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O Caloteiro

João Silvério Sousa

 

1
Um certo caloteiro andava
Por todos os cafés locais
Procurando quem o dava
Fiado para nunca mais.
2
Bebia vinho aos potes
Sempre cheio de alegria
Pregava muitos calotes
E nunca mais aparecia.
3
Lá dizia o caloteiro
Mostrando ser bom rapaz
Vinho tinto ou de cheiro
Isso para mim tanto faz.
4
Mandava vir para os amigos
E fumava Santa Justa
É como diz os antigos
Comprar fiado não custa.
5
Certo dia o vendeiro
Já farto deste castigo
Encontrou o caloteiro
E disse-lhe “então meu amigo?”.
6
Diz-lhe o caloteiro baixinho
Para ninguém o ouvir
Quero-te pagar o dinheirinho
Mas não tenho a quem pedir.
7
O vendeiro de ouvidos prontos
Olhando para os demais
Tu deves-me cinco contos
Eu não posso esperar mais.
8
Responde então o caloteiro
Sem ter nenhum relevo
Com lata de trapaceiro
Negar-te eu nunca me atrevo
Se me emprestasses esse dinheiro
Pagava-te já o que devo.
9
O vendeiro cai na asneira
E diz-lhe vê se te ajuízas
E puxando pela carteira
Pergunta quanto é que tu precisas.
10
Diz o caloteiro de olhos tontos
Olha com coisas sérias não brinco
Empresta me seis contos
Que eu pago-te já os cinco.
11
Aqui tens o dinheirinho
Os cinco para aqui já vem
E vê se tomas juizinho
Para não enganares ninguém.
12
O caloteiro muito contente
Com a língua bem afiada
Eu sempre pago a toda agente
Nunca fique a dever nada.
13
Pôs-se o caloteiro a andar
Dizendo eu sou um bom freguês
O vendeiro começou a pensar
Ei já me enganou outra vez.
14
Volta o pobre do vendeiro
Cheio de ódio e ironia
À procura do caloteiro
Para por as contas em dia.
15
Encontrou o novamente
Diz-lhe o vendeiro já ruim
Tu enganas toda agente
Mas não me enganas a mim.
16
Amigo eu não te enganei
Diz o caloteiro tremendo
Só apenas te paguei
Os cinco que estava devendo.
17
E os outros que te emprestei
Quando falávamos em comum
O dinheiro todo somei
Dá o dobro e resta um.
18
Aí que até a língua eu trinco
Pago-te ate quinze ou dezasseis
Mas já te paguei os cinco
Estou te a dever só os seis.
19
Diz o vendeiro zangado
Grande maldito caloteiro
Além de te dar fiado
Fiquei sem o meu dinheiro.

Comentários

  1. avatar Alberto Costa 01-06-2024 09:58:47

    o falecido Eduardo Salvador Marques dos Santos, foi o maior caloteiro da cidade de Queluz deixou imensas dívidas por pagar a terceiros.

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