Log in

O ano do Tagarete: Arqueologia em Vila Franca do Campo

Por Diogo Teixeira Dias
Arqueólogo

A palavra-chave da Arqueologia, em Vila Franca do Campo, este ano que passou, é “Tagarete”.

O imóvel teve uma intervenção de limpeza, que contribuiu substancialmente para a sua dignificação, considerando o uso que lhe estava a ser dado: cemitério de embarcações, depósito de lixos, trabalhos de manutenção particulares, latrina ao ar livre e sala de chuto a céu aberto.

A Arqueologia foi a faísca da valorização. Teve como objetivo pôr a descoberto – mais do que descobrir – uma época mais próxima da nossa, mas nem por isso mais conhecida.

Um buraco que serviu, largos anos, para depósito de lixo foi a seteira – abertura – de um abrigo militar, para metralhadora ligeira, criado em 1941, no contexto da II Guerra Mundial. Provavelmente nunca dela saiu um tiro, mas lá está, materializando uma necessidade de defesa de um país neutro perante o conflito.

Já que se ia abrir uma sondagem – o nome técnico do que normalmente se designa por escavação – aproveitámos para ir até ao geológico – nível de rocha basáltica, onde assenta o forte, e abaixo do qual não há bens de interesse arqueológico, pois trata-se, regra geral, do nível estratigráfico da ilha sem intervenção humana.

Assim, chegávamos às pedras mais antigas. À alvenaria original e intocada do forte, onde os engenheiros do Laboratório Nacional de Engenharia Civil recolheram amostras, para datação e caracterização das argamassas antigas. Aguardemos.

Falta agora o mais importante: manter, conservar e interpretar. E estas aceções estão todas interligadas.
É fundamental que nos batamos para que a autarquia mantenha a limpeza do espaço, a sua interdição ao depósito de lixo e de embarcações em fim de vida. E, sobretudo, que se potencie a criação de uma estratégia interpretativa: que se mostre como era o forte nos seus vários períodos de uso. Com um painel, um QR Code, uma ilustração, o que for. Temos que contar a história!

Só assim será percetível, sobretudo para os frequentadores assíduos da envolvência do forte, do seu significado histórico. E essa perceção é uma arma poderosa, porque coloca as pessoas do lado certo da trincheira. Perceber é automaticamente defender.

Para 2025, este estudo prosseguirá. Continuaremos a campanha do Tagarete, projetando-se uma nova sondagem para a área da guarita sul. Novamente aberta à visita do público, e em época alta do Turismo. E baixa em pluviosidade.

Mas queremos alargar a nossa esfera de ação, para áreas também elas sensíveis, do ponto de vista arqueológico, histórico e turístico.

Parece já não ser segredo que se pretende levar a cabo um projeto alargado da valorização da Praça das Freiras de Santo André – Largo Bento de Góis – com uma intervenção na igreja do antigo convento de clarissas – o primeiro da ilha. Ali se instalou uma dinâmica, por intercessão de uma comunidade de religiosas, desde o século do terramoto até à extinção das ordens. Falamos de trezentos anos de História para contar, concentrados num mesmo lugar. À mão de semear e por desvendar. Ainda para mais, com a elevada probabilidade de, no interior da igreja, nos aparecerem os enterramentos e os esqueletos humanos. Um desafio e uma maior exigência.

Porém, felizmente, a autarquia acolhe o Estágio L da vila-franquense Daniela Cabral, mestre em Arqueologia (Universidade do Algarve), e também em Antropologia Forense (Universidade de Coimbra), com condições para corresponder às exigências legais e técnicas da intervenção, que se prevê, em contextos funerários.

Apesar de apontarmos para o mês de abril, para início de trabalhos, os timings ainda estão a ser definidos, a equipa está em fase de atribuição de funções e as entidades envolvidas – e a envolver – estão a ser contactadas. O obstáculo maior é, como sempre e também ele, a nossa motivação: o enigma. O que vamos encontrar?

Quando projetamos algo arqueológico para aqui, apesar das incógnitas, o lugar a escolher só é difícil pela variedade da oferta. Muito há para fazer na Vila. Mas continuaremos a levar em frente o trabalho de valorização do concelho, esperando que continue a impactar toda a Região Autónoma.

Há Património Cultural Regional a precisar de atenção. Em todas as ilhas. E não é preciso sequer escavar para o encontrar.

Aliás, o maior potencial arqueológico dos Açores, à semelhança do de Vila Franca do Campo, está acima do nível da terra e abaixo do nível do mar.

Apostemos nele. Agora e sempre!

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

CAPTCHA ImageCambiar Imagen