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“Neste Natal… vou divorciar-me!”

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Em cada Natal, o menino Jesus convida-nos a renascer, com Ele, para a autenticidade da vida, princípio e fim da nossa existência. Mas é cada vez mais difícil nascer de novo, numa manjedoura de valores e afetos intemporais porque vivemos numa sociedade que nos quer fidelizar às coisas e não às pessoas, razão de ser da vida.

Recebi uma carta de um Banco a sugerir-me um empréstimo para que eu possa oferecer-me, pelo Natal, “tudo o que o que me deixa mais feliz”. Proposta tentadora, mas desnecessária para a minha felicidade. Multiplicam-se as campanhas e anúncios publicitários para nos fazer acreditar que isto e aquilo são realmente necessários para o nosso bem-estar individual e familiar. Resistimos a algumas propostas (porque é impossível dizermos sim a todas) mas acabamos por nos comprometer com aquela proposta, de uma campanha de Natal, que nos promete vantagens e preços irrecusáveis, porque “era mesmo o que eu estava a precisar”. Depois de papelada e mais papelada, assinamos contrato. “Felizes da vida”, recebemos sms promocionais até nos fartarmos. Chegado o dia em que queremos romper o contrato porque o dinheiro já não chega para tudo ou porque simplesmente não queremos mais aquele serviço ou tarifário… descobrimos que atualmente é mais fácil e rápido um divorcio entre pessoas, do que entre pessoas e coisas.

De fato há uma tendência, por um lado, de desburocratizar as relações humanas, o que em tese é muito bom, mas na pática simplificámo-las até ao ponto de as podermos esvaziar. Nada de compromissos duradoiros, de fidelidade sem prazo, porque com alguns dizem esses são valores “de antigamente”. Por outro lado, as coisas ganham um valor desmedido, irreal, por vezes capaz de nos fazer pensar que os compromissos que a que temos de sermos fiéis são com elas, as coisas.

Não estaremos a aceitar, com mais facilidade, a austeridade de uma bagagem «low cost», do que alguma restrição na relação com os outros? Nas viagens do consumismo, aceitamos que nos ditem as regras, façam imposições, porque sem essas as coisas não dão certo. Enquanto nas viagens dos afetos, queremos que tudo dê certo sem regras ou privações.

É por isso que, neste Natal vou divorciar-me de algumas coisas, para poder viver apenas em união de facto com as mesmas, sem compromisso nem contratos. Apenas quero ser fiel à vida, às pessoas: a mim, aos outros e ao menino Jesus. Ele veio e vem fazer aliança com a Humanidade, contigo e comigo. Por isso, quando Ele me disser, mais uma vez, de junto do altar do presépio: ”aceita esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade”, eu vou responder-lhe … sim aceito!

 

Por: Pe. Nuno Maiato
(Publicado na edição impressa de dezembro de 2015).

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