
Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito
No dia 24 de Abril de 1974, Portugal adormeceu numa ditadura, sem saber que acordaria, a 25 de Abril, livre, sob o signo da democracia, naquela que seria uma das transformações de regime mais admiradas da história, devido à pacífica autolibertação de um povo. Fez-se uma mudança de regime político do dia para a noite, sem sangue, e com cravos.
A revolução dos cravos simboliza, na sua essência, a rejeição de um regime autoritário e fechado, substituído por um sistema político aberto, livre e integrado no mundo livre. A ordem política resultante dessa transição constitui a mais duradoura e estável de todas as experiências democráticas de Portugal.
Porém, temos o dever de retroceder na história da história e recordar que o Portugal derrotado no século XIX pelos liberais, continua a existir, à espreita para romper com a democracia. Por isso, temos o dever de proteger a democracia e aquilo que ela nos dá, fazer perdurar este ciclo democrático.
A revolução de Abril sonhou a democracia, e hoje temos democracia, sendo o expoente máximo da sua expressão a liberdade. Democracia sem igualdade e liberdade é farsa.
Hoje somos governados num sistema livre e com ganhos sociais incomparáveis com os de épocas anteriores: mais do dobro do nível de vida; metade da taxa de pobreza; esperança média de vida superior em cerca de dez anos e mortalidade infantil inferior a um décimo da que era então. Mais, as mulheres têm direitos e a imprensa é livre. O que hoje nos parece básico, nem sempre o foi. Por isso, pergunto: quem tem saudades de Salazar?
A filha pródiga de Abril, a Constituição da República Portuguesa – a mãe de todas as leis portuguesas, definiu os pilares organizacionais da sociedade portuguesa, construindo uma sociedade livre, justa e solidária, com margem para progresso e não para retrocesso. Ver o futuro, olhando o passado, para que não se repita.
Ora, volvidos 50 anos de “Abril”, nunca foi tão oportuno falar de Abril e daquilo que nos trouxe: liberdade. Em Portugal, falar “Abril” é falar livremente de liberdade. Não há liberdade na língua de Natália Correia sem Abril, e esta soube-o bem enquanto mulher e poetisa.
Aos dias de hoje temos e somos o produto de uma liberdade que nos foi dada por quem a conquistou: liberdade de escolha, movimento, pensamento e expressão.
Viver Abril é romper com a propaganda da mentira, combater a distorção da verdade enquanto padrão para imposição de uma falsa realidade, aproveitando a ignorância de um povo fragilizado, fruto da subnutrição intelectual a que foi sujeito.
A história tem-nos ensinado que os radicalismos, especialmente, de direita, chegam ao poder pela via democrática, enquanto resultado da escolha popular que foi, sucessivamente, ignorando os sinais de alerta. Uma legitimação popular do exercício «democrático autoritário» que ostraciza a liberdade e é apaixonado pela força.
Sindicar Abril é repudiar autoapregoados messias de origem divina com a única missão de defender ou salvar o que “resta” da democracia.
Não vamos reciclar falácias já experimentadas.
Sempre se dirá que as atuais convulsões sociais são produto da liberdade de Abril, pois tal só é possível devido à liberdade que nos foi dada. Não obstante, a liberdade de Abril é uma oportunidade para sermos melhores. Esta é a visão de Abril.
É obrigação honrar Abril.
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