Cartazes, “make up”, “photoshop”. Palavras de ordem gastas de tanta promessa, sensação permanente de “déja vu”. A cada quatro anos, o ciclo repete-se, numa ladainha que apenas os mais incautos conseguem ainda escutar e que faz das campanhas eleitorais o topo das pautas informativas.
Chegam as eleições e, depois da caça ao voto, o respeito devido pelo eleitor, pela causa pública e pelo espírito de missão, depois do corrupio de feiras e mercados, de ruas e ruelas, de praças e pracetas, de caixas do correio a transbordar de lancinantes apelos, escapam pela primeira sarjeta, como um veio de água que teima em esconder-se após a chuva.
Esta é a ideia que grande parte dos cidadãos eleitores tem da atividade política. Estes são os momentos em que muitos desejariam ter férias para gozar, ter um qualquer paraíso tropical para se esconder durante duas semanas, evitando as campainhas de desespero dos caçadores de voto útil e os seus sorrisos de ocasião que, em situação normal, tipificam o que de mais oportunista pode ter o ser humano.
Parece um quadro demasiado vincado? Pode parecer, mas a realidade é, por vezes, avassaladoramente cruel: os políticos deste país fazem dela, da política, da nobre atividade que visa servir a causa e a coisa públicas e pugnar pelo bem estar do seu semelhante, um modo de vida, uma profissão, uma atividade permanente e razoavelmente remunerada que teima em passar ao lado de crises, que não se compadece com salários em atraso e que determina amnésias mais ou menos profundas.
Este é um mês de promessas. As promessas que, a cada quadriénio, são retiradas dos baús e repetidas à exaustão, com gestos mais ou menos estudados, sorrisos encenados e “sound bites” calculados para fazerem as delícias das aberturas dos principais serviços noticiosos televisivos. A atração pelos “media” ganha peso e forma nos debates, com medição de audiências, contabilização de tempos de antena e assunção de vitórias efémeras, como se disso dependesse um futuro tranquilo. E depende, para os seus autores, que, no parlamento ou nas assessorias, no governo ou nas consultorias, ganham lastro para os quatro anos seguintes e garantem, assim, mais uma passagem ao lado da crise.
É exatamente assim: havendo exceções à regra, esta diz-nos que a missão política se rendeu à profissão de político. O estar na política para servir foi rapidamente substituído pelo ser político para se servir. Um ou dois mandatos (o que a lei, porventura ainda mais restritiva, deveria limitar) transformam-se em verdadeiras “carreiras profissionais”, com “servidores da causa pública” a seguirem a vida política durante dez, quinze ou vinte anos. Porque à assessoria se segue uma assembleia, a esta se pode seguir um governo ou uma vereação autárquica, depois uma nomeação para um instituto público e a seguir, de novo um parlamento. É assim anos a fio, sem vergonha de qualquer espécie, sem nenhum prurido em subverter o verdadeiro espírito dos cargos públicos, em que nunca se deveria “ser”, mas sempre se deveria “estar”, estar de passagem, sem apegos e sem colagens.
A missão dos detentores de cargos públicos transformou-se na profissão da causa pública, num jogo de interesses e de oportunidades que, não raras vezes, choca o eleitor e embaraça a democracia. Nos bastidores de um parlamento, o que de manhã é verdade à tarde deixa de o ser, se o partido opositor, entretanto, tiver uma ideia semelhante. A contradição atinge o clímax quando, nos púlpitos ou com a sedução dos microfones se diz hoje que há um caminho, e amanhã que o caminho inverso é que nos leva a bom porto. O irrevogável tornou-se provável, a falta de vergonha substituiu a honra.
E o cidadão, a cada quatro anos, vê o “remake” de um filme corroído pelo tempo e pelas promessas vãs. Um filme em que os protagonistas se eternizam. A missão que virou profissão.
Por Rui Almeida
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