
Como um dente de leite de uma criança prestes a cair. Assim está a rua da Boa Viagem, na freguesia das Calhetas, concelho da Ribeira Grande, flagelada por sucessivas derrocadas infligidas pela força de um mar do norte que já ganhou cerca de três metros de costa à localidade.
Boa Viagem só de nome. A rua está interdita ao trânsito e quem por lá passa a pé não arrisca um olhar sobranceiro à falésia. A vedação que serve de proteção também não permite grandes aventuras. Já foi a rua principal da freguesia, agora o que sobra dela é um carreiro com pouco mais de meio metro de largura por onde só passam pessoas a pé. Nesse limbo entre o presente e o momento seguinte onde tudo se pode alterar – o risco de mais derrocadas está bem presente quando se olha o mar e vê-se a terra fresca nas pedras – ainda vivem algumas famílias que, por agora, não pensam sair das suas casas.

Odília Pereira tem 50 anos e nunca morou noutra casa que não a sua. Vive com o pai, debilitado pela doença e pela idade. Não pensa abandonar a habitação para outra com mais segurança, longe do perigo que espreita a cada onda que bate na rocha. “Não estou preparada para sair”, confidencia, deixando tudo nas mãos de Deus.
Seja como for, é uma existência na aflição, na medida em que novas derrocadas podem colocar em risco a estabilidade das moradias antes da obra de proteção da falésia se iniciar. “Meu pai mora aqui há 58 anos. Casou e veio para aqui. Nasci aqui. Nunca esperei uma coisa destas. Vivemos com o coração nas mãos”, balbucia.
“Vão fazer a obra e há-de ser o que Deus quiser. Só sairei daqui em último recurso. Se vão fazer a obra e se vão gastar tanto dinheiro, não é para ficar bom?”, questiona.
Com a voz trémula e o olhar perdido no horizonte, Odília Pereira recorda o passado com saudade: “antigamente havia casas do outro lado da rua, ainda mais perto do mar. Agora já não tem. O mar foi comendo”. Uma situação que também está a causar “grande transtorno emocional” no pai. “Ele ficou muito abatido”, diz Odília.

Na casa ao lado vivem quatro pessoas. Oriana Costa, 64 anos, mais o marido, a filha e o genro. As palavras também não são de uma esperança avassaladora, mas a fé fá-los resistir. “Não se pode reagir muito bem a tudo isto porque é uma situação muito triste. Trabalhamos muito neste mundo para ter uma casinha e agora aparece um trabalho destes e vai tudo por água abaixo”, lamenta.
Mas tal como a vizinha, Oriana Costa acredita que a obra vai remediar o mal feito. “Temos esperança que as coisas vão-se recuperar. Vamos ver o que vai ser feito”, mas mais tolerante a abandonar a moradia. “Se a rua não ficar segura, estou disposta a sair, sim. Gosto da minha casa, foi aqui que me criei, mas se não houver segurança terei de sair”, assume.
Contudo, confessa-se renitente. “Vejo tudo muito atrasado. Já saiu o concurso, mas não sei. Aquilo está muito fundo ali e estamos sempre com o coração nas mãos”.
Acácio Mateus
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