
Pelo colorido átrio da Escola Secundária da Lagoa, na ilha de São Miguel, estão espalhadas várias estruturas tridimensionais, ou seja, impressoras 3D. Como o próprio nomes indica, imprimem objectos a três dimensões. As impressoras são silenciosas mas o barulho das vozes dos alunos abafa qualquer outro ruído.
David Rosa é o pai da impressão 3D na Secundária da Lagoa. Frase dita por colegas. Mas afinal, como começou este “bichinho”? “Foi no dia em que uma peça de um frigorífico se avariou e eles pediram um montão de dinheiro para a peça completa quando era só uma pecinha de plástico pequenina. E depois eu tinha um amigo que tinha uma impressora 3D, perguntei se era possível imprimir e fiquei completamente fascinado com a possibilidade de encontrar na internet a pecinha, de imprimir e poupei imenso dinheiro. Aquele dinheiro que era da peça do frigorífico, usei-o para comprar uma impressora 3D”, conta o docente de matemática ao Diário da Lagoa (DL).
Ou seja, é possível imprimir praticamente tudo? “É e não é, tem limitações. Plástico é plástico, plástico não dura tanto. Mas não há problema, como a impressora é minha eu posso imprimir quanto eu já quiser. Eu posso imprimir no plástico que é vendido mas eu evito porque é um plástico que vai durar para sempre no planeta. A gente evita o ABS. A gente usa o PLA”, explica David Rosa.
O docente destaca a importância deste tipo de atividades para os alunos: “quando tu consegues fazer um desenho onde metes matemática, ângulos, senos e cossenos, e tens aquele desenho feito no computador, e tens na tua mão, depois de imprimir, é o maior orgulho de uma pessoa. É que muitas vezes a gente pega a matemática, a gente faz os cálculos, a gente desenha a peça, e fica lá. Mas a seguir, mandamos imprimir, e temos a nossa mão”. E isso mesmo mostra-nos um grupo de alunos maioritariamente do 10º ano. “Aqui nós temos alguns dos constituintes de um projeto do ano passado chamado CanSat. Esta atividade consistia em elaborar um micro satélite do tamanho de uma lata de refrigerante e então depois transmitimos dados de pressão e temperatura por esta antena com a ajuda da estação de base. Finalmente tinha de aterrar em segurança no solo com a ajuda de um paraquedas”, explica ao aluno Gonçalo Martins.
Sofia Linhares, também aluna do 10º ano da mesma escola, diz que “toda a equipa participou um pouco em tudo porque a nossa equipa era muito unida. Ajudamos na construção da antena, na parte da eletrónica, na estação base”.

“ Eles aqui constroem. No meio disso tudo, além de os motivar a fazer as tarefas que eu quero, eu ainda ganho o pensamento computacional. Porque isso é a primeira parte para ensinar modelação”, conta Paula Silva, professora de Físico-Química enquanto nos mostra os mais variados objectos expostos na sua banca. “ Eu desafiei os miúdos porque não, a modelarem, criarem e imprimirem. E cá está, essa é a minha molécula de metano. O facto dos miúdos também terem contato com o objeto, aprendem e apreendem mais facilmente. Uma coisa é desenhar em 2D, outra coisa é eles perceberem como é a molécula em 3D”, exemplifica a docente mostrando o objeto criado.
“Podemos olhar aqui à volta, todos estão ligados à impressão 3D. E quando digo todos, começando pelos professores inicialmente para dar formação e depois passando para os alunos. Alunos que não só são de todos os ciclos, do secundário, do regular, mas também temos aqui muito trabalho feito pelo ensino especial. É um trabalho colaborativo em que temos vários professores que adquiriram as capacidades de usar a impressão 3D e agora aplicam em diversos cenários educativos”, explica o docente João Freitas, coordenador deste programa Erasmus.
“Nós temos aqui trabalhos feitos em barro pelos meninos, mas muitos desses trabalhos que estão aqui foram utilizados com moldes que foram feitos na impressora 3D aqui da escola”, diz Marta Brum. Para a professora “é uma forma deles socializarem e mostrarem também à comunidade aquilo que fazem. Eles vão desenvolvendo algumas competências, muitas competências aqui connosco nesse tipo de trabalhos. São meninos que não conseguem ler nem escrever, não falam, praticamente, e a gente vai tentar desenvolver atividades com eles, outras capacidades”.
A impressão 3D mostra assim que pode ser inclusiva e de fácil acesso a quem quiser aprender esta arte. “O único limite é a imaginação porque temos que imaginar que à nossa volta há todo um conjunto de objetos que antes tinham que ser comprados e neste momento nós podemos produzir na escola, inclusivamente, certos aparelhos, certas partes, componentes, quando se partem, em vez de a gente adquirir e se calhar pagar um valor bastante grande por eles, eles podem ser produzidos na escola”, defende João Freitas.
“Conseguimos produzir objetos de uma dimensão significativa. O conceito é, se eu consigo produzir pequeno, consigo produzir grande. Aliás, produzir grande é mais fácil do que produzir pequeno”, considera o docente.
E há pessoas que podem imprimir sem perceber matemática? “Sim. É possível fazer um download na internet de um objeto já feito e só tem que perceber, mete o filamento e manda imprimir. A maior parte dos meus colegas que agora falam comigo que são de impressão 3D não são de matemática, são de todas as áreas, de História, para imprimir bustos, Educação Visual, para imprimir objetos que dêem imagem de 3D, em inglês eu posso imprimir o Shakespeare e outros”, exemplifica David Rosa. No mundo da impressão 3D o céu parece mesmo ser o limite. O céu e a imaginação.
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