdade individual a favor das vontades coletivas.
Na Grécia, em Espanha e em Portugal, a crise profunda e as medidas duríssimas de uma austeridade que atinge limites há poucos anos impensáveis, revelando-se socialmente devastadora e próximo da fronteira do desumano, fazem com que a “força da rua” surja pujante, determinada, e curiosamente transversal quanto à origem e idade dos que a integram. Uma nova forma de democracia, em que o poder, sem ser jogado à rua, é pela rua reivindicado, numa solução limite de sociedades desenvolvidas, mas estranhamente entregues à ditadura dos grandes interesses económicos e das tendências financeiras mundiais.
Esta necessidade de união e participação cívica por motivos conjunturais demonstra, em primeiro lugar, a capacidade e sentido crítico de um muito abrangente leque social. Um sentimento de justiça pelas próprias gargantas e pela presença maciça que procura materializar a revolta interior, e que encontra no seu semelhante, ainda – ou talvez porque – de idades distintas e meios de subsistência diversos, um aliado de ocasião para soltar um grito de alerta que incomode, que seja audível e, acima de tudo, que sirva de aviso.
As raízes latinas de três países europeus podem, na sua génese, ajudar a explicar esta repentina capacidade de mobilização popular. Mas também ajudam a perceber que há um princípio, em democracia, que é inegociável, qualquer que seja o objetivo, qualquer que seja a razão profunda ou imediata de um protesto: o princípio do bom senso. E se gregos e espanhóis, ameaçados, certamente, pelo cutelo de dificuldades quase inultrapassáveis nas suas vidas do dia-a-dia, se esqueceram desse bom senso fundamental e pisaram o risco da libertinagem na forma encontrada para reagir, os portugueses, lembrando-se da fabulosa lição de orientação cívica e controle de multidões dada ao mundo há quase 41 anos, a 25 de abril de 1974, mantiveram uma áurea de auto-controle, de domínio sobre si próprios e sobre as atitudes tomadas que chegou a surpreender o mundo. Por um lado, pela dimensão, que qualquer político ou analista não pode negligenciar, de um grito coletivo jamais visto na história contemporânea da democracia lusa; por outro, pelo modelo encontrado, impressivo mas pacífico, determinado, sofrido, mas respeitador.
Todos percebem que, de facto, o mundo está a mudar. O mundo dos outros, e o nosso mundo. O mundo distante em quilómetros, e o que fica à nossa porta. O mundo de diferentes raças, de diversas religiões, de múltiplas formas de democracia popular e participativa. Mas um mundo diferente, em que o modelo de presença do cidadão não se esgota, sequer, a cada quatro ou cinco anos, nas assembleias de voto. E um mundo que não pode passar ao lado de quem decide. Sob pena de a democracia ser ultrapassada pela falta de bom senso.
Rui Almeida
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