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O mais belo conto de natal

Conto Naal artigo opinião teresa viveiros_dez15Chega ao calendário o mês de dezembro. Há 46 anos desembarcava na estação de comboios do Fundão um soldado açoriano.

A ida para a guerra colonial arrancou-o da ilha, até Angola. Para trás ficou a família, os amigos, a sua terra. Consigo levou o desejo de um dia viver a alegria do regresso.

O itinerário obrigava a que fizesse uma paragem pelo continente lusitano. Era altura de natal, estava sozinho em Lisboa, e apetecia-lhe o aconchego de um lar conhecido. Pôs-se pelos caminhos-de-ferro em direcção à aldeia de S. Francisco de Assis, para passar a consoada com um casal que em tempos conhecera na ilha. A partida do barco que o levaria ao destino de guerra – estas guerras que mais não fazem senão trucidar e marcar quem as vive – obrigou a que partisse daquela aldeia, na manhã de 25 de dezembro, em direção à capital. O percurso implicava uma paragem de largas horas no Fundão. Sem nada que fazer para entreter o tempo, deu os passos que apetecem dar sempre que pisamos terras desconhecidas.

Era 25 de dezembro, já o disse, e o açoriano estava à sua mercê, numa cidade que respirava silêncio. Estava ele a ver uma montra quando se aproximou um jovem de catorze anos intrigado por ver um soldado solitário naquele dia. Lá o homem lhe explicou que vinha dos Açores, de Ponta Delgada. Ante a informação, o rapaz prontificou-se a levá-lo a casa de uns conhecidos que julgava naturais daquela cidade. Na realidade eram de Ponta Delgada, mas da ilha das Flores; não bastou serem do mesmo arquipélago, é que uma ilha está a ocidente, outra a oriente: e essa distância pode ser um oceano. Após a conversa de circunstância, fecharam a porta. O rapaz ficou desconcertado, e mesmo que o soldado insistisse que ficaria bem, o desconsolo que aquele sentia não havia forma de mingar. Levou-o para a sua casa. No fim do dia, partia o açoriano do Fundão, com os acenos de despedida de dezenas de pessoas da família e amigos do jovem que dele se foram despedir à estação. Naquele momento, o ilhéu sentiu-se um continente inteiro, com a certeza de que era sim possível sentir-se em casa, mesmo longe dela.

Este relato acompanhou-me ao longo da minha vida, ouvi-o inúmeras vezes do meu pai, um loquaz contador de estórias. Contava-o quase sempre por esta altura, o ponto de partida era o mesmo: “vou contar-te a mais bela história de natal”. O destaque ia constantemente para o rapaz que com a sua atitude altruísta conseguiu que o soldado se sentisse menos ilha.

Das minhas leituras natalícias de infância fazem parte Charles Dickens e Hans Christian Andersen, para citar apenas alguns, mas o meu lado esquerdo leva-me a concordar com o meu pai, sobretudo por ter sido ele o homem a apear no Fundão a 25 de Dezembro de 1969. Muito provavelmente o então jovem de catorze anos não se recorda deste episódio, mas o seu gesto permanece intacto na memória de quem o recebeu, e é contado até aos dias de hoje como a mais bela história de natal.

Os dias são apressados, vivemos distraídos no tanto que há para fazer. Paradoxalmente, como diz Tolentino Mendonça, nós que “inventamos o tempo, nunca temos tempo”.

Chegam-nos relatos de tragédias, quase diariamente, que nos transtornam. No entanto, muitas vezes permanecemos indiferentes com os que sofrem e estão próximos… E para com estes era fácil ter um gesto para atenuar a dor ou melhorar o seu dia. Vem-me à memória um excerto do Ditador de Charlie Chaplin “preocupas-te com a guerra que está do outro lado do mundo (…) mas não falas com o teu vizinho e não te importas”. Importa que nos importemos, importa cultivar a humanidade, o bem-querer, e isso pode começar pelos que estão próximos, sem nos mantermos alheios, obviamente, do que se passa no mundo. É que um gesto, um simples gesto de generosidade pode ficar na memória de quem o recebe e, quiçá, ser transformado num conto, no mais belo para a pessoa que o vive.

Texto: Teresa Viveiros
Créditos fotográficos: Fernando Resendes
Crónica na edição Impressa de dezembro de 2015

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