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Sob o signo do Império

Paulo-Casaca-Europa-Dia-Mundial- (4)

Blois, cidade emblemática da França renascentista, realizou de 8 a 11 de Outubro a sua décima oitava edição dos seus encontros com a história, este ano dedicada aos Impérios.

Também chamada de “Anfiteatro sobre o Loire”, no centro de uma assinalável concentração de lindíssimos castelos ribeirinhos, a cidade soube fazer da cultura em geral e da história em particular o seu ponto de atração. Com centenas de eventos, mais de mil palestrantes e mais de cem mil participantes, os encontros com a história são a prova de como os eventos de qualidade cultural podem ser populares.

Fui este ano convidado a intervir numa mesa redonda sobre a desconstrução, construção e integração da Europa. O ponto mais interessante do debate centrou-se na afirmação do Banco Central Europeu (BCE) como a instituição que se tornou a mais importante na Europa contemporânea.

Nesse domínio comecei por lembrar que a saída do tesouro da ilha de Delos para Atenas simbolizou a passagem do que começou por ser uma confederação nascida de uma guerra defensiva, a Liga de Delos, para um império, a Confederação ateniense.

A constituição do BCE em Frankfurt pode ser vista como um momento semelhante. Mas, e é também por isso que é interessante entender como a história nunca se repete inteiramente, com a nomeação de Mario Draghi para seu presidente, em vez do poder total entregue à Alemanha, tivemos exatamente o contrário, o BCE a desafiar a lógica da austeridade para todos segurando e estimulando as economias periféricas europeias.

Como sempre na Europa, as coisas não se passarem de forma linear. Mario Draghi assumiu as rédeas da principal instituição europeia no final de 2011 afirmando-se como mais papista que o Papa, sendo ele mesmo a batizar o pacote de medidas de maior austeridade como o “Fiscal Compact”.

Pacientemente, Draghi foi urdindo a malha necessária à transformação do BCE num banco central semelhante ao dos EUA. Conseguiu já em 2015 lançar o seu megaprograma expansionista no valor de um trilião (nomenclatura americana) de Euros, ou seja, um valor várias vezes maior do que os 3% de défice dos Estados Membros do Euro em debate.

O imenso poder de uma estrutura não eleita como o BCE, as suas ligações assumidas ou presumidas com os interesses financeiros, a lógica bancária dos estímulos e finalmente o potenciar dos desequilíbrios externos dos membros da zona Euro são tudo fatores que põem em causa a sustentabilidade do modelo. Contudo, o que parece ter escapado à análise da generalidade dos observadores é que já não temos uma Europa agrilhoada à obsessão alemã com a austeridade.

E também por isso, dei comigo a pensar em como teria sido tão útil que os atores mediáticos e políticos nacionais percebessem melhor o mundo em que atuam e os desafios que enfrentam.

Bruxelas, 2015-10-13
(Paulo Casaca)

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